Obama ignora Trump e acelera transferências de presos de Guantánamo

Presidente quer transferir mais 19 presos até 20 de janeiro, quando toma posse o sucessor, que tem planos para manter a prisão aberta

Quando Barack Obama chegou à Casa Branca, em 2009, havia 242 prisioneiros na base de Guantánamo. Quando sair, deverão ser menos de 40. Ainda assim, um revés para o presidente norte-americano, que não conseguirá cumprir a promessa de fechar o centro de detenção aberto pelo antecessor, George W. Bush, para albergar suspeitos de terrorismo capturados em todo o mundo após os atentados de 11 de setembro de 2001. No início do mês, quatro iemenitas foram entregues à Arábia Saudita, num esforço final de Obama para transferir 19 presos antes da entrada em funções de Donald Trump, que é contra esvaziar Guantánamo e prometeu "enchê-la de criminosos".

A administração de Obama comunicou no mês passado ao Congresso a sua intenção de transferir até 19 prisioneiros para quatro países (Omã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e possivelmente Itália), quando ainda havia 59 presos. Com a libertação dos quatro iemenitas, restam 55 detidos, havendo ainda 19 cuja transferência está autorizada caso as condições de segurança estejam garantidas. Caso as intenções de Obama se confirmem na prática, ficarão no centro de detenção na base militar dos EUA em Cuba 26 prisioneiros que nunca foram acusados mas cuja transferência não é aconselhada e dez que já foram condenados ou acusados.

"Não devem existir mais transferências de Gitmo [nome pelo qual é conhecida a prisão]. São pessoas extremamente perigosas e não devem ter a oportunidade de voltar ao campo de batalha", escreveu Trump no Twitter. Na campanha, o republicano prometeu manter a prisão aberta e "enchê-la de criminosos" e chegou a dizer que faria pior do que o waterboarding (método de tortura que simula o afogamento e foi usado contra os presos de Guantánamo).

Em resposta à mensagem que o presidente eleito escreveu no Twitter, ainda antes das libertações do início do mês, a Casa Branca limitou-se a dizer que "ele terá a oportunidade de implementar a política que acha ser mais efetiva quando assumir o cargo a 20 de janeiro". Questionado sobre o risco para a segurança que representam estas transferências, o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, disse que só nove dos 183 detidos transferidos durante os dois mandatos de Obama terão retomado os combates. Pelo contrário, durante os oito anos de presidência de Bush, durante os quais Guantánamo se tornou sinónimo de tortura, 21% dos quase 500 detidos transferidos voltaram às atividades como militantes de grupos terroristas.

Um dos primeiros decretos presidenciais que Obama assinou, dois dias após assumir a presidência dos EUA, exigia o encerramento de Guantánamo no espaço de um ano. Contudo, a oposição republicana (desde 2010 que têm maioria no Congresso e no Senado) tornou impossível cumprir essa promessa eleitoral, proibindo o uso de fundos para a fechar, assim como a construção e a adaptação de prisões nos EUA para os receber. Além disso, mesmo depois de os detidos receberem luz verde para a transferência, é preciso negociar as condições com os países de acolhimento (Portugal recebeu dois sírios em 2009).

Dois dos quatro iemenitas transferidos para a Arábia Saudita no dia 5 de janeiro tinham recebido autorização para deixar Guantánamo em 2009 - os outros tinham sido na altura vetados, só tendo recebido a luz verde no ano passado. Os quatro foram detidos há 15 anos, durante a guerra no Afeganistão, nunca tendo sido acusados de nenhum crime. Foram entregues aos sauditas - que há anos têm programas de reeducação para os suspeitos de terrorismo - porque os EUA recusam entregá-los ao Iémen, que vive atualmente em guerra civil e tem um grupo ativo ligado à Al-Qaeda.

Um dos detidos agora entregue à Arábia Saudita, Mohammed Bawazir, esteve para ser enviado para os Balcãs há um ano, mas recusou porque queria ir para um país onde tivesse família. No dia da libertação, segundo a Reuters, houve reencontros emocionantes entre os detidos e os familiares no aeroporto de Riade.

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