O mundo esteve à beira da guerra nuclear e foi salvo por Petrov

Em plena Guerra Fria, Stanislav Petrov optou por não reportar o alerta (que acabaria por ser falso) de que havia cinco mísseis norte-americanos a caminho da União Soviética.

Há precisamente 35 anos, um homem decidiu ignorar o sistema de alerta que anunciava que os EUA tinham acabado de lançar cinco mísseis balísticos contra a União Soviética e, dessa forma, evitou uma guerra nuclear. É que o alerta era falso e devia-se a um erro do computador. O tenente-coronel Stanislav Petrov, que morreu no ano passado aos 77 anos, ficaria conhecido como "o homem que salvou o mundo".

Às primeiras horas de 26 de setembro de 1983, Petrov estava de serviço no centro de comando secreto de Serpukhov-15, nos arredores de Moscovo, quando soou o sistema de alerta (Oko, ou olho) que detetava um ataque de mísseis com base nos dados dos satélites que orbitavam os EUA. Um míssil balístico intercontinental Minuteman acabava de ser lançado de uma base em território norte-americano e estava a caminho da União Soviética - e podia atingir o alvo em apenas 25 minutos.

No início daquele mês, pilotos soviéticos tinham abatido um avião comercial da Korean Air Lines, que fazia a ligação entre Anchorage (Alasca) e Seul (Coreia do Sul) com 269 pessoas a bordo, pensando tratar-se de um avião espião, depois de um erro de navegação o ter levado a entrar em espaço aéreo soviético. Seria o ataque uma retaliação dos EUA?

"A sirene uivou, mas fiquei ali uns segundos, a olhar para o grande ecrã vermelho com a palavra 'lançamento' escrita", contou numa entrevista à BBC, em 2013. "Um minuto depois, a sirene voltou a soar. O segundo míssil tinha sido lançado. Depois o terceiro, o quarto, o quinto. Os computadores mudaram o alerta de 'lançamento' para 'ataque de míssil'", lembrou nessa altura.

As ordens eram simples. Em caso de alerta, Petrov tinha que avisar os superiores, que por sua vez falariam com os generais que consultariam o então líder soviético, Iúri Andropov (sucessor recente de Leonid Brezhnev, que esteve quase 20 anos no poder), sobre uma possível retaliação. Do outro lado do mundo, na Casa Branca, sentava-se o republicano Ronald Reagan, que considerava a União Soviética como um "império do mal".

"Não me conseguia mexer"

"Não existia uma regra sobre durante quanto tempo podíamos pensar antes de reportar um ataque", contou Petrov à BBC. "Mas sabíamos que cada segundo de procrastinação retirava tempo valioso, que a liderança militar e política da União Soviética precisava de ser informada sem demora. Tudo o que tinha que fazer era pegar no telefone, para ligar diretamente aos nossos comandantes - mas não me conseguia mexer. Sentia-me como se estivesse sentado numa frigideira quente", acrescentou.

Petrov era um engenheiro, que tinha passado os últimos dias a solucionar problemas no computador principal do sistema de alerta, e foi chamado para o turno da noite para substituir outro oficial mais experiente, que não podia naquele dia estar presente. Assim, quando o alarme soou, em vez de se limitar a seguir o protocolo (como mandavam as ordens), optou por seguir o seu instinto, que lhe dizia que um ataque dos EUA não seria de apenas cinco mísseis, e denunciou o caso como um falso alarme.

"Quando as pessoas começam uma guerra, não começam com apenas cinco mísseis", contou em 1999 ao The Washington Post, lembrando que sempre lhe tinham dito que um ataque nuclear seria massivo. Além disso, as instalações de radar (que deveriam detetar os mísseis alguns minutos depois) não davam qualquer sinal de que havia um ataque em curso.

Reflexo do sol

"Vinte e três minutos mais tarde, percebi que nada tinha acontecido. Se tivesse sido um ataque real, então já saberia. Foi um alívio", afirmou na entrevista à BBC. A decisão de Petrov acabaria por se revelar a correta, apesar de ter sido alvo de uma investigação por ter desobedecido ao protocolo e de terem tentado culpá-lo pela falha no sistema.

Uma investigação revelou mais tarde que o falso alerta tinha sido causado pelo reflexo do sol nas nuvens (o programa que era suposto filtrar essas eventualidades, foi depois reescrito). Caso tivesse havido uma retaliação soviética ao falso alarme, as ordens nos EUA seriam de responder na mesma medida.

Na altura, cinco países tinham armas nucleares (EUA, União Soviética, Reino Unido, França e República Popular da China), estimando-se que um sexto também a tivesse. A política de Israel tem sido sempre nem confirmar nem negar ter armas nucleares, mas em 2006 o então primeiro-ministro, Ehud Olmert, admitiu que o país as tinha numa entrevista, voltando depois atrás com o que tinha dito. Outros dois estavam na corrida nuclear desde os anos 1970: Índia e Paquistão. Atualmente, os cinco iniciais, estes dois últimos e a Coreia do Norte têm armas nucleares, Israel mantém a incógnita.

Documentário

A história de Petrov e do dia em que o mundo esteve à beira da guerra nuclear só foi conhecida no final dos anos 1990, quando um dos seus superiores revelou a história ao tablóide alemão Bild e isso chamou a atenção do ativista e realizador alemão Karl Schumacher, que viajou até Moscovo para o encontrar e convidá-lo a contar a sua história na Alemanha. Em 2006, Petrov seria galardoado pela Associação de Cidadãos do Mundo, nas Nações Unidas, tendo recebido também em 2012 um prémio da associação de media alemães e no ano seguinte o Prémio Dresden, da paz.

A história daquele dia fatídico é contada no documentário dinamarquês "The Man Who Saved the World" (O homem que salvou o mundo), do realizador Peter Anthony, de 2014, que mistura as imagens de Petrov com reconstituições do que aconteceu em 1983.

Foi Schumacher também que anunciou ao mundo a morte de Petrov, que ocorreu a 19 de maio de 2017 mas só foi conhecida em setembro, depois de o alemão lhe ter tentado ligar para dar os parabéns no dia 7 e ter sido informado pelo filho do seu falecimento.

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