Michel Temer troca ministro da Justiça a uma semana de julgamento

Torquato Jardim, o novo titular da pasta, foi juiz do Tribunal Eleitoral, onde o presidente joga batalha decisiva pela sobrevivência. Manobra manteve ainda imunidade de deputado acusado de receber mala com dinheiro

A uma semana do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pode definir a perda do seu mandato, Michel Temer, do PMDB, escolheu para novo ministro da Justiça um antigo membro daquele órgão. O advogado de 67 anos Torquato Jardim, crítico da Operação Lava-Jato, transita do Ministério da Transparência para onde vai agora o antigo titular da Justiça, Osmar Serraglio (PMDB), de 68. As mudanças foram consideradas pela oposição como "manobras".

"É uma modificação com um único objetivo: colocar um travão nas investigações da delação da JBS e na Lava-Jato", disse o senador Randolfe Rodrigues, do partido Rede Sustentabilidade. Também a Associação Nacional de Delegados da Polícia Federal enviou uma nota às redações dizendo que via com "preocupação" e "incerteza" uma mudança no Ministério da Justiça nesta fase por recear "interferências" no seu trabalho.

Jardim, o terceiro ministro da Justiça só em 2017 e sexto desde que a Lava-Jato foi deflagrada, questionou em entrevistas publicadas ontem na imprensa a delação de Joesley Batista, dono do gigante mundial de proteína animal JBS que gravou o presidente da República supostamente a pedir para comprar o silêncio do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha. "Um perito famosíssimo disse que houve 70 manipulações no áudio, por isso não sei se não é uma montagem de diálogo", afirmou Jardim em entrevista no jornal O Estado de S. Paulo.

Na mesma conversa, o novo titular da Justiça diz não ver nada de errado em Temer receber um empresário fora da agenda oficial, pela noite dentro. "Ele tem a cultura de parlamentar e um parlamentar tem que projetar a imagem de pessoa afável, acessível, a qualquer hora e em qualquer lugar". Jardim questiona ainda a competência do juiz do Supremo Tribunal Federal que se ocupa da Lava-Jato, o relator Edson Fachin, e voltou a criticar certos pontos da operação policial que vem agitando o Brasil a partir de Curitiba. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, o ministro tem carta branca do Palácio do Planalto para trocar a chefia da Polícia Federal, se assim o entender.

Interrogado pelos jornalistas em Alagoas, estado que visitou após cheias que desalojaram mais de mil pessoas, Temer não comentou a alteração ministerial.

Em paralelo, Gilmar Mendes, presidente do TSE e amigo íntimo do presidente da República, afirmou que o julgamento que vai analisar se houve abuso de poder económico na campanha conjunta de Dilma Rousseff (PT) e Temer em 2014, será "jurídico e não político". Há dois meses, Mendes havia falado em sentido contrário: respondendo a perguntas sobre a instabilidade política que o processo ao chefe de Estado geraria, disse que "os juízes não são de Marte".

Mas as mudanças ministeriais motivaram mais protestos da oposição. Serraglio, que saiu da Justiça por ser considerado "fraco" na defesa do governo nos meios judiciais, segundo aliados do presidente, foi poupado da demissão e apenas transferido para a pasta da Transparência, por troca com Jardim.

Ao manter-se no governo, Serraglio, que é deputado, não volta ao Parlamento, permitindo assim que o seu suplente continue no exercício do cargo e a gozar de imunidade parlamentar. Ora, o seu suplente é Rocha Loures (PMDB), o operacional filmado pela polícia a receber uma mala com 500 mil reais do delator Joesley Batista, alegadamente para dividir com Temer, de quem é homem da mais absoluta confiança, como o presidente afirma na gravação.

"Manter Serraglio no governo tem por objetivo manter Rocha Loures com o foro privilegiado enquanto deputado e assim impedir que ele faça uma delação premiada em primeira instância ao juiz Sergio Moro", acusou Alessandro Molon, deputado do Rede.

Serraglio até ontem ainda não havia respondido se aceitava a nomeação de Temer. Acusado de envolvimento na Operação Carne Fraca - surge numa escuta telefónica a falar com um dos principais envolvidos no esquema de corrupção em torno de grandes empresas de carne e fiscais do Ministério da Agricultura - caber-lhe-ia ocupar-se, enquanto titular da Transparência, do combate à corrupção.

* EM SÃO PAULO

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