Nagorno-Karabakh: os mais graves conflitos desde 1994

Vladimir Putin apela ao cessar-fogo entre o Azerbaijão e a Arménia. Erdogan diz que os azeris podem contar com o seu apoio "até ao fim". Comunidade internacional preocupada

A violência regressou à região do Nagorno-Karabakh. Os conflitos armados dos últimos dois dias são já considerados os mais graves desde o cessar fogo assinado em 1994, entre a Arménia e o Azerbaijão, que pôs fim à guerra iniciada em 1988. Mais de 30 soldados - 18 arménios e 12 azeris - terão morrido nos combates que começaram na noite de sexta-feira. Cada um dos lados menciona também uma vítima civil.

Situada geograficamente no território do Azerbaijão - que periodicamente ameaça retomar à força o controlo da região - , o Nagorno-Karabakh é desde 1994 controlado por separatistas arménios, com o apoio da Rússia e do governo de Erevan.

Cada um dos países culpa o outro pelo espoletar das recentes hostilidades. De acordo com um comunicado do ministério da Defesa da Arménia, "as autoridades azeris são inteiramente responsáveis pela escalada das tensões". No mesmo documento explica-se que "o adversário, com recurso a tanques, artilharia e meios aéreos levou a cabo ações ofensivas tentando penetrar nas linhas defensivas arménias". Do lado contrário o discurso é o inverso. "O cessar-fogo foi violado 130 vezes durante a noite, com recurso a morteiros, granadas e metralhadoras. Os bombardeamentos chegaram de território arménio e da zona de Karabakh dominada pelos arménios. O exército azeri viu-se obrigado a responder", afirmou o ministro da defesa do Azerbaijão.

Alarme internacional

Vladimir Putin, o presidente russo, apelou a um cessar fogo imediato, e um porta-voz do Kremlin, citado pelas agências russas, disse que Moscovo já entrou em contacto com os ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros da Arménia e do Azerbaijão na esperança de tentar travar o conflito. Também os EUA, na voz do secretário de Estado John Kerry, pediu que os dois lados se sentem à mesa das negociações, sublinhando que "os Estados Unidos condenam fortemente as violações em larga escala do cessar-fogo" que vigorava na região.

A reação de Recep Tayyip Erdogan foi menos diplomática. "Vamos apoiar o Azerbaijão até ao fim", afirmou ontem o presidente turco. Arménia e Turquia não têm relações diplomáticas, também por causa do massacre de arménios pelo império otomano em 1915, que Erevan denuncia como genocídio.

Depois das posições antagónicas na Síria - a Rússia apoia o regime de Assad -, a recente escalada de violência em Nagorno-Karabakh e as declarações de Erdogan vêm contaminar ainda mais a relação entre a Turquia e o país liderado por Vladimir Putin. Desde 1994 que a Rússia tem estado maioritariamente ao lado da Arménia, enquanto que a Turquia mostra mais interesse em dar a mão ao regime azeri.

Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas também já veio apelar à calma. E o designado Grupo de Minsk - uma comissão criada em 1992 pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, com o objetivo de negociar uma resolução pacífica no conflito de Nagorno-Karabakh - também emitiu um comunicado no mesmo sentido. "Condenamos o uso da força e lamentamos a perda de vidas, incluindo de civis. Pedimos aos dois lados que parem com os ataques e que tomem as medidas necessárias para estabilizar a situação", refere o documento assinado pelos embaixadores russo, norte-americano e francês.

Passado de violência

A guerra do Nagorno-Karabakh foi travada entre os anos de 1988 e 1994 e estima-se que no conflito tenham morrido entre 20 mil e 30 mil pessoas. Essa explosão de violência entre arménios e azeris - à época duas repúblicas integradas na União Soviética - deu-se quando o parlamento da região autónoma do Nagorno-Karabakh votou favoravelmente à integração na Arménia.

Os combates intensificaram-se ainda mais em 1991 com a desintegração da URSS e a declaração unilateral de independência feita pela região. A autoproclamada República do Nagorno-Karabakh é reconhecida oficialmente apenas pela Abecásia, Ossétia do Sul e Transnístria, três regiões não reconhecidas pela ONU enquanto estados independentes nas quais também subsistem conflitos congelados.

De acordo com a BBC, Karabakh é uma palavra persa que pode traduzir-se por "jardim negro" e Nagorno, de origem russa, significa "montanha". Artsakh é a designação arménia para a região.

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