Novas sanções dos EUA à Rússia geram mal-estar na Europa

Com particular incidência no setor energético, medidas afetam diretamente interesses económicos europeus.

A aprovação esmagadora do Congresso garantiu nesta semana a passagem de um novo pacote de sanções antirrussas prometendo confinar ainda mais a margem de manobra do presidente norte-americano, Donald Trump, e tornar cada vez mais longínqua qualquer perspetiva de desanuviamento nas relações entre Washington e Moscovo.

As novas medidas, aprovadas no quadro de um pacote de sanções que atingem igualmente o Irão e a Coreia do Norte, aumentam as sanções impostas à Rússia na sequência da anexação da Crimeia, no início de 2015, e agravadas pelo presidente Barack Obama em dezembro de 2016. Atingem em particular o setor crucial da indústria de energia russa e, por tabela, interesses europeus, e em particular alemães.

As sanções receberam a aprovação de 419 congressistas (contra três votos negativos) e foram anunciadas pelo porta-voz da Câmara dos Representantes como "um aumento da pressão sobre os nossos mais perigosos adversários em nome da segurança da América".

Depois do voto da Câmara dos Representantes, seguiu-se a votação no Senado que já em meados de junho tinha aprovado por larguíssima maioria o princípio de uma nova punição a Moscovo pela alegada ingerência nas presidenciais americanas de 2016. O pacote de medidas passou com 98 votos a favor contra dois, deixando o inquilino da Casa Branca numa posição dilemática.

Garantido o voto dos senadores, Trump ficava com a opção de assinar - e ver assim cada vez mais limitada a sua margem de manobra face a Moscovo - ou de vetar o projeto de lei - e ver agravadas as suspeitas que pendem sobre a sua Administração. Em qualquer caso, o Congresso não teria dificuldades em reunir o número necessário de votos para contornar um eventual veto. A porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, já anunciou que o presidente "tem intenção" de assinar o projeto de lei, depois de ter revisto "a versão final" - aparentemente após ter negociado alguns "aspetos críticos".

Retaliação russa

Moscovo reagiu já ao novo pacote de sanções exigindo uma redução substancial da equipa diplomática americana na Rússia (dos cerca de 1100 atuais para um máximo de 455 elementos) e "apresando" residências de férias e um armazém utilizado por diplomatas americanos. O Kremlin promete ainda responder de imediato na mesma medida em caso de novas expulsões de diplomatas russos dos EUA.

A retaliação russa responde diretamente a uma medida que vem levantando protestos veementes de Moscovo - o "congelamento" de dois complexos diplomáticos russos nos EUA decretado por Barack Obama no final do seu mandato para punir as alegadas infiltrações de hackers russos na campanha presidencial americana.

A questão foi abordada no encontro entre Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, no início de junho, mas as perspetivas de uma solução para o diferendo parecem agora cada vez mais longínquas. Uma vez aprovadas as novas sanções só poderão ser revistas mediante a aprovação do Congresso, o que deixa Trump de mãos atadas.

A par das investigações às ligações russas de próximos de Trump, as sanções vêm assim limitar seriamente a margem de manobra do presidente americano em matéria de relações com a Rússia. Isto semanas depois de, na sequência do encontro com Putin, Trump ter falado de uma "relação construtiva" com a Rússia. Ao retirar ao presidente a prerrogativa de suspender as sanções, salvo situações muito específicas, o Congresso garante assim em boa medida o controlo da política americana face à Rússia.

Mercado energético em jogo

As medidas antirrussas agora aprovadas em Washington representam uma primeira rutura na abordagem conjunta entre os dois lados do Atlântico da política de sanções à Rússia desde 2014 e estão a gerar um notório mal-estar em várias capitais europeias.

Numa declaração citada pelas agências internacionais o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Junker, denunciou os "efeitos unilaterais" das sanções sobre os "interesses de segurança energética da União Europeia" e o Financial Times falava da preparação de contramedidas em Bruxelas caso os interesses europeus não fossem tidos na devida conta.

A aprovação pelo Senado de um novo pacote de sanções à Rússia valera já em meados de junho uma reação conjunta do chefe da diplomacia alemão, Sigmar Gabriel, e do chanceler austríaco, Christian Kern. Ambos consideraram as novas medidas antirrussas "inaceitáveis" na medida em que violam o direito internacional e afetam diretamente companhias europeias envolvidas em projetos comuns com a Rússia, em particular o oleoduto Nord Stream II que deverá ligar as fontes russas à Alemanha. Sinal do embaraço da situação, o antigo secretário geral da NATO Anders Fogh Rasmussen veio já a público lançar um apelo à anuência da Europa às sanções americanas a bem da "unidade transatlântica".

Em última análise a questão das sanções poderá envolver a disputa do mercado energético europeu. Analistas de Moscovo acusam Washington de pretender forçar a Europa a optar pelo gás de xisto fornecido pelos EUA e reduzir a quota da Rússia no mercado energético europeu, sublinhando a coincidência das sanções com os esforços americanos para conquistar terreno neste domínio (a Polónia começou na semana passada a receber gás natural da América). A questão surge em particular desde o conflito russo-ucraniano de 2014-15 mas a hipótese do gás de xisto coloca vários problemas, desde o preço mais elevado desta alternativa em relação ao gás russo ou ao gás liquefeito do Pérsico aos investimentos necessários em infraestruturas.

A partir de Helsínquia, onde se deslocou para conversações com o presidente finlandês Sauli Niinistö, Putin acusou Washington de "usar as vantagens geopolíticas" dos EUA para "defender os seus interesses económicos à custa dos aliados".

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