O sol do comunismo continua a brilhar...na Ásia

Quatro dos cinco Estados que se reclamam do comunismo situam-se na Ásia. A China apresenta a particularidade de, ao monopólio do poder político, somar uma economia de contornos capitalistas. Noutras partes do mundo, a influência comunista é hoje menor do que no passado.

Um quarto da Humanidade vive sob o domínio de regimes comunistas e, em países como a Índia, o Nepal, o Japão, a Rússia, a Grécia, Chipre ou Portugal existem partidos comunistas relevantes. Ao mesmo tempo, formações como o Partido Comunista Francês (PCF) ou o Partido Comunista Italiano (PCI), as formações mais importantes na Europa ocidental desta corrente ideológica, o herdeiro do segundo, a Refundação Comunista, e o primeiro têm hoje reduzida importância eleitoral.

Mas o comunismo mantém um certo apelo enquanto movimento de contestação e crítica dos excessos do capitalismo e, em países como a Índia ou o Nepal, desenvolveu no passado ou continua a fazê-lo no presente campanhas de guerrilha. Por outro lado, no Japão, o Partido Comunista local é um dos mais importantes a nível mundial, fora do poder, e o distanciamento que manteve face ao conflito ideológico entre a União Soviética e a República Popular da China (RPC), e algumas posições específicas que mantém, como um total antimilitarismo, contribuem para razoável desempenho eleitoral, que nas duas últimas décadas quase se aproxima ou atingiu mesmo o patamar dos dois dígitos de votantes.

Dado significativo: dos cinco regimes oficialmente comunistas e de total monopólio do exercício do poder político, quatro situam-se na Ásia e um nas Caraíbas. A RPC é o caso paradigmático e, simultaneamente, paradoxal de regime comunista. Se o partido detém o controlo de todas as instâncias do poder, pratica a censura mediática e interdita qualquer oposição, o regime económico apresenta contornos capitalistas indiscutíveis. O que não deixa de ser uma contradição para a doutrina comunista. Algo que não se verifica com a mesma intensidade noutros regimes que se reivindicam do marxismo-leninismo como o Vietname, onde um processo de liberalização da economia está igualmente em curso. Vinculados à ortodoxia doutrinária, permanecem o Laos e a Coreia do Norte, que segue aquilo que se pode designar como comunismo de guerra, com todos os recursos do país consagrados ao desenvolvimento do aparelho militar e à consolidação da elite dirigente num ambiente de repressão sistemática.

Do outro lado do planeta, nas Caraíbas, Cuba é o único regime que continua a reivindicar natureza comunista. Contudo, iniciou nos últimos anos uma gradual abertura económica e pequenos passos na liberalização da sociedade.

Perante este quadro, e considerando a importância dos partidos comunistas em países como a Índia, Japão e Nepal, esta ideologia tem um futuro radioso na Ásia, ainda que pareça obsoleta e ultrapassada pelos acontecimentos históricos noutras partes do mundo. Como se pode ver pelo panorama seguinte.

O peso eleitoral e político das organizações comunistas está hoje muito aquém daquele de que dispunham antes da queda do Muro de Berlim e da desagregação da União Soviética. E, principalmente na Europa Central e de Leste, com raras exceções como a Moldávia e a República Checa, são partidos residuais. Ao contrário de Chipre, onde os comunistas continuam a ser uma das formações mais votadas no país, tendo o seu dirigente Dimitris Christófias desempenhado as funções de presidente entre 2008 e 2013. Ou de Portugal, onde o Partido Comunista Português (PCP) tem permanecido entre as quatro forças políticas mais votadas, com forte influência sindical e em algumas áreas do país.

Comunistas na Rússia

Por outro lado, na Rússia, se num primeiro momento o Partido Comunista da Federação Russa, capitalizando na nostalgia da União Soviética e nas graves convulsões económicas e sociais após 1991, surgiu entre os mais votados, sendo primeiro nas legislativas de 1995 e 1999, passou a segundo a partir das eleições de 2003. Hoje, se continua a ser a segunda força política no país, caiu de 19,1% nas eleições de 2011 para 13,3% em 2016, o pior resultado desde a sua fundação em 1993. Resultado obtido após uma campanha em que o partido procurou renovar e aproximar da modernidade a sua imagem, distanciando-se do culto das memórias da época soviética.

O dado central, olhando a atual conjuntura, é que, apesar da existência de regimes comunistas - entre os quais a distinguir a RPC pela dimensão do país e o seu peso demográfico, económico e geoestratégico - não se pode falar hoje de um bloco ideológico único. Aliás como já se verificara com a rutura entre Pequim e Moscovo, na origem de uma nova corrente no interior do comunismo, o marxismo-leninismo maoismo, e subsequente formação de partidos reivindicando esta particular orientação ideológica.

A própria unidade ideológica das organizações comunistas vinculadas a Moscovo, sofrerá, também ela, uma rotura com o aparecimento da corrente eurocomunista nos anos 70. Que teve o seu momento alto no encontro de março de 1977, em Madrid, entre os secretários gerais do PCI, PCF e do Partido Comunista de Espanha (PCE), respetivamente Enrico Berlinguer, Georges Marchais e Santiago Carrillo. As teses centrais do movimento eram as de que, perante as regressões democráticas e sociais originadas pelas crise do capitalismo, a construção do socialismo deveria fazer-se em liberdade, pela via democrática e em aliança com outros setores políticos; em paralelo, advogava a independência ou, pelo menos, um certo distanciamento face à URSS e o fim de um dogma central do comunismo, a ditadura do proletariado.

O PCI e PCF foram as organizações comunistas mais importantes na Europa ocidental, sendo eleitoralmente importantes entre os anos 50 e 80 do século XX. Hoje, neste plano, como já se referiu a importância do primeiro e a do herdeiro do segundo, a Refundação Comunista, é residual. O eurocomunismo, após a dinâmica inicial, acabou por não produzir os resultados antecipados pela ousadia teórica dos seus mentores.

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