No debate em que um candidato tirou a gravata, tories afastam eleições antecipadas

Boris Johnson esteve à defesa, Michael Gove disse que tinha um plano pormenorizado sobre todos os temas e Rory Stewart destacou-se dos demais - e não só por ter tirado uma peça de roupa ao fim de poucos minutos.

Além de todos quererem a saída do Reino Unido da União Europeia, embora com abordagens diferentes, os candidatos à liderança do Partido Conservador e, em consequência, ao cargo de primeiro-ministro britânico, estiveram de acordo num tema: não é tempo para eleições.

Sentados em cadeiras de pé alto, em meia-lua, Boris Johnson, Jeremy Hunt, Michael Gove, Sajid Javid e Rory Stewart não se mostraram à vontade com o cenário e interromperam-se múltiplas vezes, ao ponto de ser difícil de compreender o que diziam, o que foi alvo de muitas críticas nas redes sociais, como o Daily Mail destacou. Este debate foi realizado num formato em que as perguntas chegaram de intervenções em direto, dos mais diversos locais das ilhas britânicas, de cidadãos que fizeram perguntas sobre o Brexit, carga fiscal, alterações climáticas ou assistência social.

Dos candidatos que sobram à liderança dos tories, o favorito Boris Johnson, que faltou ao anterior debate na TV, mostrou-se à defesa. Um imã de Bristol perguntou aos candidatos "se as palavras têm consequências", e a apresentadora, Emily Maitlis, lembrou que o ex-mayor de Londres comparou as mulheres de burca com marcos de correio num artigo de opinião. Boris Johnson pediu desculpa pela ofensa e lembrou que um bisavô seu, muçulmano, exilou-se no Reino Unido. Sajid Javid, muçulmano, aproveitou para pedir aos outros candidatos consenso sobre uma investigação às alegações de islamofobia no partido, o que recebeu sorrisos de circunstância de resposta. Michael Gove aproveitou para desferir um golpe no líder da oposição, ao acusar Jeremy Corbyn de ter um discurso antissemita.

Se Michael Gove tentou ter o discurso mais afirmativo -- no final, declarou-se o vencedor do debate -- Rory Stewart tentou galgar o momento. Foi o candidato que quase duplicou o número de votos (de 19 para 34) entre a primeira e a segunda ronda nas eleições que decorrem na Câmara dos Comuns. Ao fim de minutos, tirou a gravata e ficou de pés no chão, numa pose desafiadora. E no discurso não poupou os adversários. Sobre o Brexit, por exemplo, lembrou que a UE garante que não há renegociação. "Nenhuma destas pessoas explica como vai fazer", apontou, depois de, por exemplo, Javid propor o acordo de Theresa May sem o mecanismo de salvaguarda (backstop).

Em consequência, Rory Stewart foi também o homem mais atacado pelos restantes, que lhe perguntavam em coro como é que ele faria em cada tópico em que refutava as ideias dos restantes. No final, Stewart explicou que tirou a gravata porque se sentiu "que estavam de partida para uma realidade alternativa devido ao estranho cenário da BBC com bancos de bar" e quis "voltar à realidade". Mas também reconheceu que "o formato não funcionou" para ele.

Ainda sobre o Brexit, Rory Stewart foi a única voz que garantiu que consigo não haverá saída sem acordo. Michael Gove - que em cada tema dizia ter um "plano pormenorizado" -- foi o único a dizer que não viria mal ao mundo se um acordo tivesse de ser adiado uns dias. "Às vezes há prolongamento no futebol para decidir o vencedor", disse o ministro do Ambiente. Para Boris Johnson, se o Brexit não acontecer no dia 31 de outubro existiria uma "catastrófica perda de confiança na política". E acredita que o acordo vai acontecer porque Bruxelas é o mais interessado num acordo porque "não quer um Brexit desordenado, não quer o Partido do Brexit no Parlamento Europeu por muito tempo e quer o dinheiro [cheque de 39 mil milhões de euros]".

Sobre a carga fiscal, Rory Stewart foi mais uma vez dissonante. De uma ou de outra forma os outros falaram em cortes nos impostos, ao passo que o secretário do Desenvolvimento Internacional disse que um alívio fiscal não é realista e preferiu destacar o investimento nos serviços públicos. "Temos de ser honestos e realistas. Eu não penso nos próximos 15 dias, penso nos próximos 15 anos."

Jeremy Hunt, que foi ministro da Saúde durante seis anos, reconheceu que os governos conservadores foram longe de mais nos cortes relacionados com a assistência social. Stewart aproveitou o tema da assistência social para defender negociações com a oposição.

Mais votos na Câmara dos Comuns

Nesta quarta-feira decorre a próxima ronda de votos nos candidatos. Os 313 deputados conservadores irão eliminar o menos votado. Na quinta-feira, por fim, uma série de votações irá escolher os dois finalistas. Então, Se um deles não desistir a favor do outro -- como aconteceu quando Theresa May ascendeu à liderança --, o voto é alargado aos militantes. A partir de dia 22, os cerca de 160 mil membros do partido Conservador devem receber um boletim de voto, que terão de responder pelo correio até 22 de julho. O vencedor será anunciado nos dias seguintes.

Na terça-feira, a segunda ronda eliminou Dominic Raab. Os 30 votos ficaram abaixo dos 10% mínimos que os novos regulamentos exigem na segunda ronda. Boris Johnson confirmou o favoritismo ao receber a preferência de 126 deputados. Seguiram-se Jeremy Hunt (46), Michael Gove (41), Rory Stewart (37) e Sajid Javid (33).

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