Oposição vai desafiar Maduro com governo alternativo

Oposição confiante após referendo contra Assembleia Constituinte. Presidente denuncia ingerência externa da UE e dos EUA

Quem vai pestanejar primeiro? Esta é a pergunta que muitos fazem numa altura em que nem a oposição nem o presidente venezuelano dão sinais que indiquem qualquer disponibilidade para ceder. A Mesa da Unidade Democrática (MUD) indicou que pretende anunciar hoje um governo de unidade nacional alternativo ao executivo chavista de Nicolás Maduro e convocou, para amanhã, uma greve geral com a duração de 24 horas. Na sexta-feira pretende nomear novos magistrados para o Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela.O objetivo é forçar o chefe do Estado a suspender as eleições de dia 30 para a Assembleia Constituinte. Maduro, por sua vez, diz que tenciona manter o escrutínio e, ao mesmo tempo em que apela ao diálogo com a oposição, dirige farpas a Espanha, à União Europeia, a todos os que, do exterior, o criticam e, de alguma forma, demonstram apoio à oposição. Especialmente depois do resultado do referendo informal de domingo, no qual 7,1 milhões de venezuelanos votaram contra a Assembleia Constituinte. Maduro afirma que houve fraude e que, nesse plebiscito, milhões de votos foram inventados.

"Na quarta-feira anunciaremos os preparativos para formar um governo de unidade nacional. Chegou a hora em que todos os venezuelanos devem ter em comum a causa de resgatar a Venezuela", disse o deputado Freddy Guevara, em representação da MUD (coligação que junta forças da oposição). O responsável fez questão de sublinhar que, no domingo, na consulta popular organizada pela oposição, dentro e fora do país, mais de 7 milhões de venezuelanos votaram contra as eleições de Maduro para a Assembleia Constituinte. Para amanhã Guevara, que é vice-presidente do Parlamento, anunciou "uma paragem cívica nacional com a duração de 24 horas". E que na sexta-feira o processo culminará "na nomeação de novos magistrados para o Supremo Tribunal da Venezuela". A questão é saber se isto, aliado à pressão internacional, terá ou não a capacidade de fazer o presidente venezuelano recuar ou se servirá apenas para criar uma espécie de realidade paralela.

Para já, pelo menos, Maduro não parece disposto a ceder. "Convoco uma Constituinte pela independência e soberania. E a Europa, diga o que disser, não nos importa o que diga a Europa", afirmou o herdeiro de Hugo Chávez, a partir do palácio presidencial, aludindo ao apelo feito pela União Europeia para que abandone o projeto da Assembleia Constituinte. "Hoje foi Federica Mogherini [alta representante da UE para a Política Externa] a dar ordens ao governo da Venezuela. Insolente. Acha que estamos em 1809? [Quando] recebíamos ordens dos impérios europeus. A Venezuela é um país livre e soberano", frisou Maduro, na segunda-feira, madrugada de terça em Lisboa, citado pela EFE. "Federica Mogherini equivocaste-te com o país. A Venezuela não é uma colónia da União Europeia", afirmou, acrescentando que na Venezuela "mandam os venezuelanos".

Apesar de obstinado, Maduro voltou a referir a questão do diálogo com os opositores. Algo que já tinha feito anteriormente, por exemplo quando o líder da oposição Leopoldo López foi transferido da cadeia para prisão domiciliária na sua casa em Caracas no dia 8. "Apesar da insensatez da oposição venezuelana, reitero o meu apelo para um diálogo pela paz (...) A minha disposição absoluta é de que continuem as conversações que se iniciaram [em outubro de 2016] e resultem num grande acordo nacional de paz, de trabalho e prosperidade", disse, numa intervenção televisiva em que se declarou "campeão mundial da paz". O presidente venezuelano avisou a oposição de que está a perder tempo e denunciou ainda a alegada aliança entre a igreja católica e os opositores para o derrubarem. "Apesar das nossas diferenças, não as podemos dirimir com tiros, com violência, com incêndios". Todas as nossas diferenças devem ser ultrapassadas com palavras", sublinhou, a partir do Palácio de Miraflores.

Depois de Maduro disparar contra a União Europeia, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros atacou ontem os Estados Unidos. No entender de Samuel Moncada, o comunicado que foi divulgado pela Casa Branca é, disse, "insólito". O país liderado por Donald Trump demonstrou, através dele, uma parcialização absoluta em relação aos setores da oposição a o presidente Maduro que são partidários "do uso do terrorismo para derrubar um governo democrático". O chefe da diplomacia venezuelana apelou aos países da América Latina e das Caraíbas para que percebam a magnitude "da brutal ameaça contida neste comunicado [de natureza] imperial".

EUA: Trump diz que Maduro sonha tornar-se um ditador
O presidente norte-americano, Donald Trump, classificou ontem o seu homólogo venezuelano como um mau líder e aspirante a ditador. "O povo venezuelano deixou claro que está do lado da democracia, liberdade e Estado de direito. Apesar disso, as suas ações corajosas continuam a ser ignoradas pelo seu mau líder, o qual sonha em tornar-se um ditador", lê-se num comunicado divulgado pela Casa Branca esta segunda-feira (fuso horário de Washington). Trump deixou ainda um aviso claro a Nicolás Maduro: "Se o regime impuser a Assembleia Constituinte a 30 de julho, os EUA tomarão uma atitude firme e sanções económicas. Os EUA, uma vez mais, pedem que se realizem eleições livres e justas para que o povo da Venezuela possa devolver ao seu país uma democracia próspera". Os atritos entre os Estados Unidos e a Venezuela vêm, porém, de muito longe. Já no tempo de Hugo Chávez, antecessor de Maduro no Palácio de Miraflores, havia acusações de ingerência interna nos assuntos da Venezuela por parte dos norte-americanos.

UE: Sanções à vista. Portugal sem notícia de êxodo massivo
Face à insistência de Maduro em manter as eleições para a Constituinte, a União Europeia também ameaça o regime venezuelano com novas sanções. "Acreditamos que seria útil se o governo procurasse gestos políticos para reduzir a tensão e suspendesse o processo da Assembleia Constituinte", disse a chefe da diplomacia europeia Federica Mogherini. O ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, Alfonso Dastis, admitiu numa reunião em Bruxelas a ampliação de sanções "individuais e seletivas" Do lado de Portugal, o governo garantiu ontem que não existe um êxodo em massa de emigrantes e lusodescendentes da Venezuela. "Não temos dados objetivos que permitam afirmar existir um êxodo massivo da Venezuela", afirmou o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, na comissão de Negócios Estrangeiros no Parlamento. Até agora, sublinhou o governante, Portugal recebeu 38 pedidos de repatriamento, "contrariamente àquilo que se pensa".

América Latina: Apoio à oposição contra Constituinte
A Argentina pediu ontem a Nicolás Maduro que desista da ideia de realizar eleições para a Constituinte dia 30. "Esperamos que o resultado desta manifestação de grande parte da população venezuelana [7,1 milhões de votos no referendo informal realizado no domingo] leve o governo da Venezuela a desistir de convocar a Assembleia Constituinte", refere um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros do país liderado pelo presidente Mauricio Macri. Na Colômbia, o presidente Juan Manuel Santos notou que "a Constituinte deve ser revogada para procurar uma solução coordenada, rápida e pacífica na Venezuela. O mundo inteiro pede isso". Entretanto, uma centena de parlamentares da Colômbia e do Chile apresentaram esta terça-feira no Tribunal Penal Internacional em Haia uma queixa contra Maduro por "violações do direito internacional". No Brasil, um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros sublinha que a elevada participação no plebiscito "mostra a vontade do povo de restauração do estado democrático".

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