O falso espião com que Pyongyang quer pressionar os EUA

Kim Dong-chul nasceu na Coreia do Sul, naturalizou-se norte-americano e viveu duas décadas nos EUA. O fim do casamento ditou o regresso à Ásia. Acabou preso por receber "segredos de Estado"

É o mais recente de uma já longa série de casos de cidadãos dos Estados Unidos presos, julgados e condenados na Coreia do Norte. Chama-se Kim Dong-chul, de 62 anos, e foi detido em outubro de 2015, em flagrante delito segundo o regime de Pyongyang, quando recebia um dispositivo USB com "segredos de Estado" sobre o programa nuclear norte-coreano e o dispositivo militar do país.

O tribunal, num gesto pouco comum, reduziu de 15 para dez anos a pena pedida pela acusação, explicando que, apesar da "gravidade dos crimes", Kim "é uma pessoa já idosa e pode arrepender-se das suas faltas ao observar, por si próprio, o verdadeiro rosto da prosperidade" que se vive na República Democrática da Coreia do Norte, designação oficial do regime dirigido por Kim Jung-un.

No tribunal, o detido reconheceu a prática de "crimes imperdoáveis" e não conteve as lágrimas em mais de uma ocasião. Como sempre sucede nos casos destas declarações públicas, segundo testemunhos de antigos presos, resultam de pressões e chantagens em que chegam a fazer-se ameaças veladas à vida dos familiares.

Além de Kim, está detido na Coreia do Norte um outro americano, Otto Warmbier, de 24 anos, condenado a 15 anos de prisão em março, também por espionagem. Nos últimos três anos, foram presos oito cidadãos dos EUA, seis dos quais foram libertados na sequência de visitas de responsáveis americanos. Um processo que tem antecedentes no caso de duas jornalistas, Euna Lee e Laura Bing, presas em 2009 ao entrarem ilegalmente na Coreia do Norte. A libertação só foi possível no ano seguinte com uma deslocação a Pyongyang do antigo presidente Jimmy Carter.

Nos casos mais recentes, os EUA têm acusado Pyongyang de fazer "reféns" como instrumento de pressão diplomática. O regime está sujeito a sanções devido ao seu programa nuclear.

Empresário sul-coreano, naturalizado americano e residente na Virgínia, fixou-se na cidade chinesa de Yanji em 2001, afirmou em janeiro numa entrevista à CNN, na presença de agentes das forças de segurança norte-coreana. Kim fixou-se no início dos anos 1980 em Fairfax, cidade onde existe uma importante comunidade sul-coreana. O abandono dos EUA deveu-se, de acordo com o próprio, ao fim do casamento, com Kim a querer iniciar novo ciclo de vida mais perto da sua terra natal.

Segundo o próprio, Kim tinha interesses na zona económica especial de Rason-Sonbong, dirigindo uma empresa de serviços para a indústria hoteleira. Em declarações ao tribunal, em março último, Kim disse ter sido abordado pelos serviços de informações sul-coreanos, pela primeira vez, em 2011. Uma outra versão é dada pela agência Nova China que refere ter Kim sido "apresentado" aos sul-coreanos por agentes americanas. Os serviços de espionagem de Seul negam qualquer ligação a Kim.

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