O esforço físico das campanhas e o conselho que Hillary não seguiu

Candidata está quase recuperada, mas adoecer é o prato do dia nas corridas eleitorais. As maiores preocupações passam pela voz. José Sócrates tomava injeções antes de discursar

Beijinhos nas feiras e abraços nas arruadas. Longos dias na estrada e poucas horas de sono. Promessas gritadas em comícios até que a voz lhes doa. O caldo é propício a deitar por terra mesmo os mais saudáveis e bem preparados. "É um esforço tremendo. Durante uma campanha quase todos os candidatos são medicamentados", sublinha ao DN Luís Bernardo, assessor dos ex-primeiros-ministros António Guterres e José Sócrates.

O desgaste físico a que os políticos são sujeitos e os riscos que correm pelo contacto com muita gente saltaram para as páginas dos jornais com o episódio da pneumonia e quase-desmaio de Hillary Clinton.

A democrata que quer chegar à Casa Branca sentiu-se mal no domingo, durante as cerimónias do aniversário do 11 de setembro. A equipa atrasou-se a revelar que se tratava de uma pneumonia, o que alimentou os rumores de que poderiam estar em causa problemas de saúde mais graves.

Numa entrevista à CNN na segunda-feira à noite (madrugada de terça em Portugal), Hillary garantiu que está quase recuperada e esclareceu o que se passou: "Fiquei zonza e por um momento perdi o equilíbrio. Mas assim que me sentei na carrinha e bebi água senti-me imediatamente melhor".

A pneumonia foi-lhe diagnosticada na sexta-feira e o médico recomendou-lhe alguns dias de descanso, mas a candidata democrata decidiu ignorar o conselho e manter a agenda. Arriscou, o corpo cedeu e de repente viu-se envolvida numa onda de rumores e boatos.

"Nunca pensei que fosse tornar-se um caso tão sério", respondeu à CNN a ex-primeira-dama quando questionada sobre o porquê de não ter tornado público o diagnóstico. O próprio staff fez mea culpa, assumindo que a estratégia de comunicação tinha sido mal gerida. "Devíamos ter partilhado mais informação e mais rapidamente", admitiu Brian Fallon, porta-voz da campanha.

Bill Clinton, marido da candidata, veio também a público lançar água sobre a fervura mediática relacionada com o estado de saúde de Hillary. "Foi apenas um caso de desidratação", afirmou o ex-presidente em declarações à CBS, explicando que os dois dias anteriores tinham sido "muito árduos" em termos de trabalho.

O jornalista Charlie Rose confrontou-o, questionando-o se de facto tinha sido apenas um caso de desidratação, uma vez que, nas imagens, o "colapso" de Hillary poderia dar a entender que se tratava de algo mais grave. "Se é então é um mistério para mim e para todos os médicos que a acompanham", respondeu o ex-presidente.

Casos de problemas de saúde nas corridas presidenciais norte-americanas não são raros. "Trabalhar na Casa Branca ou numa campanha eleitoral é o mais próximo a que podemos chegar de andar em digressão com o Elvis Presley, pelo menos no que diz respeito à quantidade de comprimidos envolvidos", confessa à Reuters Steve Schmidt, ex-diretor de campanha do republicano John McCain nas presidenciais de 2008.

Os problemas de saúde mais comuns que os candidatos enfrentam passam pela voz. Durante a última semana antes das legislativas de 2011, o médico pessoal de José Sócrates dava-lhe sempre uma injeção antes de cada discurso, conta Fernando Esteves em Cercados. Os dias Fatais de José Sócrates. O risco de afonia não é negligenciável. Jerónimo de Sousa viu-se obrigado, em 2005, a abandonar um debate na RTP porque não conseguia falar. "O staff poupa os candidatos quando eles estão mais fragilizados. Tenta-se minimizar os momentos de maior desgaste, incluir períodos de descanso na agenda, encurtar as intervenções, procurar ambientes mais recolhidos", explica Luís Bernardo.

O acompanhamento médico também é permanente. Fonte do PSD conta que na comitiva que acompanhava Cavaco Silva em estavam sempre presentes dois especialistas, um otorrino e um médico de clínica geral. Chá de casca de cebola era algo que também não faltava nos cuidados do ex-presidente.

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