O turismo é o motor da recuperação, diz-se na cidade de Picasso

Capital da província homónima, Málaga é uma cidade andaluza que vive sobretudo do turismo. Este aumentou consideravelmente, sobretudo ao nível dos cruzeiros, com a instabilidade na outra margem do Mediterrâneo. Aposta na cultura. Não quer ser só sol e praia

Num inglês perfeito, Rafael González Benenosa explica a um grupo de turistas que com apenas cinco anos Pablo Picasso já pintava. "Pintou a sua irmã, Lola, em apenas duas horas e meia". Entre os visitantes daquela manhã ouve-se falar inglês, alemão, francês. São estrangeiros que viajam em cruzeiros e naquele dia pararam em Málaga, terra onde nasceu o pintor, nome maior do cubismo. E onde em 2003 foi inaugurado um museu em sua homenagem a partir de uma coleção na posse da família.

"Os portos estão todos fechados no outro lado do Mediterrâneo e por isso aqui os cruzeiros aumentaram muito", explica o arqueólogo, de 70 anos. "Málaga é muito rica e tem muitas escavações do paleolítico e neolítico. A Andaluzia é uma das zonas arqueológicas mais importantes da Europa. Mas quando não há dinheiro aí, trabalho como guia turístico", conta sentado à mesa de um café junto ao Museu Picasso, já depois de se ter despedido do grupo.

Sobre aquele pintor, "o pai de todos os estilos modernos", sabe de tudo um pouco. Até consegue enumerar as mulheres que ele teve. "Oficiais foram sete", diz, constatando que a cidade de Málaga "é muito bonita e tropical". E que os turistas a procuram "no inverno pela cultura e história e no verão por causa da praia".

Antes da inauguração do museu dedicado à obra do pintor que morreu em 1973 aos 91 anos, "a cidade era um deserto cultural. Só havia sol e praia e, nesse sentido, o museu transformou a cidade. Depois foram abrindo mais museus [hoje existem ao todo 36] e isso contribuiu para que os turistas ficassem em Málaga. Antes, se não era verão iam para Granada. Agora aumentaram as pernoitas", explica Lucía Vázquez, chefe do departamento de Educação do museu.

Com áudio guias em nove línguas, incluindo árabe, o Museu Picasso recebe mais ou menos 400 mil visitantes por ano. "75% são turistas e 15% locais. É o segundo museu mais visitado da Andaluzia depois do Alhambra", informa aquela responsável. E o que querem os turistas saber sobre Picasso? "Porque a sua obra vale tanto. Muitos nem sabiam que ele era daqui pois ele saiu daqui com 10 anos e não mais voltou. Querem saber se era mulherengo, querem saber coisas da sua vida pessoal. Mas essa função é cumprida pela Fundação Museu Casa Natal", explica, referindo-se aos números 13 e 15 da Plaza de la Merced.

Esse tipo de coisas era exatamente o que queria descobrir Lavinia Wijgergangs, uma professora de arte e pintora holandesa que veio com os pais, o marido e a filha num cruzeiro e parou ali. "A coleção que está aqui é mais privada. Vemos mais em Amesterdão. Não é comparável", constata a turista de 41 anos de idade. "Somos pintores, estamos num cruzeiro e gostamos de ir a museus", explica, após uma visita ao Museu Picasso, contando que vieram de Roma, que em Espanha vão visitar cinco cidades e que depois vão para Lisboa, terminando em Inglaterra.

É mais seguro aqui do que no meu país. Há muita histeria na Bélgica, em França ou na Alemanha

Sente-se mais segura aqui do que na Tunísia ou Egito? "É mais seguro aqui do que no meu país. Há muita histeria na Bélgica, em França ou na Alemanha", afirma, referindo-se ao elevado nível de alerta para ameaça terrorista que foi instaurado nalguns países da UE após os atentados de Paris. Estes fizeram 130 mortos a 13 de novembro e foram reivindicados por jihadistas do Estado Islâmico.

Vindos de Lisboa, Cádis, Gibraltar e Cartagena e a passar por Málaga em direção à cidade de Casablanca, em Marrocos, está o casal Alan e Barbara Davenport. Oriundos de Southampton, Inglaterra, ambos com 69 anos de idade, sabem bem o que é o terrorismo. "Uma vez estávamos nós num bar em Londres e ouvimos uma bomba que era do IRA", conta Barbara, que está na Plaza de la Merced (onde Picasso viveu). É tarde e apressam-se a regressar ao navio atracado no terminal ali abaixo.

Têm medo de ir a Casablanca? "Estamos preocupados. Mas o risco é alto em todo o lado. Todos os países estão na mesma em relação ao terrorismo. Ele é só um lado lamentável do que é este mundo. Veja-se o que aconteceu em Paris", diz Alan, arquiteto reformado, de máquina fotográfica ao pescoço. A mulher ainda acrescenta: "Foi terrível o que sucedeu na Tunísia". Nesse dia um bombista suicida explodiu o autocarro da guarda presidencial e fez 12 mortos. Em março um ataque ao museu do Bardo em Tunes fez 22 mortos. E em junho um outro em Sousse fez 39. Em ambos os casos muitas das vítimas eram turistas que participavam em viagens de cruzeiros.

Apesar de admitir que a situação na outra margem do Mediterrâneo contribuiu para o aumento de turistas em Málaga, o diretor general de Turismo da Câmara Municipal de Málaga, Javier Hernández, nota que a cidade se afirmou como "destino turístico urbano" no período entre 2005 e 2014 e, nesse campo, foi a que mais cresceu: 127%.

"Temos um porto com muito bons terminais e que é muito perto da cidade. É uma entrada no Atlântico e no Mediterrâneo. Somos o segundo porto da Península, a seguir a Barcelona. Esperamos este ano 450 mil cruzeiristas", explica o responsável autárquico, dizendo que o primeiro mercado a nível de turistas é o britânico, seguido do francês e italiano e depois alemão. "O 17.º é o português e temos por ano sete mil turistas portugueses. É preciso trabalharmos mais", diz, entre risos e explicando que a sua mãe é natural de Olivença (município que fica na fronteira e cuja demarcação é objeto de litígio entre Portugal e Espanha).

Apesar dos cruzeiros, para Hernández os turistas que procuram Málaga não o fazem apenas à procura de sol e praia. "A motivação é sobretudo cultural. Málaga está a consolidar-se como uma cidade de museus na Europa", constata, dando como exemplo o facto de o primeiro Centre Georges Pompidou fora de França estar ali.

Entre 22% a 25% do PIB de Málaga é turismo

E o peso do turismo em si? "Em Málaga é o primeiro setor de emprego na cidade. Entre 22% a 25% do PIB de Málaga é turismo", nota, numa altura em que a Andaluzia é a segunda comunidade em que mais cresceu o turismo este ano. Para Javier Hernández, "em Espanha o turismo foi, sem dúvida, a chave da recuperação económica".

Em Málaga

Leia amanhã

O que está em causa nestas legislativas em Espanha, entrevista ao n.º 2 do Ciudadanos por Madrid Francisco de La Torre, crónicas dos quatro enviados do DN.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG