Municipais no Brasil. Bolsonaro aposta em aliança com IURD no Rio e em São Paulo

Em duas eleições dominadas pelo regresso de representantes da "política tradicional" derrotada em 2018, os candidatos do presidente e da Universal arriscam ficar fora das segundas voltas, enquanto o PT de Lula perde hegemonia à esquerda

Numa eleição municipal com mais de 140 milhões de eleitores e 700 mil candidatos aos cargos de prefeito, vice-prefeito e vereador em mais de 5570 municípios, duas cidades se destacam das demais: São Paulo e Rio de Janeiro, as duas mais populosas de um Brasil que vai a votos neste domingo, dia 15 de novembro.

Em ambas as metrópoles, lideram as sondagens, com folga, candidatos da política tradicional - ou "velha política", como preferem chamar-lhe os seus detratores - no que pode ser considerado um refluxo da onda de novas lideranças nascida após a Operação Lava Jato e que teve na ascensão do supostamente outsider Jair Bolsonaro à presidência da República a sua principal tradução.

Eduardo Paes, líder isoladíssimo no Rio, segundo os principais institutos de pesquisas, é um político de carreira, prefeito de 2009 a 2017, antes da "onda lava-jatista" e da chamada "nova política" sacudirem o Brasil. O atual prefeito paulistano, Bruno Covas, que também tem garantida a presença na segunda volta, é do PSDB, fundado por Fernando Henrique Cardoso e pelo seu avô, o patriarca de uma família de muitos políticos Mário Covas.

Numa outra leitura às pesquisas eleitorais, entretanto, verifica-se que a esquerda (ou melhor, as esquerdas) luta pela presença em prováveis segundas voltas (a serem realizadas dia 29) com os candidatos de extrema-direita patrocinados por Bolsonaro. E pela IURD: os dois preferidos do presidente, tanto Marcelo Crivella, o sobrinho de Edir Macedo que luta pela reeleição no Rio, como Celso Russomanno, que disputa a prefeitura de São Paulo, são do Republicanos, considerado o braço político da influente igreja evangélica.

Na esquerda, os dois candidatos do PT de Lula da Silva estão longe do topo nas sondagens: principalmente, Jilmar Tatto, em São Paulo, que cedeu protagonismo ao candidato presidencial em 2018, Guilherme Boulos, do PSOL, partido já comparado ao Bloco de Esquerda português, em luta taco a taco com Russomanno pela segunda volta. No Rio, Benedita da Silva sofre forte concorrência no campo da esquerda da Delegada Martha Rocha, do PDT, força política cujo principal nome nacional é Ciro Gomes, terceiro classificado na corrida ao Planalto de 2018.

Paulo Baía, cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro, concorda que a "nova política" pode ter perdido o prazo de validade. "Uma configuração com Eduardo Paes e Marcelo Crivella disputando o segundo turno das municipais do Rio de Janeiro marca, sim, o fim dessa chamada "nova política", vitoriosa em 2018 com Wilson Witzel, eleito governador, e com Jair Bolsonaro, eleito presidente", opina o politólogo a propósito do pleito carioca.

Esquerda ou esquerdas?

Conceito de nova e velha política à parte, Vinícius Vieira, professor da Fundação Armando Álvares Penteado, entretanto, arruma os campos políticos que se desenham no Brasil nestas municipais numa série de polos.

"Nós temos o centrismo, uma aliança entre PSDB, DEM e MDB, com Paes, no Rio, e Covas, em São Paulo", os dois líderes das sondagens.

"E também a esquerda, dividida em três tipos, a trabalhista no sentido europeu e mais à direita da esquerda, representada pelo PDT e pelo PSB, que se pode reunir num apoio a Ciro Gomes na presidencial de 2022, temos o centro da esquerda, o PT, que tende a minguar, por exemplo, em São Paulo com o seu candidato, Tatto, a ter prestação medíocre nas sondagens, e temos a esquerda mais à esquerda, não é extrema-esquerda porque não é simétrica ao bolsonarismo, e que é representada pelo PSOL, partido com agenda próxima da juventude, com candidato muito competitivo em São Paulo, o Boulos", continua.

Finalmente, a direita: "A direita parece ter mais unidade, nessa aliança entre IURD, dos candidatos Crivella e Russomanno, e Bolsonaro, mas, embora menos fragmentada do que a esquerda, está em aparente queda, com os seus candidatos em torno apenas dos 10%". E há uma "adenda" na direita: "Um sinal de cisão, sobretudo em São Paulo, com os candidatos Joice Hasselmann, do PSL, uma ex-bolsonarista, e o candidato Mamãe Falei, do Patriota", um liberal na economia.

É a "fragmentação à esquerda", no entanto, que mais tem ocupado analistas, ainda na esteira da divisão das candidaturas de Fernando Haddad, do PT, e de Ciro Gomes, do PDT, na última presidencial.

"Fala-se muito em fragmentação da esquerda mas eu não conheço no passado nenhum cenário diferente: as esquerdas, os progressistas, representados por PT, PDT, PSB ou PSOL, sempre estiveram sozinhos nas eleições, é tradição desde 1989 esses partidos lançarem os seus candidatos e disputarem o voto na primeira volta, uma união tática costuma acontecer apenas na segunda volta", lembra Baía.

Para o sociólogo Alberto Carlos Almeida, autor do best seller "Cabeça de Brasileiro", "a fragmentação há à esquerda e há à direita". "O Brasil é o país com mais partidos do mundo e todos querem ter o seu candidato na primeira volta, isso continuará assim até se sentirem os efeitos da nova regra eleitoral que restringe a criação de pequenos partidos e todos se reúnam e alinhem num só, mas isso é um processo que demorará alguns anos".

Teste ao presidente ou não?

O certo é que, apesar de Jair Bolsonaro, a meio da campanha (sobretudo após a derrota na política externa com a eleição de Joe Biden) se ter dedicado a apoiar Crivella e Russomanno, as eleições municipais no Brasil não devem ser lidas como um teste ao governo central - pelo menos, não nos termos das autárquicas em Portugal ao primeiro-ministro ou das intercalares americanas ao inquilino da Casa Branca.

"A agenda nas eleições municipais é uma agenda local, aqui no Rio de Janeiro e noutras praças, as campanhas de Paes, de Crivella e também de Martha Rocha e de Benedita da Silva e dos outros não têm usado a questão nacional, ela atrapalha a campanha", nota Paulo Baía.

Para Almeida, "o candidato associar a sua campanha ao presidente ou o presidente apoiar o candidato é inútil". "O eleitor pensa "ok, Bolsonaro, eu gosto de você e você apoia o Russomanno mas aqui no município as questões são outras, logo eu voto em quem eu quiser"".

"Eu não leio os resultados das municipais brasileiras como teste ao presidente, não li no tempo de Fernando Henrique Cardoso, não li no tempo do Lula, não leio agora com Bolsonaro, são lógicas eleitorais diferentes", continua.

E exemplifica: "Se você verificar, nas municipais de 2016 o PSL elegeu meros 30 prefeitos e o PT teve uma debacle monumental, nas eleições gerais de 2018 quais foram os partidos que elegeram mais deputados e senadores? O PSL e o PT. Então a relação entre eleições não é relevante no Brasil".

O colunista do jornal O Globo Ascânio Seleme, que escreveu artigo sob o título "Bolsonaro é o grande perdedor das eleições", tem entendimento diferente. "Não adianta argumentar que estas são outras eleições e que pleitos municipais tratam de questões paroquiais e não refletem a grande política nacional. Isso pode ser verdade em Conceição do Mato Dentro, Iguaba Grande e Júlio de Castilhos, mas não em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre ou Recife".

Para o jornalista, salvo em três capitais estaduais em 26, onde os candidatos de Bolsonaro são competitivos, nas outras "só comem poeira". "Seu dedo de ouro das eleições de 2018 aparentemente virou um dedo podre. Para onde ele aponta, é dali mesmo que não sai nada", finaliza.

Consequências no Governo?

Segundo o politólogo Antonio Lavareda, ouvido pelo Correio Braziliense, pode haver consequências na composição do governo em decorrência das municipais. "Os partidos do Centrão [grupo de partidos sem ideologia que apoia os governos em troca de cargos na máquina pública] devem crescer em número de prefeituras e os partidos mais representativos do perfil do bolsonarismo não devem ter resultados expressivos". Com isso, conclui, "é natural que esses partidos do Centrão utilizem o seu crescimento para aumentar a pressão que já fazem para conseguirem fatias maiores do governo".

Além de Rio e São Paulo, entretanto, outras capitais estaduais têm ganho espaço mediático nacional: em Belo Horizonte, o atual prefeito, Alexandre Kalil, do PSD, partido de centro, criticado por Bolsonaro por ter optado por rígido confinamento na pandemia, ostenta impressionante vantagem de 55 pontos sobre o segundo; em Porto Alegre, a comunista Manuela D'Ávila, do PCdoB, mais conhecida por ser a candidata a vice de Haddad, em 2018, com cerca de 30% nas sondagens, pode ser eleita a primeira prefeita mulher da cidade.

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