Milhares em marcha pela Europa pedem novo referendo

Organização falou em 50 mil e a polícia disse serem 30 mil os que ontem se manifestaram em Londres contra o 'brexit'

"Bremain e não brexit", "Não no meu nome" ou "Nós amamos a União Europeia" eram algumas das mensagens nos cartazes dos milhares de manifestantes que marcharam ontem em Londres. Apesar de 51,9% dos eleitores britânicos terem votado no referendo de 23 de junho para sair da União Europeia, na Marcha pela Europa pediu-se para que os políticos não acionem o artigo 50.º do Tratado de Lisboa (que dá início à contagem decrescente para a saída) e uma nova consulta popular.

"Podemos impedir o brexit se recusarmos aceitar o referendo como a última palavra e tirarmos os dedos do botão de autodestruição", escreveu Kieran MacDermott, um dos organizadores da marcha que foi convocada há uma semana através do Facebook. "Não vamos deixar a próxima geração à deriva. Podemos dar ao parlamento as munições que precisam para resolver esta confusão e reconsiderar o brexit se tomarmos uma posição", acrescentou.

Segundo a organização, 50 mil pessoas participaram na marcha. A polícia diz que foram 30 mil os que percorreram a distância entre Park Lane, junto a Hyde Park, e a praça do Parlamento. Pelo caminho, os manifestantes passaram por Trafalgar Square, onde na terça-feira já tinha decorrido outro protesto, e pela entrada de Downing Street.

Junto à residência oficial do primeiro-ministro gritou-se "devias ter vergonha". David Cameron foi eleito em maio de 2015 com maioria absoluta depois de prometer a realização do referendo sobre a relação com a União Europeia, sendo considerado o principal responsável pelo que está a acontecer. O primeiro-ministro anunciou, na manhã após a vitória do brexit, que se demitia em outubro, cabendo ao seu sucessor negociar com Bruxelas a saída do país da UE.

"Hoje, juntámo-nos a milhares de pessoas e pedimos ao país para se unir numa discussão democrática positiva sobre a nova parceria com a Europa", escreveram os organizadores da marcha no Facebook. "Condenamos a desinformação sobre o brexit e acreditamos que precisamos um debate informado sobre o caminho a seguir. Não podemos levantar a ponte levadiça para a Europa e pedimos aos nossos políticos que estabeleçam um roteiro claro para esta parceria", escreveram Mark Thomas, Fabien Riggall e Kieran McDermott. "Os políticos têm de estar preparados para apresentar ao povo britânico as suas expectativas para o caminho a seguir através de umas eleições gerais ou de um novo referendo", concluíram.

Protesto musical

Aproveitando o facto de a sigla em inglês da União Europeia ser EU, que se pronuncia como a palavra "you" (tu), foram muitos os slogans musicais ontem na marcha. Uns recuperaram o grande êxito de Rick Astley Never Gonna Give You Up (nunca vou desistir de ti) transformou-se em "Never Gonna Give EU Up", isto é, desistir da União Europeia. Outros optaram pelos Abba "So when you"re near me, darling can"t EU hear me S.O.S."(quando estás perto de mim, querido, não me consegues ouvir a pedir socorro) ou por citar Stevie Wonder "I just called to say I love EU" (só telefonei para dizer que te amo).

Mas nem tudo foi música. "Fiquei genuinamente surpreendido na manhã depois do voto", disse Nathaniel Samson, de 25 anos, à Reuters. "Não sei como será o meu futuro", acrescentou. "Estou na marcha para expressar o meu descontentamento. Aceito o resultado, mas é para provar que não o vamos aceitar calmamente", referiu.

Mas para os defensores do brexit, estas marchas põem em causa aquilo que foi uma decisão democrática, num referendo cuja participação foi de 72%. "Só para lembrar, amigos do "ficar", que mais pessoas votaram para sair da União Europeia do que votaram para outra coisa qualquer, desde sempre", escreveu um eurodeputado dos independentistas do UKIP, Daniel Hanna. Outros limitavam-se a escrever "esqueçam isso e sigam em frente" ou lembrar que "a liberdade ganhou", considerando os manifestantes "crianças mimadas".

Isabel II na Escócia

A rainha discursou ontem na abertura do Parlamento escocês, sem fazer referência ao referendo. Na Escócia, mais de 60% dos eleitores votaram para ficar na União Europeia, e a primeira-ministra, Nicola Sturgeon, não afasta a hipótese de convocar outra consulta popular sobre a independência (rejeitada em 2014 por 55% dos escoceses).

"Todos vivemos e trabalhamos num mundo cada vez mais complexo e exigente, onde os acontecimentos podem ocorrer e ocorrem a um ritmo impressionante, e manter a capacidade de ficar calmos e serenos pode ser difícil", disse Isabel II em Holyrood, o Parlamento escocês. A rainha, de 90 anos, tem de demonstrar isenção total no em relação às questões políticas. "Como este Parlamento demonstrou com sucesso ao longo dos anos, uma característica de liderança num mundo tão veloz é permitir espaço suficiente para a contemplação calma e reflexão que podem possibilitar uma análise mais profunda e fria sobre como os desafios e as oportunidades podem ser enfrentados", acrescentou a monarca no discurso diante dos deputados.

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