Pequim aposta na criação de nova locomotiva económica

Objetivo do projeto, que engloba Hong Kong e Macau, é reforçar a posição do país na luta pelo primeiro lugar entre as maiores economias mundiais e fomentar a inovação tecnológica. Resultados devem começar a surgir a partir de 2030

Pequim deve revelar em julho os contornos de um megaprojeto, que envolve nove cidades da China continental e as regiões administrativas especiais de Macau e Hong Kong, com o objetivo de promover o desenvolvimento económico do Sul da China e, por extensão, de todo o país.

O ambicioso projeto devia ter sido anunciado neste mês, mas Pequim adiou a divulgação na sequência da guerra das taxas alfandegárias com os EUA, indicava na passada semana ao South China Morning Post (SCMP) um conselheiro económico das autoridades de Guangdong, cuja capital, Guangzhou, é uma das nove cidades da província envolvidas no projeto conhecido sob a designação Área da Grande Baía. Para a fonte do SCMP, "incertezas externas" influenciaram a decisão de Pequim, que pretende causar grande impacto com a iniciativa que envolve uma população total de 66,7 milhões de pessoas e um produto interno bruto (PIB) conjunto de 1,3 biliões de dólares.

Um sinal visível do que está em causa é dado pela ponte que liga Macau a Zhuhai e a Hong Kong, com a extensão de 55 quilómetros, e o fim último é transformar a região "no mais importante centro de inovação científica e tecnológica" do mundo, explicou ao SCMP Lin Jiang, investigador na área económica da Universidade Sun Yat-sen, em Guangzhou. Ou seja, o motor de uma nova etapa para a economia chinesa, o que pode revelar-se decisivo para aquela que é atualmente a segunda maior economia mundial na luta pela posição de topo. Uma perspetiva que encontra grande recetividade na população local, como relatava o SCMP, a 16 de junho, citando um residente de Shenzhen na casa dos 20, Daniel Lin: a Área da Grande Baía "faz-nos sentir especiais no mundo. Estamos na moda e somos tão importantes como os nova-iorquinos ou os parisienses". "Somos tão internacionais como Seul ou Tóquio, mas ainda mais inovadores e motivados", salientou o jovem.

Um estudo da KPMG encomendado pela Câmara de Comércio Geral de Hong Kong em finais de 2017 salientava que, em média, mais de 80% dos inquiridos se identificavam e apoiavam o projeto, com a taxa mais elevada (85%) a verificar-se em Shenzhen, seguida de Macau (83%), Hong Kong (80%) e Guangzhou (78%).

Tendo sido sugerido num relatório de 2009 sobre o desenvolvimento da região em causa, o conceito da Área da Grande Baía foi formulado de forma pública em 2016 pelo primeiro-ministro Li Keqiang e, quando estiver concretizado, culminará a transição de uma província agrícola ainda há três décadas para um centro de inovação tecnológica e serviços, característica reforçada com a integração das regiões de Macau e Hong Kong. A população total abrangida pelo projeto é mais de dez vezes superior à população portuguesa.

Uma das cidades do projeto, Shanzhen, é já um centro de inovação tecnológica mundial

O estudo da KPMG antevê que a região do delta do rio da Pérola, curso de água que atravessa Guangdong para desaguar junto a Macau, se torne no espaço de pouco mais de uma década uma referência nas "áreas das indústrias de transformação de ponta, da inovação, da finança, comércio e transportes marítimos". Um espaço estratégico a integrar na Nova Rota da Seda (cujo quinto aniversário se assinala este ano) e que se espera seja "comparável a outros polos como o Grande Tóquio, a Baía de São Francisco ou Nova Iorque". O documento destaca o facto de uma das cidades envolvidas, Shenzhen, ser já "um dos centros de inovação tecnológica mundial" e de estar já baseada "numa economia de serviços". A cidade é sede do gigante das telecomunicações Huawei e a da principal empresa de serviços de internet na China, a Tencent, e o seu PIB é equivalente ao de Hong Kong, que foi de 340 mil milhões de dólares em 2017.

A agência Nova China referia, em julho de 2017, citando um responsável de Guangdong, que as cidades da província, Macau e Hong Kong, áreas onde se fala maioritariamente o cantonês, devem ter em prática o plano de desenvolvimento até 2020, de forma que tenham atingido o PIB mais elevado entre todos os polos económicos criados em torno de regiões ribeirinhas uma década depois, por volta de 2030.

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