"Os bombeiros são mártires. Perderam a vida a tentar salvar outras pessoas"

Na sequência de um incêndio, edifício histórico de 17 andares desabou ontem na capital iraniana. Tudo terá começado com um curto-circuito. Pelo menos 20 homens terão morrido durante as operações de salvamento

A revolução islâmica de 1979 matou o homem que o mandou construir. Ontem morreram aqueles que o tentaram resgatar das chamas. Pelo menos 20 bombeiros terão ontem sido vítimas da derrocada do Plasco Building, em Teerão, na sequência de um incêndio.

Hassan Rouhani, presidente iraniano, já ordenou uma investigação exaustiva sobre o que aconteceu. Apesar de não haver confirmação oficial, a agência de notícias Tasnim, citando uma fonte da autarquia de Teerão, avança como causa para o fogo um curto-circuito no nono andar. Vários avisos sobre a falta de condições no interior do edifício terão sido ignorados. O porta-voz dos bombeiros, Jalal Maleki, disse à televisão estatal que as autoridades da cidade terão por diversas vezes chamado a atenção dos donos do prédio para a necessidade de esvaziar as instalações por questões de segurança. "Não havia sequer extintores de incêndio", sublinhou Maleki.

Apesar das muitas diferenças, as imagens do colapso do Plasco Building fazem a memória recuar até à queda do World Trade Center, em Nova Iorque: a nuvem de pó, o ferro retorcido pelo calor, os rostos dos bombeiros cobertos de cinza, os olhares afundados em angústia pelos colegas que perderam a vida naquele instante em que a torre, cansada de lutar contra o fogo, desistiu de continuar em pé.

As chamas terão começado às 08.00 locais (04.00 em Lisboa). Três horas e meia volvidas o Plasco Building desmoronou-se, engolindo as pessoas que se encontravam lá dentro. "Parecia um filme de terror. O prédio caiu mesmo à minha frente", contou à agência Reuters o dono de uma mercearia nas redondezas do edifício, obrigado pela polícia a abandonar o local. Por precaução, as embaixadas da Turquia e do Reino Unido, situadas nas imediações, também foram evacuadas. Em nenhuma delas se registaram danos. "O Plasco colapsou na vertical. Por isso os prédios adjacentes não foram afetados", explicou Maleki em declarações à imprensa.

"Morreram pelo menos 20 bombeiros que ficaram debaixo dos destroços. São mártires. Perderam a vida a tentar ajudar os outros", afirmou o presidente da câmara de Teerão, Mohammad Baqer Qalibaf. Maleki, no entanto, não quis confirmar o número de vítimas. "Sim, alguns morreram, mas as operações de resgate continuam." Estão a ser abertas três vias distintas, por entre os destroços, para tentar chegar aos eventuais sobreviventes. "Um enviou uma mensagem a dizer que pelo menos cinco estão vivos", noticiava a agência de notícias Mizan.

"Perdi tudo. Não sei o que vou fazer agora, nem o que vou dizer à minha família", lamentava-se ontem, à agência Reuters, Mohsen Ghamisi, dono de uma das 400 lojas e empresas que operavam no Plasco Building, onde, além de escritórios funcionava um centro comercial. Ao final da tarde em Lisboa as agências avançavam que pelo menos 88 pessoas - incluindo 45 bombeiros - terão ficado feridas no acidente. A maioria foi levada para o hospital e muitos tiveram alta poucas horas depois.

Acusado de ser espião israelita

Habib Elghanian, nascido em 1912, era um abastado judeu-iraniano dono de uma fábrica de plásticos e chefiava a comunidade judaica radicada no país - então liderado pelo xá Reza Pahlavi. Foi ele quem, em 1962, deu ordens para que fosse edificado o prédio com 17 andares que ontem desabou. Na época, os 42 metros de altura valeram ao Plasco Building o estatuto de edifício mais alto do Irão e um lugar na lista dos marcos da capital. Elghanian, depois de ayatollah Khomeini ter tomado o poder, foi executado em maio de 1979, acusado de espionagem ao serviço de Israel. Também por esta razão o Plasco era um edifício histórico.

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