Na Cisjordânia a seca é agravada pelas restrições no acesso à água

Comunidades palestinianas na zona ocupada queixam-se de escassez de água canalizada. Israel argumenta que fornece o dobro do que ficou estabelecido nos acordos de Oslo

Al Jab"a, uma comunidade palestiniana situada numa zona montanhosa da Cisjordânia ocupada por Israel, difere em muito dos colonatos judaicos nas redondezas, mas partilha uma preocupação com os seus vizinhos - a escassez de água.

Nas últimas décadas, a pluviosidade diminuiu e reduziram-se as reservas de água no subsolo. De acordo com um relatório de 2012 do Programa Ambiental das Nações Unidas, os períodos de seca tornaram-se "mais frequentes e mais intensos".

Os habitantes de Al Jab"a, que em tempos tinham de caminhar durante horas em busca de água, têm acesso às reservas israelitas graças a um reservatório, a uma bomba de extração e a um canal construídos em 2013 por uma organização não governamental italiana, o Gruppo di Volontariato Civile (GVC).

Mas não é suficiente. Segundo as famílias de Al Jab"a, uma localidade com 150 casas situada 12 quilómetros a sudoeste de Belém, a água não chega. Além disso, os residentes têm medo de que o sistema possa ser demolido, pois nunca foi aprovado oficialmente.

"Antes tínhamos de caminhar várias vezes por dia até às nascentes mais próximas para encher baldes e garrafas", relata Omar Musa, de 18 anos, que vive com os pais e cinco irmãos perto do reservatório, numa casa no cimo de uma colina. "Fiquei feliz quando soube que íamos ter água em casa." Segundo as suas contas, a família poupa cerca de seis horas por dia por já não ter de procurar água para uso doméstico, para o cultivo e para os animais.

No entanto, numerosas comunidades rurais na Cisjordânia não estão ligadas à rede gerida pela companhia nacional de água israelita, a Mekorot, que é responsável pelo fornecimento de água aos palestinianos que vivem nos territórios ocupados por Israel.

Em Al Jab"a, antes de os canais e de o reservatório terem passado a servir as restantes famílias em 2013, apenas 10% das casas estavam ligadas ao sistema de abastecimento. A água fornecida pela Mekorot é bombeada colina acima para ser depois armazenada no reservatório. Ainda assim, este avanço não solucionou por completo os problemas de escassez. Os residentes queixam-se de que o sistema da Mekorot garante água apenas de forma intermitente e com fraca pressão. Nos momentos em que tudo está a funcionar bem, as famílias têm de apressar-se para conseguir recolher e armazenar o máximo que conseguirem.

A construção pelos palestinianos está proibida na área C, uma designação atribuída a cerca de 60% da Cisjordânia, na qual se inclui Al Jab"a. De acordo com o gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês), entre 2010 e 2014 apenas 1,5% dos pedidos de licença de construção na área C foram aprovados.

Segundo a GVC, a organização italiana que construiu o sistema em parceria com a UNICEF, houve um primeiro pedido que foi rejeitado. De acordo com um relatório da OCHA, as autoridades israelitas defendem que a demolição de estruturas que foram edificadas sem autorização é uma medida legítima. Daí o receio dos habitantes de Al Jab"a.

Apesar de apenas um quinto das 14 mil ordens de demolição na área C emitidas desde 1988 terem sido levadas a cabo, a incerteza deixa os residentes preocupados pela segurança das suas casas e com medo de que o abastecimento de água chegue ao fim.

Depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, na qual Israel anexou a Cisjordânia, o governo israelita impôs restrições nos furos para recolha e na construção de redes de distribuição, o que deixou um quarto dos palestinianos sem acesso a água canalizada, segundo um estudo da Sociedade Académica Palestiniana para o Estudo dos Assuntos Internacionais.

Uma avaliação da UNICEF realizada em 2015 mostrou que 400 mil dos 1,7 milhões de palestinianos que vivem na Cisjordânia tinham então escassez de água potável e falta de acesso a condições sanitárias básicas.

O Programa Ambiental das Nações Unidas refere também que Israel utiliza a maior parte dos recursos de água disponíveis quer na Cisjordânia quer na Faixa de Gaza.

No entanto, o governo israelita argumenta que disponibiliza para os palestinianos o dobro dos 30 milhões de metros cúbicos de água que foram estabelecidos nos acordos de Oslo em 1995.

Tragam as cisternas de volta?

Gregor von Medeazza, responsável pelo programa da água, higiene e condições sanitárias da UNICEF em Jerusalém Leste, sublinha que a água continua a ser um dos principais pontos de discórdia entre Israel e as comunidades palestinianas que vivem na Cisjordânia. "Mas devia ser um motivo de colaboração e aproximar as pessoas", explica Von Medeazza. "Afinal, todos partilham os mesmos recursos", acrescenta.

O mesmo responsável assinala que a UNICEF está preocupada em garantir que são tomadas as medidas adequadas para que a água seja usada de forma racional e para ajudar as comunidades a adaptarem-se a uma situação de escassez.

"É preciso eliminar os desperdícios", refere Von Medeazza. Com as alterações climáticas a tornar a precipitação mais variável, "é importante enfatizar que o acesso a uma quantidade mínima de água é uma questão de direitos humanos".

Além da construção de reservatórios, Von Medeazza sugere reabilitar cerca de 300 antigas cisternas - tanques no subsolo que remontam ao período romano e que eram usados para recolher e armazenar água durante a estação das chuvas. São sistemas com potencial para serem usados nos dias de hoje e essa seria uma medida eficiente do ponto de vista dos custos.

Cerca de 80 dessas cisternas já foram restauradas por uma aliança de organizações não governamentais. "A visão a longo prazo passa por aumentar o acesso à água daqueles que vivem em lugares mais remotos", explica Von Medeazza. "Temos as soluções técnicas para aumentar as redes e interligar as comunidades. Mas precisamos de mais apoio das duas partes, israelita e palestiniana, para que isto seja possível."

Musa, em Al Jab"a, continua preocupado, mas também resoluto: "Temos medo de perder o nosso reservatório, mas não vamos abandonar a nossa casa nem a nossa comunidade."

Jornalista da agência Reuters

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