Nova Iorque à flor da pele: "As pessoas estão zangadas"

Atordoados, os cidadãos de Nova Iorque, na maioria apoiantes de Hillary Clinton, candidata democrata derrotada pelo republicano Donald Trump, debatem-se entre o choque, a frustração, o medo e a vergonha em relação ao resultado das eleições de dia 8.

O dia a seguir às eleições americanas começou com o mesmo estado de alma dos nova-iorquinos: cinzento e chuvoso. Há pelo menos cinco dias que não chovia em Nova Iorque, mas depois da vitória de Donald Trump o céu carregou-se de sombras e o despertar exigiu doses extra de café.

Alguns residentes na cidade exibiam olheiras, pela longa noite para acompanhar o resultado da votação e também pelas lágrimas derramadas pela derrota de Hillary Clinton. Na emissão local da rádio NPR, um líder religioso contava que a mulher passou a noite a chorar e ele ainda não sabia como explicar à filha mais nova a derrota da primeira mulher candidata à Casa Branca por um dos dois maiores partidos norte-americanos.

Atordoados, os cidadãos de Nova Iorque, na maioria apoiantes de Hillary Clinton, debatem-se entre o choque, a frustração, o medo e a vergonha. Nas ruas, um residente de café na mão explica que "o cidadão americano comum é um idiota". Às primeiras horas de quarta-feira, nos EUA, alguns estudantes concentravam-se em frente à Torre Trump, na 5.ª Avenida, vigiados de perto pela polícia.

Nos cartazes, escritos à mão, lia-se: "Este não é o meu presidente", "É assim que começa", "Somos melhores do que isto", "Mulheres maldosas pela igualdade". Com a voz embargada, Anne Gross, do movimento LGBT, diz que o país recuou 70 anos em 24 horas e garante que não vai "voltar para o armário" por ser homossexual. O afro-americano Nico Moretti defende um movimento de resistência a Donald Trump por querer fazer "uma limpeza étnica" no país. "Ninguém pode ficar à margem" num tempo como este, afirma o jovem, que passou pelo protesto na rua e já não se foi embora. Nico não sabe como se pode parar Donald Trump, mas lembra que Hillary ganhou o voto popular, para dizer que é preciso rever a lei eleitoral.

O protesto nasceu em grupos da escola e das faculdades, a que se juntaram outros jovens descontentes, como o músico Jamie Cunningham, que acordou com a canção dos U2 Bloody Sunday na cabeça. Enquanto toca e canta, Jamie antevê que o protesto vai prolongar-se por muitos dias porque "as pessoas estão zangadas" e é preciso exteriorizar todas as emoções à flor da pele. Os manifestantes gritam slogans, dão pequenas entrevistas e tiram fotografias com os turistas a quem a polícia dá ordem para circular.

Com o avançar das horas, o protesto cresce para cinco mil pessoas, que à noite percorrem quase quatro quilómetros desde a Union Square até à Torre Trump. Parecem assim ignorar os apelos à unidade de Hillary Clinton e de Barack Obama. A candidata democrata fez o discurso da derrota num hotel de Nova Iorque, onde reuniu toda a equipa, ainda incrédula e emocionada. Pedindo desculpa e assumindo a desilusão, Hillary apelou a uma transferência pacífica do poder e a que se mantenha uma mente aberta em relação a Donald Trump, "num país mais dividido do que pensávamos". As fraturas do país ficaram bem evidentes durante a campanha e não devem sarar sem marcas. Na noite eleitoral, os apoiantes de Clinton foram seguindo os resultados nos ecrãs gigantes em Times Square, cada vez mais apreensivos, enquanto os republicanos se concentraram na 5.ª Avenida junto à televisão Fox News, a poucos metros do hotel onde Donald Trump acabaria por fazer o discurso de vitória. À medida que a noite sorria ao magnata, os próprios republicanos pareciam não acreditar no que estava a acontecer. Mas entre cartazes, bandeiras e bonés encarnados com o lema de Trump, "Make America great again", alguns traziam já crachás para reeleger Trump para um segundo mandato, em 2020.

De fato, boné e peruca, Matthew, apoiante de Trump, repete uma ideia do milionário: pôr Hillary atrás das grades. "Lock her up" ouviu-se várias vezes durante a noite que se foi tornando um pesadelo para os poucos democratas que passaram pela Fox News, na 5.ª Avenida. Entre eles, Paul fala numa vergonha e desgraça para o país, com a certeza de que Trump nunca terá interesse em unir os norte-americanos porque "só pensa nele mesmo". Durante cinco meses, Paul vendeu crachás Dump--Trump, nos quais a cabeça do futuro presidente aparece no topo de um monte de fezes. Agora, diz que a vida continua, apesar do "palhaço" que irá ocupar a Casa Branca.

A eleição de Trump também preocupa o emigrante português Simão Herdade. A viver em Nova Iorque há quatro anos, o jovem que trabalha em inteligência artificial considera que o "mapa político fica estragado" a nível internacional. Não será por acaso que os turistas desejam boa sorte a quem vive nos EUA. Dizem não perceber a escolha do novo presidente - mas muitos americanos também não.

Enviada da TSF aos EUA

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