O sobrevivente Michel Temer inicia o seu "terceiro governo"

Ao escapar de nova denúncia, presidente quer agora aprovar reformas impopulares. Mas está refém dos deputados e dorme atormentado por um fantasma chamado Geddel.

Depois de escapar da segunda denúncia em apenas dois meses, começa hoje uma espécie de terceiro governo de Michel Temer. O presidente do Brasil acredita que agora pode trabalhar, acima de tudo, na aprovação da reforma previdenciária. Mas fragilizado: por estar refém de quem o salvou da acusação de organização criminosa e obstrução de justiça, a Câmara dos Deputados, e por enfrentar ainda perigos nos tribunais, nomeadamente uma eventual delação do seu ex-ministro detido, Geddel Vieira Lima, ou outro.

"Não há entusiasmo para o pouco mais de um ano que o presidente tem pela frente, vem aí uma convalescença política prolongada", opina Vera Magalhães, articulista de O Estado de S. Paulo. "Ele fica, mas mais frágil como ser humano e como presidente", afirma no Folha de S. Paulo o colunista Clóvis Rossi, reagindo também à infeção urinária de que o presidente padeceu à hora da votação. "A vitória mais magra nesta denúncia com 251 votos aumenta o desafio de aprovar reformas porque não chega à metade mais um [257] necessária para aprovar projetos de lei", escreveu Cristiana Lôbo, da Globonews.

A avaliação é partilhada por um dos protagonistas do tal "terceiro governo Temer". Rodrigo Maia, o presidente da Câmara dos Deputados cujas ambições por altos voos em 2018 são públicas, alertou o chefe do Estado logo após a votação: "Temer tem de trabalhar para reorganizar a sua base parlamentar..." Na prática, se o governo quiser, de facto, aprovar a reforma previdenciária terá de convencer deputados que não o apoiaram na votação das denúncias - e isso deve custar mais distribuição de cargos na máquina estatal e dinheiro para os círculos eleitorais desses parlamentares.

O outro desafio de Temer é, novamente, na justiça. Enterradas as denúncias anteriores, será necessário estar atento aos esqueletos no armário do Planalto, ou seja, ao grupo de apoiantes do governo a pão e água na prisão. "É preciso vigiar o pulso de Geddel Vieira Lima, Rodrigo Rocha Loures, Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves até ao fim do mandato", adverte Vera Magalhães no Estadão.

Foi a quarta vez, num intervalo de cinco meses, que o resiliente Temer sobreviveu a uma tentativa da justiça brasileira de o derrubar. Em maio, após a divulgação de um áudio em que o presidente da República pedia ao empresário Joesley Batista para manter pagamentos ao ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha em troca do seu silêncio, chegou a estar em cima da mesa a sua demissão. A situação agravou-se depois que se tornou público um vídeo da polícia em que Rocha Loures, um dos seus assessores mais diretos, é visto a sair de uma pizaria com uma mala com 500 mil reais [perto de 150 mil euros] entregue por um colaborador de Batista. Mesmo assim, em vez de se demitir, o presidente da República preferiu atacar, descredibilizando o empresário e os termos da denúncia do Ministério Público.

Em agosto, quando essa denúncia foi votada na Câmara, Temer conseguiu os votos necessários para a travar - mas investiu o equivalente a mais de 500 milhões de euros em presentes a deputados em troca do apoio. O mesmo expediente usado agora, se bem que com menos gastos - segundo as contas da imprensa as emendas orçamentais colocadas à disposição dos deputados que ameaçavam votar contra o presidente não ultrapassaram os 270 milhões de euros.

Entre a divulgação dos tais áudios e vídeos de maio e as votações das duas denúncias em agosto e outubro, o mandato de Temer esteve por um fio também no Tribunal Eleitoral, no início de junho. Lá, o juiz Herman Benjamin sugeriu em relatório a punição da dupla de candidatos às eleições de 2014 Dilma Rousseff-Michel Temer por crime de abuso económico. Como Dilma já havia caído no impeachment o principal efeito da sentença seria a queda do atual presidente e consequente convocação de eleições antecipadas. Com o placard com três votos a favor de Temer e três contrários, coube ao presidente da corte, Gilmar Mendes, com quem o presidente mantém relação próxima há 30 anos e costuma reunir-se amiúde, o voto de Minerva que o salvou.

São Paulo

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