"Não há diferença entre o sangue de um israelita e o de um sírio"

Alexander Lerner, médico ligado a um hospital a 30 quilómetros da fronteira com a Síria descreveu ao DN, em entrevista por telefone, o tipo de ferimentos com que chegam as pessoas daquele país e como são ali tratadas.

Quais são os tipos de ferimentos mais comuns nas pessoas tratadas no seu hospital?

A maioria chega com ferimentos graves, fraturas expostas, estas são mesmo a maioria dos casos, mas há também bastantes situações de pessoas que perderam tecido muscular. Há ainda situações politraumáticas, isto é, com feridas e queimaduras graves. Na origem das feridas estão, em geral, explosões, seja de minas, bombas, granadas ou armas antitanque. Há também casos de ferimentos devido a armas de fogo, que percentualmente são uma minoria, 15%. Em termos da guerra moderna, a grande maioria dos ferimentos são resultantes de explosões.

Esse tipo de situações verifica-se em homens, mulheres e crianças?

Sim. A maioria são homens mas há igualmente muitos casos de mulheres. Tratamos também crianças, que representam cerca de 20% ou mais até do total das situações.

Diria que alguns dos indivíduos do sexo masculino são combatentes?

Sim, sem dúvida de que alguns estiveram envolvidos em combates. Mas não fazemos distinção alguma. Para nós, são apenas pessoas feridas, pessoas que estão a sofrer e necessitam tratamento. E é isso que nós fazemos aqui no hospital.

Têm noção de onde são provenientes as pessoas tratadas no hospital?

Não posso ter a certeza, mas diria que chegam maioritariamente das áreas próximas da fronteira, ainda que haja alguns provenientes de outros pontos da Síria.

Após o tratamento, os sírios procuram, principalmente, regressar ao seu país ou tentam partir para um outro lugar? Procuram a vossa ajuda para isso?

Todas as pessoas, após tratamento, regressam aos seus locais de origem.

Há notícias de terem sido tratados em hospitais israelitas combatentes islamitas e membros do Estado Islâmico (EI). Uma situação desta natureza já sucedeu nesse hospital?

Entre as pessoas que tratamos não há casos de islamitas, do EI ou de outro grupo.

O vosso é um hospital civil?

É um hospital civil e tratamos em conjunto os casos de sírios e de israelitas. Não fazemos distinção alguma. A atenção, os medicamentos, o equipamento utilizado é idêntico para todos.

Em que momento do conflito sírio os hospitais israelitas começaram a receber feridos deste país? E nesse hospital quantos sírios foram tratados até agora?

Quase desde o início. Até hoje foram tratados mais de 700 sírios, a grande maioria com traumas ortopédicos.

Enquanto cidadão israelita como vê o conflito na região e que implicações pensa que poderá ter?

É um conflito de longa duração, junto das nossas fronteiras, que causou mais de meio milhão de mortos e que tem de terminar. É um perigo não só para Israel como para toda a região do Médio Oriente. É um conflito num outro país, mas um país que faz fronteira connosco, um país com o qual não temos relações...

Tecnicamente, há uma situação de guerra entre Israel e a Síria.

Sim, há uma situação de guerra entre os dois países, mas quando se trata de cuidar de pessoas, não se pensa em quem é esta ou aquela pessoa, qual é a religião que segue, o que faz na vida. Olha-se para uma pessoa ferida ou doente, muitas vezes entre a vida e a morte, e o que vemos é um ser humano que está a sofrer e necessita de cuidados.

Que significado tem essa realidade: tratar num hospital israelita cidadãos de um país com o qual se está em guerra?

Como dizia, cuidamos de pessoas, na maioria dos casos, entre a vida e a morte. O importante não é que seja um cidadão de um país inimigo, é o que eu posso fazer para salvar a sua vida e tratar os seus membros fraturados ou destruídos. Como cirurgião, quando vejo o interior de uma pessoa, não encontro diferenças entre o corpo de um israelita e de um sírio, ou de qualquer outra nacionalidade. Tudo é absolutamente semelhante. Tudo é absolutamente semelhante. Não há qualquer diferença entre o sangue israelita e o sangue de um sírio ou outra pessoa qualquer.

Precisamente.

Espero que estas pessoas, após o seu tratamento em Israel, possam deixar para trás os estereótipos sobre o nosso povo e o nosso país. Espero que aquilo que estamos aqui a fazer, de algum modo, ajude a trazer a paz à nossa região.

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