O dentista madeirense que festeja o feriado do 4 de Julho a dobrar

Filho de madeirenses que emigraram, em alturas diferentes, para os EUA, Diamantino Ferreira, de 55 anos, preferiu ser dentista a ir para a pesca do atum

Uma carta de amor e uma viagem definiram aquela que é hoje a história da família de Diamantino Ferreira. Dentista em San Diego, na Califórnia do Sul, há já mais de três décadas, Tino, como é conhecido entre os amigos, nasceu nos EUA mas tem raízes madeirenses. Mais propriamente em Paul do Mar. O pai emigrou com 14 anos, em 1952, mas antes de partir deixou uma carta à namorada que tinha na altura. "Ele escreveu que se alguma vez se voltassem a encontrar iriam casar-se. Ainda hoje ela tem a carta guardada, dentro do envelope, não deixa ninguém lê-la, diz que só quando morrer é que podemos ter acesso à carta e lê-la na íntegra", conta ao DN, entre risos, orgulho e emoção.

O primeiro a emigrar para os EUA tinha sido Álvaro Santana Ferreira, o avô paterno de Diamantino. "Ele só mandou vir a família para cá sete anos depois de ter chegado e conseguido dinheiro para comprar uma casa aqui na zona de Point Loma. Mudaram-se quando o meu pai, Álvaro Ferreira, tinha 14 anos. Foi ele, os oito irmãos (três rapazes e cinco raparigas) e a minha avó, Maria Ferreira, de barco, numa primeira fase, da Madeira até Ellis Island, em Nova Iorque." Aí desembarcaram a 1 de julho e, quatro dias depois, chegaram, de comboio, a San Diego. "Eles não falavam inglês, não tinham comida para além daquilo que a minha avó trouxera: pão e bolachas. Eles não sabiam a língua e só descobriram onde era a casa de banho porque uma das raparigas viu alguém ir e deixar a porta aberta e percebeu que era ali. "No meio dos dias da viagem fica o 4 de Julho, que é o dia da independência dos Estados Unidos. Como nunca perdemos a ligação a essa viagem da família, esse é também o dia em que todos se reúnem. Costumamos juntar sempre entre 100 a 200 pessoas." Tal foi a forma como a família cresceu ao longo de todos estes anos. Só primos direitos são 38 e bisnetos 83. Para Diamantino, o 4 de Julho é, assim, um dia de festa a dobrar. "Além de feriado é também o nosso dia do regresso a casa, o nosso dia da independência, todos regressam a casa." No 50.º aniversário da viagem, todos os membros da família foram fazer uma visita à Madeira, incluindo Diamantino, tendo os pais e os tios recriado depois a travessia Madeira-Nova Iorque - mas de avião - e a ida de comboio até San Diego.

Quando chegou a esta cidade californiana próxima da fronteira entre os Estados Unidos e o México, o pai de Diamantino estudou no liceu e teve dificuldades com a língua. Foi então que se dedicou à pesca do atum, a indústria em que muitos portugueses fizeram fama e fortuna na Califórnia do Sul, hoje em dia quase sem expressão. "Ele tinha participação em vários barcos." E como é que se deu o reencontro entre o pai e a mãe deste dentista lusodescendente hoje com 55 anos? "A minha mãe não emigrou logo pois a família dela tinha uma padaria e algum dinheiro, comparado com outras pessoas que viviam na altura na Madeira. Mas quando ela fez 18 anos disse à mãe que queria ir para os EUA. E veio aqui para Point Loma para a casa da tia Celina. Estudou para ser cabeleireira. Ela era tímida, saía pouco de casa e conhecia pouco. Não sabia onde o meu pai estava porque ele andava à pesca. O que aconteceu foi que, num evento qualquer, não sei se um funeral ou um casamento, ela viu-o. E ele viu-a. Ele lembrava-se bem dela e começaram a namorar. E depois acabaram por casar-se." Cumpriu-se dessa forma a promessa que escreveu na carta que a mãe, Pulquéria, de 80 anos, guarda até hoje religiosamente (o pai morreu em 2013 com 75 anos, vítima da doença de Alzheimer). "Eu já vi o envelope mas nunca li a carta. A ela podem levar-lhe tudo, até as joias, mas não toquem na carta", explica, entre risos.

Quando o pai ia para a pesca, às vezes Diamantino passava quatro ou até dez meses sem vê-lo. "Eles iam, pescavam, nós ficávamos em casa, ele dizia que ia voltar e nós acreditávamos", conta o dentista, em Point Loma, explicando que, em criança, passava muito tempo entre o centro português e a igreja com a mãe e as outras mulheres. A Igreja de Santa Inês foi construída com donativos dos pescadores, como o Memorial dos Pescadores de Atum. Nele, quatro homens com quatro caniços estão representados em bronze. Atrás, os nomes dos pioneiros da pesca do atum, bem como os que saíram para o mar e nunca mais regressaram.

Depois da pesca com caniço, foi inventada a pesca com recurso à técnica de purse seine, ou seja, pesca com redes de cerco. Muito por força da competição dos japoneses que traziam peixe a preços muito mais baratos para os Estados Unidos. Com os caniços apanhavam pouco peixe e não conseguiam competir. Com a purse seine tudo mudou. Os navios foram adaptados para a pesca com redes de cerco, de nylon, tendo a quantidade de atum capturado aumentado consideravelmente. E a indústria voltou a sorrir. Não por muito tempo. Depois veio a problemática dos golfinhos, que ficavam presos nas redes e, apesar dos esforços dos pescadores, alguns não eram resgatados com vida. A polémica foi engrossando, a pressão dos ambientalistas também, levando a uma série de proibições por parte do governo dos EUA. Na baía de San Diego, mostram as fotos, não havia lugar para tantos atuneiros. Hoje em dia, encarrega-se de mostrar a realidade, na mesma paisagem imperam os navios de cruzeiro, iates de luxo, veleiros. Atuneiros, esses, nem vê-los. Os que restam, andam mais para sul, na zona da Samoa Americana. O declínio da indústria do atum tornou-se inevitável

Álvaro Ferreira nunca quis que Diamantino se dedicasse também à vida de pescador. "Fui o único na família que não foi para a pesca do atum. O meu pai colocou grandes expectativas em mim. Insistiu sempre que eu não fosse pescar. E não fui. Estudei em Los Angeles e em San Francisco. Estagiei lá um ou dois anos. Este verão fez 30 anos que trabalho em San Diego por conta própria como dentista." E como soube que essa era a profissão que finalmente iria seguir? "Gosto de trabalhos com as mãos. Em pequeno via o meu pai atar nós, consertar redes, por isso gostava de fazer nós, de fazer modelos ou puzzles... Tudo isso. Quando cresci, queria ser médico, mas um primo meu estudava para dentista e fui visitá-lo e vi que faziam tudo com as mãos, moldes de dentes, etc... então decidi que queria fazer isso. E gosto também porque gosto muito da relação com os clientes."

O pai de Diamantino reformou-se cedo. Tinha 49 anos. "Vendeu as participações que tinha nos barcos e foi viajar, com a minha mãe, pelo mundo, durante cinco anos. Quando ele morreu, descobri na sua garagem um mapa gigante em que tinha assinalado todos os países em que tinha estado ao longo da vida. Decidi contá-los. Ele visitou 120 países. Tinha vontade de conhecer tudo." A maioria dos países que Álvaro Ferreira conheceu foi já depois de se reformar. Mas também conheceu muitos quando foi para a pesca do atum em África. "Não costumavam ir muitos pescadores para África. Nesses tempos ele estava fora 10 a 12 meses e nós praticamente não o víamos. Acho que eu tinha aí 10 anos, nessa altura, nos anos 1970. Levavam o barco de San Diego, pelo cabo da Boa Esperança, para o outro lado de África".

Diamantino mantém uma ligação forte a Portugal. "Já fui lá aí umas cinco ou seis vezes. A última vez que estive em Portugal foi há cinco anos. Além da Madeira, adoro o Algarve, tenho de ir aos Açores porque a família da minha atual mulher, Lynn Reis, é de lá. A mãe é do Pico e viveu muito tempo no Faial. O pai é também da Madeira." O dentista lusodescendente preocupou-se sempre em passar a ligação a Portugal aos seus filhos. Cinco. Dois com Lynn, três de uma anterior relação. Têm entre 33 e um ano e chamam-se Ryan, Grant, Collin, Kesington e Hudson.

"Eu passo-lhes essa ligação. O centro português e a igreja que existe aqui têm um papel muito importante. Quando era criança, os homens iam para a pesca, tudo gravitava em torno desses sítios. Era onde as mulheres se juntavam. Era onde nós íamos. Era jantares, lanches, espetáculos... Nós conhecíamos aquele centro, por dentro e por fora, para os meus filhos é diferente. Mas vão sempre connosco, sempre que possível, falamos das tradições e de tudo. Culturalmente sabem bem de onde vem a família e penso que têm orgulho. No meio da vida eclética que cada um deles tem, um vive em Los Angeles, tem 33 anos, gosta de viajar. Agora vai a Cuba. A cada sítio que vai fala sempre das origens portuguesas da sua família. Os outros dois também. Acho que trabalhei bem na educação deles, nesse ponto, pelo menos [risos]. Eles sabem de onde vêm e o quanto os avós e os pais trabalharam para que este país - Estados Unidos - fosse a casa deles."

Em San Diego
A jornalista viajou no âmbito do projeto DN/FLAD

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