Ofensiva final de Dilma alarmou a oposição

Michel Temer, que já se sentia descansado, teve de voltar a Brasília. Mas impeachment deve seguir para Senado.

O diálogo entre a pivô da Globonews, sentada nos estúdios do Rio de Janeiro, e o repórter, na Câmara dos Deputados, em Brasília, resume o tom da guerra corpo a corpo entre governo e oposição a poucas horas da votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT), que pode precipitar a sua queda e consequente substituição pelo vice-presidente Michel Temer (PMDB), hoje a partir das 19:00 em Portugal. "Mas então é garantido que esse deputado está indeciso?", pergunta ela. "Há dois minutos, quando falei com ele, estava, agora não sei". À medida que se aproxima o momento da verdade, os níveis de infidelidade dos volúveis deputados brasileiros sobem. E os de ansiedade nas trincheiras de Dilma e Temer também.

Até ao início da noite de sexta-feira, a oposição dava a vitória como certa e já discutia detalhes do processo no Senado, onde basta maioria simples para destituir a presidente. Por isso, Temer, que festejara com 80 generais da oposição ao jantar na véspera, viajou do Palácio do Jaburu, sua residência oficial em Brasília, rumo ao seu apartamento em São Paulo, para seguir a (supostamente) triunfal votação a seu favor no recato do lar. Afinal, ao princípio da manhã de ontem já estava à bordo de um jato de regresso à capital porque fora avisado que as contas estavam a sair do controle - de 347 votos a oposição passara, num ápice, a 343, ainda um a mais do que o necessário mas em tendência galopante de queda.

Em causa, a ofensiva anunciada de Dilma e de Lula da Silva às vésperas do combate. Lula, que vai conduzindo as operações do seu quartel-general numa suíte de um hotel de luxo em Brasília, produziu um vídeo onde falou ao coração dos parlamentares da sua base aliada relembrando os feitos dos seus governos. E Dilma atribuiu a governadores de estados do nordeste, tradicionalmente do lado do PT, a missão de convencer os conterrâneos a aderir ao "não" ao impeachment - conseguiu o feito inesperado de inverter o voto de Waldir Maranhão (PP), primeiro vice-presidente da Câmara e membro da chamada "tropa de choque" de Eduardo Cunha, o líder da casa.

Cunha é, em simultâneo, o principal estratega do impeachment, desde o seu início em dezembro, mas também uma das suas maiores fraquezas, por causa dos casos de corrupção em que está envolvido, Lava-Jato incluído. Deputados pró-Dilma de partidos divididos - como PP, PR e PSD - lançaram o movimento "nem Dilma, nem Cunha" para tentar que colegas de bancada optem pela abstenção em vez de votar pelo impeachment. O movimento obteve resultados práticos imediatos: Clarisse Garotinho (PR), que votaria pelo impeachment e é filha de Anthony Garotinho, rival de Cunha na política local do Rio de Janeiro, alegou fase adiantada da gravidez para não voar para Brasília. "Chorei quando soube que não podia votar", disse, tentando convencer os pró-impeachment de que não vota por decisão médica.

Por outro lado, Dilma, se recuou na decisão de falar à nação, porque, em primeiro lugar, o advogado geral da União a advertiu que teria por lei direito apenas a uma comunicação institucional e não política, e, depois, porque temeu um contraproducente "panelaço", decidiu escrever um artigo no Folha de S. Paulo, recordista de circulação, em que sugeriu o fim do programa social Bolsa Família e o abrandamento da Operação Lava-Jato em caso de vitória de Temer. No meio da viagem de urgência São Paulo-Brasília, o vice disparou dois tweets de emergência contra o inimigo: "Leio hoje nos jornais que acabarei com o Bolsa Família. Falso. Mentira rasteira. Manterei todos os programas sociais", "A Lava Jato tem prestado importantes serviços ao país, sou jurista e sei do papel fundamental da Justiça no avanço das instituições".

No meio das dúvidas, todos sabem como vai começar a votação: com a oposição à frente, uma vez que, segundo o último cronograma de Cunha, é Abel Galinha (DEM), um seguro pró-impeachment, o primeiro a votar. Mas ninguém sabe como vai acabar porque Ronaldo Lessa (PDT), o último a subir ao palanque, está "indeciso" - pelo menos estava à hora em que o repórter da Globonews falou com ele.

São Paulo

Mais Notícias

Outras Notícias GMG