O regresso do elefante superestrela que já matou 13 pessoas

Chama-se Ramu, tem 54 anos, e é considerado o maior elefante da Índia. Durante décadas, inaugurou o festival de um templo em Kerala. Desta vez, devido à quantidade de pessoas que já matou, foi interditado. Os protestos e ameaças foram tais, porém, que as autoridades recuaram: Ramu vai poder participar. "Isto não é amor, é tortura", dizem os defensores dos animais.

Em Kerala, no sudoeste da Índia, quando as pessoas enriquecem, não compram um Rolls-Royce; compram um elefante. Alguns elefantes são autênticas estrelas, com páginas de Facebook e de Instagram. É certamente o caso de Thechikottukavu Ramachandran, com várias páginas de Facebook em seu nome, seguidas por milhares de pessoas.

O festival religioso que começa esta segunda-feira e dura uma semana conta com ele há muito: Ramu, como é afetuosamente conhecido, inicia as festividades ao atravessar uma enorme porta de madeira e avançar imperiosamente por entre os gritos da multidão e fogo de artifício. Há mais elefantes a participar, mas ele é o mais adorado.

"É uma celebridade devido ao seu porte e beleza. A sua cabeça é longa e larga, tem uma tromba muito bonita e as suas presas são elegantes", explica o secretário do templo Paramekkavu Devaswom.

Foi comprado há 35 anos, conta o Indian Express, através de uma espécie de crowdfunding, para o templo da deusa local, Thechikottukavu. O animal escolhido era tão alto e bonito que ninguém suspeitou do motivo que levou o dono a vendê-lo: tinha muito mau feitio. Seja por isso ou por estar cego de um olho, o que o torna muito mais defensivo e irritável, Ramu tem um rasto de morte -- de gente e de elefantes. As últimas ocorreram em fevereiro: durante uma cerimónia, duas pessoas foram mortas.

"Como protesto, boicotaremos o festival e não emprestaremos nenhum dos nossos elefantes ao festival ou qualquer outra procissão, se a interdição [de Ramu] se mantiver"

Face às fatalidades mas também preocupado com o bem-estar do elefante, um grupo de defesa de animais fez uma petição para o seu afastamento e uma junta veterinária considerou-o incapaz, pelo que as autoridades responsáveis pela vida selvagem resolveram proibir a sua participação no festival.

Levantou-se de imediato um pé-de-vento, porém. O presidente do templo a que pertence Ramu certificou que "depois de Ramachandran, eles banirão outros elefantes, destruindo os festivais religiosos e a sua grandeza."

E a Federação dos Donos de Elefantes de Kerala ameaçou mesmo boicotar o festival se Ramu não fosse autorizado a participar: "Como protesto, boicotaremos o festival e não emprestaremos nenhum dos nossos elefantes ao festival ou qualquer outra procissão, se a interdição se mantiver", afirmou o seu secretário-geral.

A pressão foi tanta que, este sábado, as autoridades cederam. Foi dada permissão para que o velho paquiderme participasse nas cerimónias, embora durante apenas uma hora e com condições de segurança apertadas: tem de haver um espaço de dez metros entre ele e a multidão, barricadas à sua volta e quatro tratadores sempre com ele.

A reação dos defensores dos animais foi de tristeza e revolta: "Denunciamos esta decisão totalmente irresponsável", lê-se num post na página Voice for Asian Elephants Society, publicado este domingo. Noutro post na mesma página, lê-se: "A interdição de Thechikottukavu Ramachandran foi levantada. Será integrado na parada do festival Thrissur Pooram apesar de ter já matado 13 pessoas, incluindo seis tratadores. Matou também três elefantes. O cativeiro mata mais que animais inocentes. Rezamos pela segurança do público do festival e também dos elefantes. Um elefante que está tão perturbado que cria caos, ferimentos e morte será a seguir brutalmente espancado por causa da sua reação natural a anos de maus-tratos, terror e exaustão."

Partilhando um vídeo de Ramu a ser saudado pela multidão, a mesma página indigna-se com o que considera ser, não amor mas insensibilidade e sadismo: "Thechikkottu Kaavu Ramachandran, o elefante cego, chegou a Thekkinkaadu Maidan [o templo] para abrir o festival Trissur Pooram. (...) Mesmo as superestrelas não recebem este tipo de ovação! Olhem para esta insanidade -- este fetichismo com os elefantes. Não querem saber da tortura e do sofrimento deste pobre elefante. Tudo o que lhes interessa é divertirem-se. Retiram prazer de assistir ao tratamento sádico e à escravatura e tratamento brutal dos elefantes em Kerala. É para rir que se intitulem de amantes dos elefantes."

Numa das páginas em nome de Ramu, um post de domingo mostra-o ajaezado, a sair a porta do templo, com o comentário: "Não há outro elefante no país para abrir a fortaleza. (...) Olha para isto."

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