Merkel defende refugiados no meio dos conservadores

No Congresso do PPE houve pressões para mudar Schengen

Para Merkel, refugiados de guerra, para Orbán, futuros eleitores de esquerda. O congresso do Partido Popular Europeu (PPE) - que terminou ontem em Madrid - mostrou que a política das migrações está longe de ser consensual dentro da família europeia. As posições vão desde de uma política de maior abertura de Angela Merkel às vedações de Viktor Orbán.

A chanceler alemã Angela Merkel foi ontem a única dos líderes conservadores a ser aplaudida e conseguiu galvanizar os congressistas quando defendeu que "todos os que chegam à Europa para fugir de uma guerra têm de ser tratados de forma humana". Merkel foi muito crítica da falta de meios que há no combate ao tráfico de pessoas no Mediterrâneo, lembrando que o Frontex (organismo que controla as fronteiras externas da UE) "está há dez anos a pedir ajuda, que não chega" e deu um murro na mesa: "Assim não pode ser! Assim não podemos proteger as fronteiras!"

Merkel até abraçou Orbán quando chegou, mas a partir daí foi uma coexistência pacífica. A lição de humanismo e a revolta de Merkel veio pouco mais de uma hora depois do primeiro-ministro húngaro ter dito que a chegada de refugiados/migrantes "é um processo descontrolado e não regulamentado" que "ameaça a democracia na Europa". No Congresso em Madrid, Orbán disse até que a entrada de refugiados é também a "importação de futuros eleitores de esquerda para a Europa" que entram "escondidos atrás da necessidade de humanismo."

Para o primeiro-ministro da Hungria, "o estilo de vida alemão, húngaro ou austríaco não é um direito básico de todas as pessoas no mundo, mas um direito para aquelas pessoas que contribuíram para isso." Quanto aos refugiados, no entender de Orbán há que "ajudá-los a voltar às suas próprias vidas, com dignidade, e nós temos que enviá-los de volta aos seus países ".

Também o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy dedicou grande parte da sua intervenção à crise de refugiados, dizendo que é "o maior desafio da história europeia", ao qual "não se pode responder com o velho [acordo de ] Schengen, que está obsoleto." Num discurso no mesmo congresso, o também presidente do partido Os Republicanos (ex-UMP) diz que é preciso "responder com solidariedade europeia, mas com um novo Schengen, em que sejamos solidários mas com critério".

A crise financeira foi muito dura, mas esta crise de migrações é muito mais difícil

Nicolas Sarkozy diz que o que está em causa é "a defesa dos valores europeus, que temos que defender para que os populistas não coloquem a culpa na Europa". Para o ex-chefe de Estado francês é preciso que a Europa imponha regras e se questione: "Quem somos? No que acreditamos". E a seguir responder que "não queremos que traiam a nossa identidade, a europeia".

Sarkozy falou mesmo diretamente para a "amiga" Merkel (eles que em tempos protagonizaram o eixo franco-alemão "Merkozy"), dizendo que "a Europa não pode ser ampliada e alargada quando os países não têm as mesmas condições", dizendo que a negociação da entrada da Turquia "não pode ser feita sob chantagem", mostrando-se pouco favorável à integração do país do Bósforo na União Europeia.

Merkel, por sua vez, insistiu que "é preciso dialogar com a Turquia", uma vez que não é justo que aquele país receba milhões de refugiados e a "União Europeia, que tem países ricos, não ajude com parte dos encargos que a Turquia tem que ter".

Sarkozy não foi a única das figuras do PPE a defender mais restrições para Schengen. Logo no primeiro dia de conferência, o presidente do PPE, Joseph Daul, defendeu que "para que Schengen possa funcionar não podemos aceitar toda a miséria do mundo".

Apesar disso, Joseph Daul lembrou que "a crise financeira foi muito dura, mas esta crise de migrações é muito mais difícil porque o que estamos a falar é de mulheres, homens e crianças que foram forçados a abandonar os seus países e são as suas vidas que estão em jogo".

Em Madrid

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