Odebrecht comprou ex-presidentes, sindicalistas, polícias e até chefes índios

Delação de ex-quadros revela extensão do esquema de corrupção patrocinado pela construtora. "Isto existe há mais de 30 anos, é institucionalizado", diz Emílio Odebrecht.

Todos os ex-presidentes do Brasil, nomeadamente Dilma Rousseff (PT), Lula da Silva (PT), Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Collor de Mello (PTC) e José Sarney (PMDB), são citados pelos 77 delatores da maior empresa de construção civil do país, a Odebrecht, como beneficiários de um esquema de corrupção que ajudava quase todos os políticos do Brasil a pagar as contas de campanha em troca de favores à empresa nos negócios. "Isto existe há mais de 30 anos, é institucionalizado", afirmou Emílio Odebrecht, ex-presidente da companhia, no seu depoimento à política federal no âmbito da Operação Lava-Jato.

A divulgação a conta-gotas do esquema, que cita centenas de políticos do passado, do presente e com ambições nas presidenciais de 2018, e envolve milhares de milhões de euros em pagamentos, tem chocado o país também pela extensão: um delator confessou que financiou sindicalistas para não fazerem greves, polícias para não cumprirem a lei e até chefes índios para não se queixaram de questões ambientais numa obra na Rondónia. A Odebrecht, diz outro dos seus ex-executivos, chegou ainda a pagar a um candidato presidencial em 2014 para fazer perguntas simpáticas a Aécio Neves (PSDB), o candidato preferido da construtora.

"O objetivo era dar-lhe mais visibilidade", disse o delator Fernando Reis. Para tanto ofereceu "aproximadamente seis milhões de reais [perto de dois milhões de euros]" ao candidato evangélico Pastor Everaldo, que lhe foi apresentado pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados, o também evangélico e hoje detido Eduardo Cunha (PMDB), para ele dirigir questões, numa fase tradicional dos debates presidenciais em que os concorrentes se interrogam mutuamente, a Aécio. De facto, num debate na TV Globo, o Pastor Everaldo gastou as duas perguntas com Aécio, sendo até repreendido pelo moderador por ter fugido do tema. O pastor considerou a acusação do delator "fantasiosa".

Entre os oito ministros, 11 governadores, três prefeitos, um terço dos senadores e dezenas de deputados que estavam na planilha do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, um departamento com hierarquias e orçamentos próprios dedicado a corromper políticos, também há citações a elementos do poder judiciário, a sindicalistas e a polícias. Contou o delator Henrique Valadares, que pagou a "barbudos", o nome de código para sindicalistas, "para eles não apoiarem greves, atos de violência e coisas assim". E a polícias para deixarem passar irregularidades nas obras.

Valadares chegou a afirmar que nas hidroelétricas de Santo Antônio e de Jirau, ambas no estado da Rondónia, transferia "parcelas para integrantes da Associação dos Povos Karitianos e para a própria entidade", ou seja, para uma tribo indígena local. O nome de código na planilha do departamento de corrupção era precisamente "tribo" e o delator revela que se tornou amigo pessoal de Antenor Karitário, o chefe índio. "Pagava-lhe cinco mil reais [cerca de 1500 euros], depositava na conta da esposa e cheguei a receber um cocar [o adorno que os chefes índios usam na cabeça] dele de presente que ainda está lá em casa".

Parte dos envolvidos mais mediáticos, como Temer, Lula e Fernando Henrique Cardoso, publicaram vídeos nas redes sociais a defenderem-se das citações. O atual presidente da República - que já trocou seis ministros por envolvimento na Lava-Jato e vê agora mais oito citados nas delações, entre os quais os seus braços-direitos Eliseu Padilha e Moreira Franco, ambos do PMDB - negou "envolvimento em negócios escusos", rebatendo acusações de Marcelo Odebrecht, filho de Emílio e também ex-presidente da empresa, que citou uma reunião no Palácio do Jaburu.

O Jaburu, que é a residência oficial dos vice-presidentes do Brasil mas onde Temer, mesmo presidente, ainda vive, será investigado a pente fino, revela o jornal Folha de S. Paulo. A polícia quer saber quem entrou e saiu do local nos últimos anos.

À medida que avançam os depoimentos dos delatores - que trocam as suas revelações pela diminuição substancial da pena - a situação do governo deteriora-se, numa fase em que no Congresso Nacional se vai começar a discutir o sistema de previdência, considerada a principal reforma de Temer. No campo de Lula, favorito às eleições de 2018, teme-se que as delações prejudiquem ou inviabilizem a candidatura. Concorrentes como o militar na reserva Jair Bolsonaro (PSC), o empresário e prefeito de São Paulo João Doria (PSDB), a ecologista Marina Silva (Rede) e a alternativa à esquerda Ciro Gomes (PDS) são dados como os principais beneficiários das últimas revelações.

São Paulo

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