Moro presta depoimento à polícia em novo round contra Bolsonaro

Em frente ao mesmo edifício onde Lula ficou detido, claques a favor do ex-ministro e a favor do presidente criam tumulto e têm de ser separadas. O primeiro arrisca processo judicial, se não se comprovarem as acusações. Caso contrário, o segundo pode enfrentar, no limite, processo de impeachment

Sergio Moro vai depor neste sábado à polícia federal sobre as acusações que fez contra Jair Bolsonaro na conferência de imprensa que marcou a sua saída do governo.

O depoimento é uma espécie de segundo round do duelo entre os dois ex-aliados a propósito da suposta interferência do presidente da República em investigações policiais sigilosas envolvendo-o a si e a familiares e aliados próximos.

Moro será ouvido nma sala ampla com a distância recomendada pelas autoridades de saúde por causa do novo coronavírus e com equipamentos de proteção individual.

Em frente à superintendência da polícia federal em Curitiba - o mesmo edifício onde Lula da Silva, condenado por Moro e impedido, por isso, de concorrer às eleições de 2018 que elegeram Bolsonaro -, adeptos do ex-ministro e do chefe de Estado envolveram-se em tumultos.

Em maioria, os bolsonaristas surgiram com máscaras de proteção e outros adereços com a inscrição #fechadoscomBolsonaro. Os lava-jatistas, por sua vez, mostraram cartazes com o rosto de Moro e de membros da task force que investigou o Petrolão.

A polícia teve de intervir após confrontos e gritos de "Judas" dos pró-governo contra o ex-ministro.

"Judas" foi a expressão utilizada horas antes por Bolsonaro para se referir ao antigo aliado. "O Judas que vai depor hoje interferiu para que não se investigasse?", perguntou o presidente através das redes sociais como introdução a um vídeo da facada que sofreu em Juiz de Fora, a 6 de setembro, do hoje detido em estabelecimento psiquiátrico Adélio Bispo.

Por outro lado, Moro foi a capa da (esgotada) revista Veja desta semana afirmando que não é mentiroso e que apresentará mais provas das tais interferências de Bolsonaro. Segundo a revista Época, por sua vez, o ex-ministro da Justiça preparou um dossiê com o histórico de 15 meses de conversas no WhatsApp para provar as denúncias contra o seu "ex-chefe".

O inquérito a Moro foi pedido pelo juiz do Supremo Tribunal federal (STF) Celso de Mello, o mais antigo da casa e cuja reforma está prevista para novembro, abrindo uma vaga na corte.

Se após estas diligências ficar provado que Moro não falou a verdade, o ex-ministro poderá responder em tribunal de primeira instância - uma vez que perdeu o foro privilegiado que a condição de ministro lhe garantia - por denuncia caluniosa e por crimes contra a honra.

Já se forem dadas como provadas, Bolsonaro corre o risco de ser acusado de oito crimes e, no limite, ser alvo de processo de destituição.

O depoimento foi colhido presencialmente por dois delegados da polícia federal e acompanhado pelos procuradores que tiveram autorização do juiz Celso de Mello. São eles: João Paulo Lordelo Guimarães Tavares, Antonio Morimoto e Hebert Reis Mesquita.

Além de acusar Bolsonaro no seu discurso de demissão a propósito da pressão para exonerar Maurício Valeixo, ex-diretor da polícia federal e homem da confiança do ex-juiz, Moro mostrou ao Jornal Nacional, telejornal da TV Globo de maior audiência e influência no país, mensagens trocadas com a próprio presidente e com a deputada federal governista Carla Zambelli a tentar convencê-lo a permanecer no cargo em troca da vaga no STF em novembro.

Celso de Mello deu então prazo de 60 dias para que Moro fosse ouvido pela polícia. Mas um pedido de redução do prazo para cinco dias apresentado na quinta-feira pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania) e pelos deputados Tabata Amaral (PDT) e Felipe Rigoni (PSB) antecipou a diligência.

"A gravidade das acusações dirigidas ao presidente da República, em nosso entendimento, somada à grave crise política que atravessa o país, leva a crer que o prazo de 60 dias para a realização da diligência em tela pode demonstrar-se excessivo, mormente porque o prolongamento da crise política resulta em prejuízos para o combate às concomitantes crises na Saúde e na Economia. Nesse sentido, a elasticidade do prazo concedido pode redundar em iminente risco de perecimento das provas", argumentaram os congressistas.

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