Os nomes e as histórias dos que "não esqueceremos"

Isobel Bowdery fingiu estar morta no Bataclan para não morrer nas mãos dos terroristas. 129 pessoas não tiveram a sua sorte

"Nunca pensas que te vai acontecer a ti. Era apenas uma sexta-feira à noite num concerto de rock. O ambiente era de felicidade e toda a gente dançava e sorria". É assim que começa um texto acerca dos atentados que, na sexta-feira, tiraram a vida a 129 pessoas em Paris (número oficial divulgado ontem à noite). Foi partilhado mais de 600 mil vezes no Facebook. A mão daquela que o escreve sobreviveu ao ataque. Chama-se Isobel Bowdery, é sul-africana e tem 22 anos.

Fingiu estar morta. Deitou-se no chão do Bataclan, maior foco do massacre que, só naquela sala de espetáculos, matou quase cem pessoas. Tentou não se mover para que os atacantes não a atingissem com as armas que empunhavam, entre elas kalashnikovs, como tentou não reagir àquilo que, escreve, "não foi apenas um ataque terrorista, foi um massacre. Dezenas de pessoas foram mortas mesmo à minha frente. Poças de sangue no chão. O choro de homens feitos que seguravam os corpos mortos das suas namoradas atravessou a sala de concertos. Futuros destruídos, famílias de coração partido. Num instante".

Chamar as vítimas pelo nome

Muitos não sobreviveram a esse "instante" que começou quando os Eagles of Death Metal tocavam a sua sexta canção no palco do Bataclan. Muitos como Nohemi Gonzalez, que tinha 23 anos. Há muito que a americana natural dos arredores de Los Angeles sonhava pisar Paris, contou a sua família à NBC News. Trabalhara para pagar a viagem. Estudante da universidade da Califórnia, fazia intercâmbio e estudava design no Strate - College de Paris, que acabaria como fonte noticiosa da sua morte.

Véronique Geoffroy de Bourgies. A ex-manequim e jornalista francesa tinha 54 anos e presidia a uma associação humanitária que ajudava as crianças da ilha de Madagáscar. Deixou dois filhos, de 12 e 14 anos, que adotou justamente nessa ilha.

Patricia San Martín e Elsa Delplace San Martín eram mãe e filha, terão sido mortas ao mesmo tempo. Foi Isabel Allende, a escritora e filha do antigo presidente chileno Salvador Allende, quem anunciou, no Twitter, a sua morte. Patricia, que trabalhava nos serviços municipais de Sevran, em Saint Denis - um dos focos do atentado desta sexta-feira -, era sobrinha do embaixador chileno no México, Ricardo Nuñez Muñoz.

Um vendia merchandising dos Eagles of Death Metal, o outro era jornalista e escrevera sobre eles. Ambos morreram no Bataclan. Nick Alexander, britânico de 36 anos, e Guillaume B. Decherf, francês de 43. Cat Stevens, de quem Alexander também vendia merchandising , foi um dos músicos a juntar-se publicamente às homenagens que muitos lhe prestaram. O jornalista da revista LesInrockuptibles deixou duas filhas. Escrevera recentemente sobre Zipper down, o mais recente álbum da banda que tocava antes dos três atacantes irromperem pelo Bataclan. Dois deles acabariam tragicamente por se revelar kamikazes.

Hospitais em estado de guerra

Suzette Fernandes, uma portuguesa a viver em Paris, passou todo o dia de sábado a prestar assistência num hospital parisiense que estava "preparado para trabalhar, como se fosse em estado de guerra", disse à agência Lusa. Prestou "apoio prático", sobretudo falando com as pessoas que chegavam ao hospital Mondor-Chevalier. Conta que, a certa altura "passou um casal, ela ia vestida com um véu islâmico. Passaram, toda a gente se calou, e o pai de uma miúda - que é capaz de não sobreviver infelizmente - [disse] "Havíamos de os matar todos". Isto magoa. Na altura, uma pessoa até pode pensar como ele, só que, com o recuo, a gente não pode pensar como ele, porque os inocentes não podem pagar pelos que fizeram isso."

Contam-se pelo menos 350 feridos entre as vítimas dos atentados. Estarão espalhados pelos hospitais da capital francesa, como o de Mondor-Chevalier ou o de Lariboisière, onde o cirurgião Rémy Nizard afirmou ao Le Monde terem chegado pessoas com "ferimentos de gravidade variável". Desde "balas na cabeça ou no pescoço" a fraturas várias ou ao "rebentamento da órbita ocular que pode significar a perda do olho". "É cirurgia de guerra", resume. Também no hospital Pitié-Salpêtrière, Bruno Riou, médico que dirige as urgências, afirmou ao Libération que nunca antes "tinham sido confrontados com uma tal afluência de feridos por balas em tão pouco tempo". Tão rara quanto a "solidariedade" e "eficácia" que se seguiu. "Um número impressionante de médicos vieram sem que os chamássemos. Conseguiram, por isso, "salvar um grande número de feridos".

Nos momentos que se seguiram aos ataques, apareciam testemunhos muitas vezes anónimos, episódicos e quase sincopados. Frases como aquela que, na própria noite, o Le Monde citava: "Caminhei sobre corpos, havia sangue. Na rua havia mortos." Sobretudo depois da intervenção policial na sala do Bataclan, que pôs fim às ações dos terroristas, começaram a surgir histórias mais completas. Como "Alice", que não quis dar o seu nome ao diário francês e que esperava por notícias do namorado que estava "em coma induzido depois de uma dupla operação ao estômago". Empurrando-a para uma espécie de despensa no Bataclan, onde se abrigou dos ataques com cerca de 25 pessoas, salvou-a. Lembra-se que os ataques começaram quando a banda cantava "The devil who song that song [Who"ll love the devil?... Who"ll sing his song?, "Quem amará o diabo, quem cantará a sua canção", em português] ou assim."

É hora de contar as histórias e dizer os nomes. Os balanços de mortos e feridos vão oscilando. Gente como "Alice" espera para saber da sorte dos seus. Aos que não sobreviveram, Isobel Bowdery diz: "Descansem em paz, anjos. Nunca serão esquecidos."

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