"Meti-nos nesta confusão e vou tirar-nos dela", promete May

Na reunião com deputados conservadores, primeira-ministra assumiu responsabilidade pela perda da maioria. Negociações com DUP podem obrigar a adiar Discurso da Rainha

A primeira-ministra britânica, Theresa May, conseguiu acalmar ontem os deputados do seu partido, na primeira reunião com eles após perder a maioria no Parlamento. "Meti-nos nesta confusão e vou tirar-nos dela", terá dito May. Mas, ainda em negociações com o Partido Unionista Democrático (DUP, na sigla em inglês) para formar governo, a primeira-ministra poderá ter que adiar o Discurso da Rainha, que serve para o executivo apresentar as prioridades legislativas. Este estava previsto para a próxima segunda-feira, o mesmo dia do início das negociações do brexit, que também estão em risco.

"Não deteto nenhum grande apetite entre os meus colegas para sujeitar o público a uma nova dose massiva de incerteza ao envolvermo-nos numa campanha eleitoral autoindulgente no Partido Conservador", tinha dito de manhã o líder do comité de 1922, Graham Brady, à BBC. Este comité, composto por todos os deputados do partido, reuniu ontem com Theresa May, horas depois de o primeiro conselho de ministros pós-eleitoral.

No encontro, May terá admitido ser a responsável por deixar os conservadores no caos, acrescentando que também os tirará de lá. Os deputados, questionados à saída do encontro, disseram ter confiança na primeira-ministra, que deixou claro que iria servir o país "o tempo que vocês quiserem". Depois de os Tories terem perdido 13 deputados e a maioria no Parlamento, numas eleições convocadas por May com o intuito de reforçar o seu poder, surgiram rumores de uma eventual disputa pela liderança. Para já, contudo, esta parece estar afastada.

Mas, sem a maioria, May precisa de negociar um acordo com o DUP. E sem conclusões à vista, isso significa que o Discurso da Rainha poderá não acontecer na segunda-feira, como previsto. O discurso, lido por Isabel II no Parlamento em nome do governo, é impresso num pergaminho especial (chama-se goatskin paper, isto é, papel de pele de cabra, apesar de atualmente já não ser fabricado com este material), desenhado para sobreviver e ser legível durante 500 anos. O problema é que a tinta demora a secar e o discurso tem que ser enviado com dias de antecedência para a rainha aprovar. Diz-se que já haveria um preparado para uma maioria conservadora e outro para um governo Labour, mas a falta de maioria no Parlamento obriga a uma terceira versão.

O adiar do Discurso da Rainha "mostra o nível de perturbação e caos em que está o governo", disse à BBC o ministro sombra para o Brexit, Keir Starmer. Caso os deputados chumbem o discurso, isso equivale a um voto de não-confiança no governo.

As negociações entre Londres e Bruxelas para a saída da União Europeia estavam também previstas para começar na segunda-feira, mas poderão ser também adiadas. Desde logo porque o principal negociador do brexit, David Davis, devia falar após o Discurso da Rainha. A pressão interna é para May suavizar a posição no brexit - foi isso que ontem lhe pediu a primeira ministra da Escócia, Nicola Sturgeon - mas o porta-voz de May insiste que não há mudanças

Mas, sem qualquer alteração de planos por parte de Londres, Bruxelas ameaça atrasar as negociações durante um ano. Isto se o Reino Unido insistir em discutir um acordo de comércio com a chamada "conta" do divórcio (referente aos compromissos assumidos pelo país nos próximos anos). "Se eles não aceitarem as negociações faseadas, então precisamos de um ano para desenhar um novo conjunto de diretrizes de negociação para Barnier", indicou um diplomata europeu ao The Guardian.

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