Na Bélgica os médicos trabalham mesmo infetados com covid-19

"Se sou enfermeiro ou médico e estou infetado, mas se não tenho dores corporais, se não estou de cama, só me resta colocar a máscara. É preciso trabalhar", frisou o chefe de cuidados intensivos de um hospital belga

Um crescimento "exponencial" dos contágios e a falta de profissionais de saúde, a ponto de alguns trabalharem mesmo estando infetados com covid-19, aumentam a preocupação no Hospital Universitário de Liège, no leste da Bélgica, devido ao que os responsáveis consideram ser um "tsunami" que se aproxima.

"Na quarta-feira, quase alcançámos o número máximo de casos da primeira onda", disse Christelle Meurice, especialista em doenças infecciosas - ainda que, neste momento, os belgas estejam há três semanas em confinamento.

"Tememos que as últimas medidas sejam insuficientes para aplanar a curva. Vemos um tsunami a aproximar-se", alerta a especialista, que lidera uma unidade de 26 leitos com 18 pacientes com coronavírus.

O principal medo de Meurice é ter de passar a instalar dois pacientes por quarto, uma situação mais difícil tanto para os pacientes como para as equipas médicas.

Desde segunda-feira, cafés e restaurantes fecharam em todo o país, e um toque de recolher obrigatório foi imposto a partir da meia-noite até as 5 da manhã.

"Essas medidas são claramente insuficientes perante uma situação extremamente preocupante", acrescenta Meurice, que menciona "um fracasso coletivo".

Com mais de 250 mil casos confirmados e 10 500 mortes, a Bélgica é um dos países europeus mais afetados pelo vírus, tendo em conta que tem uma população de 11,5 milhões de habitantes.

No Hospital Universitário de Liège - que tem seis unidades dedicadas à covid -, os internamentos aumentaram de 91 para 155 numa semana.

Guerra de trincheiras

Nada mais surpreende o médico Benoît Misset, chefe de cuidados intensivos do hospital. "Se sou enfermeiro ou médico e estou infetado, mas se não tenho dores corporais, se não estou de cama, só me resta colocar a máscara. É preciso trabalhar. Se há pessoas com formação, não me vou deter em detalhes", confessa o médico francês.

"Estamos lotados e sobrecarregados, também um pouco frustrados, já que esperávamos por isto há dois meses. As decisões não foram tomadas a tempo", protesta.

"Ninguém levou a situação a sério, nem os políticos nem a população", afirma, sem conseguir ocultar a sua indignação.

Defensor de um novo confinamento, Bisset pede medidas mais efetivas, mesmo se entrarem em vigor apenas durante um ou dois meses.

Recentemente, o Hospital Universitário de Liège começou a transferir pacientes para outras províncias belgas e para a Alemanha, priorizando o atendimento de pacientes exclusivamente com covid, em detrimento de outras doenças.

"Já chegámos ao ponto de fechar metade do hospital para conseguir recuperar pessoal para os cuidados intensivos. Agora é uma guerra de trincheiras", com a diferença de que "não são bombas, é um vírus", desabafou. "É o vírus que decide, não somos nós, nem os políticos nem os cientistas", lamenta.

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