"O Alentejo é quase a grande reserva identitária nacional"

Entrevista a Paulo Barriga, jornalista que publica na edição deste mês da revista Volta ao Mundo um surpreendente artigo sobre "viagens impossíveis". Antigo diretor do Diário do Alentejo e bejense, recomenda, porém, a descoberta da região onde nasceu e vive agora que o resto do mundo parece fechado, mas em Portugal elogia também muito o Gerês e lá fora fala com saudades da viagem que fez um dia à Namíbia.

Nova Granada, Ilhas Sandwich, Biafra, que país destes que já não existem ou nem sequer chegaram mesmo a existir o impressiona mais pela história?
A história de qualquer destes países é impressionante. Até porque quando há uma rotura, uma cessão, uma revolução, ela é sempre acompanhada por uma boa dose de euforia e, acima de tudo, de esperança coletiva. E, em sentido inverso, há o choque inevitável com a resistência à mudança e com o conservadorismo. Mas não posso deixar de referir que, nesta volta ao mundo imaginária por países que já se extinguiram, aquele que mais me afetou foi o Biafra. Cuja guerra de independência, que decorreu entre 1967 e 1970, trouxe consigo uma novidade que iria mudar, efetivamente, o mundo. Ou a forma de como olhamos o mundo. Foi, talvez, a primeira guerra transmitida em direto pelas televisões e as imagens atrozes dos estropiados, dos refugiados, mas acima de tudo das crianças subnutridas ainda hoje, passados mais de 70 anos, fazem parte do imaginário coletivo. Aliás, ainda hoje, em diferentes idiomas, se utiliza a expressão "parece que vens do Biafra" para designar a magreza de alguém. Por outro lado, a guerra do Biafra veio mostrar aos olhos de todos as grandes deficiências do mapa africano desenhado pelas potências colonizadoras e a grande discrepância económica e social existente entre o dito "primeiro mundo" e a África Subsariana.

No entanto, e uma vez que estamos a falar em pobreza, não posso deixar de realçar as Ilhas Sandwich. Não só porque esta viagem começa por lá, mas porque a própria ideia de viagem começou ali. Despertei para as Sandwich há coisa de 20 anos quando, ao ler um número antigo da revista Ilustração Portuguesa, o nosso célebre fotojornalista Joshua Benoliel mostrava a miséria humana que reinava entre os emigrantes oriundos da serra de Serpa (mais tarde muitos madeirenses também) e que, num cais de Lisboa, aguardavam pelo vapor que os levaria até ao território que hoje conhecemos como Havai. As imagens eram comoventes e as histórias que posteriormente recolhi para uma reportagem para o jornal O Independente ainda mais tocantes eram. Basta dizer que, no início do século XX, os portugueses que aportavam às Sandwich eram designados por "pretos".

Como aconteceu esta ideia de escrever sobre destinos impossíveis para a Volta ao Mundo?
É uma ideia típica do estado de confinamento. Foi o turismo, e mais em concreto a arte de viajar, o setor que mais maltratado saiu, ou está a sair, desta crise sanitária global. Ao dia de hoje ainda é impossível determinar a abrangência dos danos que a pandemia por covid-19 trará para a mobilidade humana. Mas, mesmo sem sair do sofá da sala, ao homem-viajante é dada uma carta branca de livre-circulação que nenhuma medida excecional pode restringir: a capacidade de sonhar. E esta viagem imaginária advém exatamente dessa capacidade. Na verdade, a ideia ocorreu-me depois de passar os olhos pela lombada de As Viagens na Minha Terra. Almeida Garrett fê-las sem sair de casa. E depois ocorreu-me Melville, Júlio Verne, Cervantes... enfim.

Como viajante, em que país esteve que sentiu mais estar a viver uma aventura que poucos poderão repetir?
Na Namíbia, claramente, e por variados motivos. Em primeiro lugar pela geografia ímpar que se estende desde a Costa dos Esqueletos às vastas savanas, atravessando dois desertos subtropicais. Depois, pelas políticas de preservação e de conservação que ali colocam o foco, de facto, na própria natureza. Dá a ideia que, ao contrário das grandes cidades ocidentais que têm um zoológico rodeado por grades, ali são os animais que tem uma espécie de antropológico, a cidade de Vinduque, no meio da savana. E, depois, a qualidade de vida é muito acima da média africana. Aliás, qualquer comparação da realidade namibiana enquanto Estado com as diferentes experiências de África é pura ficção.

Sei que conhece Nova Iorque. É mesmo a capital do mundo?
Sem dúvida. E isso não tem nada a ver com centralidade, com modernidade, com desenvolvimento económico e com a hegemonia americana na geopolítica mundial. Não, tem a ver com uma coisa muito simples: com o homem. Nova Iorque é, por certo, o único local do mundo onde não há estrangeiros. Ou, pelo menos, onde ninguém se sente estrangeiro, ainda que tenha acabado de pôr os pés em terra. E é essa democratização da hospitalidade que a torna tão especial e tão acolhedora. Em Nova Iorque és nova-iorquino. Ponto final.

Acredita que as viagens vão voltar a ser como antes desta pandemia obrigar os aviões a ficarem nos aeroportos e os hotéis a fecharem portas aos turistas?
​​​​​​​Ainda é cedo para antever de que forma esta crise irá afetar o homem-viajante. Mas de uma coisa não restam dúvidas: é neste setor que se irão revelar as mais duras e controversas medidas restritivas. Isso parece-me evidente. Porque uma das consequências mais exuberantes desta pandemia tem a ver com o medo, essa tormenta que acompanha o homem desde os confins da história. O medo e, principalmente, o medo perante o desconhecido, a quem atribuímos com redobrada facilidade todos os males que acometem o mundo. E neste clima de medo generalizado, por muito que o viajante esteja pronto e ataviado para partir, tem de contar agora com essa variável. Em que estado de medo se encontram as pessoas que o poderão ou não querer receber?

Vive no Alentejo. Nestes tempos em que muitos países fecham fronteiras aos estrangeiros e que os portugueses vão ter de fazer férias cá dentro o que recomenda conhecer na sua região?


Bom, as grandes desgraças que historicamente assaltam o Alentejo acabaram por se revelar como grandes virtudes neste estado de pandemia. O isolamento, a crise demográfica e o desinvestimento estrutural vieram revelar-se verdadeiros tampões à progressão da doença. É a perfeita ironia, mas é o que é. O Alentejo, que representa um terço da mancha geográfica do País, tem um número muito ligeiro de infetados e apenas um óbito por covid-19. Isto torna a região ainda mais atrativa do ponto de vista turístico, mas também pode acarretar algumas preocupações, nomeadamente devido ao tal medo reinante. Quanto ao resto, e mais uma vez devido ao atraso a que foi historicamente sujeito, o Alentejo é quase a grande reserva identitária nacional. Atenção que a palavra "identitário", aqui, nada tem a ver com o uso populista e nacionalista que lhe está a ser dado hoje em dia. Tem a ver com a preservação patrimonial, quer a nível imaterial, histórica e, até, ambiental. Penso que seja todo este património em bom estado e em perfeito uso que faz do Alentejo uma região única. Isto para nem falar, claro, das lonjuras como ato libertador e também da diversidade da paisagem, desde as montanhas à planície, da fronteira espanhola até às falésias do litoral.

E fora do Alentejo, que parte de Portugal mais o atrai como visitante?
O Gerês, por tudo o que tem de mágico, de belo e, ao mesmo tempo, de hostil.

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