Ministro das Finanças holandês faz 'mea culpa' sobre críticas a países do sul da UE

Wopke Hoekstra admite que não revelou empatia suficiente no Conselho Europeu e afirma agora que "apelar à solidariedade faz sentido". Diz ainda que "uma União Europeia forte também é do interesse da Holanda".

​​​​​​Wopke Hoekstra, ministro das Finanças da Holanda, admitiu à imprensa holandesa que esteve mal ao criticar os países do sul da UE na reunião do Conselho Europeu.

Em entrevista ao canal de televisão RTLZ, Hoesktra admitiu: "Não fomos empáticos o suficiente". Diz agora que "apelar à solidariedade faz sentido" e aponta que "uma UE forte também é do interesse da Holanda". "Deveríamos ter reagido melhor, inclusive eu", afirmou, referindo-se à forma como contestou o recurso a coronabonds para sair da crise económica na UE.

Nesse Conselho Europeu extraordinário de quinta-feira passada, Hoekstra e o primeiro-ministro Mark Rutte rejeitaram com veemência a emissão de dívida conjunta. O ministro das Finanças teve uma declaração em que pediu que Espanha fosse investigada por não ter capacidade orçamental para fazer face à pandemia que originou crítica e palavras fortes de António Costa.

"Esse discurso é repugnante no quadro de uma União Europeia. E a expressão é mesmo essa. Repugnante", disse António Costa quando questionado sobre a declaração do ministro das Finanças holandês. Para o primeiro-ministro, a afirmação do ministro holandês foi "uma absoluta inconsciência" e uma "mesquinhez recorrente" que "mina completamente aquilo que é o espírito da UE e que é uma ameaça ao futuro da UE".

Oposição a coronabonds mantém-se

Apesar destas declarações, a posição da Holanda sobre a emissão de dívida conjunta não mudou e a oposição a coronabonds mantém-se, insistindo que há outros mecanismos europeus para fazer face à crise.

Nesta entrevista hoje concedida, Hoekstra diz que esteve mal na forma como se expressou. "Tem muito a ver com a forma como o dissemos. Não fomos suficientemente empáticos, e isso levou a resistências. Expressámos bem o que não queríamos, mas não conseguimos fazer passar o que queremos. Eu deveria ter feito melhor", disse.

O ministro garantiu que o Governo holandês é sensível aos apelos de solidariedade dos países mais atingidos pela atual crise, "que é, acima de tudo, sanitária", e que pretende também ajudar a encontrar uma resposta, até porque uma União Europeia forte também é do seu interesse.

No seu 'mea culpa' - que se restringe à forma, ainda que não ao conteúdo, pois insistiu que a mutualização da dívida reclamada por vários Estados-membros é uma má ideia -, Hoekstra comentou ainda que basta observar a "tempestade" de críticas que as suas declarações suscitaram para concluir que, "obviamente, não correu bem".

A primeira crítica mais dura à intervenção do ministro holandês durante uma reunião de ministros das Finanças da União Europeia na semana passada partiu do primeiro-ministro português, António Costa, no final do Conselho Europeu realizado na última quinta-feira por teleconferência, tendo desde então surgido várias vozes igualmente muito críticas das posições assumidas por Hoekstra.

Essas criticas surgiram sobretudo de Espanha e Itália, mas até dos parceiros de coligação no Governo holandês, que admitiram recear que as declarações de Hoekstra resultassem num "desastre diplomático" difícil de reparar.

No final desse Conselho Europeu, marcado por uma discussão tensa que se prolongou por cerca de seis horas, os líderes dos 27 convidaram o Eurogrupo a trabalhar, no prazo de duas semanas, em propostas concretas para uma resposta comum aos choques provocados pela pandemia de covid-19 nas economias europeias, tendo o presidente do fórum de ministros das Finanças da zona euro, Mário Centeno, convocado uma reunião extraordinária para 07 de abril.

"O Eurogrupo vai reunir-se em 07 de abril para atuar mediante o mandato atribuído pelos lideres do Conselho Europeu e apresentará propostas para reforçar a nossa resposta, em termos de políticas a adotar na UE, à covid-19", anunciou na segunda-feira o presidente do Eurogrupo.

Entre as soluções mais abordadas, e além da emissão conjunta de dívida, que continua a merecer a oposição de Holanda, Áustria, Finlândia e também muito pouca recetividade da Alemanha, conta-se a de recorrer a uma linha de crédito condicional do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MME), o fundo de resgate permanente da zona euro.

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