O êxito da Califórnia e o drama de Nova Iorque, na "manta de retalhos" dos EUA

Não é só na Europa que há políticas contraditórias de combate ao Covid-19. Nos EUA, a aceleração de casos em Nova Iorque contrasta com os efeitos positivos do confinamento na Califórnia

No estado de Nova Iorque há quase dez vezes mais casos de infecção por Covid-19 do que no estado mais populoso dos EUA, a Califórnia. Essa diferença é ainda mais impressionante se analisarmos o número de doentes por 100 mil habitantes. Nova Iorque tem mais de 800, a Califórnia pouco mais de 50. O mesmo acontece com o número de mortes: a proporção é de uma morte na Califórnia para 16 em Nova Iorque.

A explicação para esta diferença parece estar na forma como os dois estados anteciparam o problema e puderam lidar com os instrumentos necessários para o combater: testes, isolamento da população, distanciamento social. Faltou, contudo, uma política coordenada, a nível federal, que permitisse aos estados coordenar estratégias e não agir isoladamemente.

Em Nova Iorque, o epicentro americano do surto, o vírus tem feito vítimas em todos os sectores da sociedade, e o número de mortes diárias, perto dos 800 por um terceiro dia consecutivo, parece estar a atingir o pico, esperam os especialistas.

No total, 8.627 mortes em Nova Iorque foram atribuídas ao Covid-19 até sábado, e o total para Nova Iorque, Nova Jersey e Connecticut, os estados vizinhos, era superior a 10.000 - o dobro dos casos registados na Califórnia.

Como escreve o The New York Times este sábado, o vírus tem sido talvez mais duro nos lares e outras instalações para idosos, onde uma combinação de factores - envelhecimento ou fragilidade da população, falta crónica de pessoal, escassez de equipamento de proteção e contacto físico constante entre trabalhadores e residentes - acelerou a sua propagação.

No total, cerca de 2 000 residentes de lares de idosos morreram na região, e milhares de outros residentes estão doentes.

Até sexta-feira, mais de metade dos 613 lares licenciados de Nova Iorque tinham comunicado infeções por coronavírus, com 4.630 casos positivos no total e 1.439 mortes, segundo as autoridades.

O isolamento vai manter-se na Califórnia

A área da Baía de São Francisco foi a primeira área dos EUA a impor ordens de abrigo há 25 dias. Ali, o impacto muito mais moderado da doença parece dever-se às regras de isolamento decretadas. Que as autoridades querem manter por algum tempo...

Segundo o Politico, em Santa Clara, a oficial de saúde Sara Cody disse esta semana aos supervisores do condado que pretende uma redução sustentada dos novos casos durante pelo menos 14 dias - o tempo do período de incubação - antes de considerar alterações à sua ordem de confinamento. Os médicos de São Francisco estão otimistas depois de não terem visto um surto semelhante ao de Nova Iorque, mas também pensam que é demasiado cedo para flexibilizar as regras.

"O problema é que não temos um plano concertado a nível nacional para o conseguir, e por isso está tudo a ser feito de uma forma muito descoordenada"

"Hoje, em São Francisco, tivemos 56 novos diagnósticos - é demasiado cedo para pensar em flexibilizar as restrições", disse na quarta-feira Bob Wachter, presidente do departamento de medicina da Universidade da Califórnia, em São Francisco. "Isso significa que há uma quantidade razoável de vírus à volta e, se as pessoas saírem e voltarem à sua antiga vida, não há razão para acreditar que não se propagaria".

Os especialistas em saúde pública estão de acordo sobre o que precisa de estar garantido antes de ser levantado o confinamento: reduções sustentadas em novos casos e mortes; testes generalizados; ampla capacidade hospitalar; e a capacidade de monitorizar novos pacientes e localizar os seus contactos.

O Governador do estado, Gavin Newsom, usa um tom cauteloso, enfatizando que os casos não atingirão o pico até meados de maio, em vez de meados de abril, como alguns modelos preveem. O governador não está a dar uma data final para a sua ordem de permanência em casa, mas sugeriu que os californianos podem esperar permanecer fechados até maio e ficou claro que as escolas da Califórnia devem permanecer fechadas durante o resto do ano letivo.

Os peritos da Bay Area preveem que o número demorará um mês até começar a diminuir, o que dará à região tempo suficiente para acelerar os testes e o rastreio dos contactos.

"Se fosse apenas na Bay Area que estamos a pensar e não no estado da Califórnia, o meu palpite é que, na terceira a quarta semana deste mês, estaremos realmente confiantes na nossa situação", disse John Swartzberg, professor de doenças infecciosas na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Wachter e outros citam uma estimativa do American Enterprise Institute de que a realização de 750.000 testes por semana permitiria um acompanhamento adequado para reabrir escolas e empresas, nos EUA. A população da Califórnia, de 40 milhões de habitantes, teria de realizar cerca de 90.000 testes por semana. Até agora, o Estado realizou cerca de 177 000 testes no total e está a aumentar rapidamente a sua capacidade através de laboratórios privados, académicos e públicos.

George Rutherford, um especialista em doenças infecciosas e epidemiologista da UCSF, espera uma estratégia escalonada de regresso ao trabalho, com o regresso em primeiro lugar - mas não de uma só vez - de certos sectores como a indústria transformadora.

Após o início das restrições, afirmou, a região terá de voltar às táticas de isolamento rigoroso dos indivíduos infetados e de rastreio de contactos que foram utilizadas no início da pandemia para ajudar a eliminar os focos de infeção à medida que estes surgem.

"O problema é que não temos um plano concertado a nível nacional para o conseguir, e por isso está tudo a ser feito de uma forma muito descoordenada".

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