Ministro da Educação do Brasil sai e vai para o Banco Mundial

Abraham Weintraub, que chegou a ser equacionado num cargo diplomático em Lisboa, diz que continuará a apoiar Jair Bolsonaro mas que não quer discutir para já os motivos da saída. O provável sucessor também é fã do filósofo Olavo de Carvalho

O ministro da educação do Brasil, deixou nesta quinta-feira o cargo, como já se esperava. Em vez de passar a trabalhar em Lisboa, num cargo diplomático, como chegou a ser equacionado, Abraham Weintraub ocupará uma posição no Banco Mundial.

Para o seu lugar, o nome do atual secretário de alfabetização Carlos Nadalim, embora enfrente resistências, é o mais falado. Admirador de Olavo de Carvalho, o auto-denominado guru da nova direita brasileira, assim como Weintraub e os três filhos políticos de Jair Bolsonaro, e entusiasta da educação domiciliar, Nadalim deve ser apontado, para já, como interino. O presidente optou por essa solução na saúde, ocupada pelo ministro provisório Eduardo Pazuello, na sequência das demissões dos médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

"Desta vez é verdade, estou saindo do Ministério da Educação. Nos próximos dias, passo o bastão para o ministro que vai ficar no meu lugar, interino ou definitivo. Neste momento, não quero discutir os motivos da minha saída, não cabe. Recebi o convite para ser o diretor de um banco, já fui diretor de um banco no passado, e volto para o mesmo cargo, porém no Banco Mundial", afirmou Weintraub, em vídeo ao lado de Jair Bolsonaro, de quem foi ardente defensor.

"Com isso, eu, a minha esposa e nossos filhos poderemos ter a nossa segurança, o que estava me deixando muito preocupado. Estou fechando um ciclo e abrindo outro, presidente, e claro que sigo apoiando o senhor, assim como faço há três anos", concluiu.

"É um momento difícil. Todos os meus compromissos de campanha continuam de pé e busco implementá-los da melhor maneira possível. Todos que estão nos ouvindo sabem o que o Brasil está passando e o momento é de confiança. Jamais deixaremos de lutar pela liberdade. Eu faço o que o povo quiser", disse Bolsonaro na sequência.

O ministro ficou conhecido pelo acúmulo de erros de português utilizados nos seus Tweets e até em documentos oficiais. Num ofício enviado ao colega da economia reclamou da "paralização" das pesquisas e da "suspenção" de verbas em vez de se referir a "paralisação" e "suspensão".

Em resposta ao deputado Eduardo Bolsonaro, agradeu o apoio dele e notou uma questão ainda mais "imprecionante" no lugar de "impressionante".

Reclamou de notícias dizendo que ele "insitaria" à violência, quando o correto é usar "incitaria".

Confundiu o escritor checo Kafka com kafta, um petisco de origem árabe muito apreciado no Brasil e chamou os apoiantes de Lula da Silva de "acepipes" [aperitivos], presumindo-se que queria usar asseclas [aliados, admiradores]".

Erros de concordância e de acentuação também são comuns na comunicação do ministro da educação.

Além dos erros, outro momento considerado embaraçoso foi quando citou um personagem da banda desenhada brasileira Turma da Mônica, o Cebolinha, para se referir aos chineses. Cebolinha troca os "r" por "l", um estereótipo utilizado em relação aos orientais.

"Geopolíticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?", escreveu, a propósito da pandemia do coronavírus. A diplomacia da China, maior cliente do Brasil, reagiu energicamente.

Noutra ocasião publicou vídeo, com um guarda-chuva, a cantar, ao som de "Singin' in The Rain" que havia chuva de fake news.

Mas além da forma, o conteúdo da sua política foi o que mais provocou a revolta de educadores e estudantes em geral. Acusado de promoção do obscurantismo, sob sua gestão o exame nacional do ensino médio decorreu repleto de erros que afetaram milhares de estudantes.

A situação de Weintraub no governo tornou-se quase insustentável depois da sua participação, no fim-de-semana passado, numa manifestação da milícia armada pró-bolsonarista "300 do Brasil" na qual, a propósito dos juízes do Supremo Tribunal Federal (STF), reforçou que os considerava "vagabundos",

Reforçou porque na reunião ministerial de 22 de abril que se tornou pública por estar incluída nas investigações sobre a suposta interferência de Bolsonaro na polícia federal, o ministro da educação já havia dito que, por ele, mandava "todos os vagabundos de Brasília para a prisão, a começar pelos juízes do STF".

Ao reafirmar essa posição numa manifestação pública com um grupo de extrema-direita, foi repreendido pelo próprio Bolsonaro, que o considerou "um problema" e classificou a situação de "imprudente".

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