Mensagens machistas e homofóbicas: Porto Rico pede nas ruas a demissão do governador

Território norte-americano está envolto numa crise económica e ainda a recuperar da passagem do furacão Maria, em 2017. O "Telegramgate" parece ser a gota de água para os porto-riquenhos.

Imagine o que aconteceria se um dia as mensagens privadas que trocou com um grupo de amigos nas redes sociais acabassem publicadas na Internet? O governador de Porto Rico, Ricardo Rosselló, não precisa de imaginar: 889 páginas de mensagens da aplicação Telegram que enviou aos seus mais próximos colaboradores vieram a público e o resultado é que milhares de porto-riquenhos têm exigido nas ruas a sua demissão.

As mensagens revelam que o governador e os seus "brothers" (irmãos), como lhes chama, faziam trabalho partidário em horário laboral e usando recursos públicos. Mas incluem também memes, piadas e comentários depreciativos, de índole machista e homofóbica, tendo como alvo políticos da oposição mas também do seu próprio Partido Novo Progressista, jornalistas e até famosos, como o cantor porto-riquenho Ricky Martin.

"Não tenho orgulho do que fiz, foram meros comentários, mas foram comentários ofensivos. Peço desculpa pelo que fiz mas é preciso avançar e continuar o trabalho que estamos a fazer por Porto Rico", disse Rosselló, de 40 anos, quando as mensagens vieram a público. Reiterando que estas não provam qualquer ato criminoso, voltou a pedir desculpas noutra ocasião, dizendo que estava sob grande pressão, a trabalhar 18 horas por dia, e que as mensagens tinham sido para libertar tensão.

Desde o passado fim de semana que os protestos junto à residência oficial do governador, no centro de San Juan, têm sido diários. Em pelo menos duas ocasiões, os manifestantes envolveram-se em confrontos com a polícia, que usou gás lacrimogéneo para os dispersar.

As ruas exigem a demissão de Rosselló, filho do ex-governador Pedro Rosselló (1993-2001), mas ele insiste em manter-se no cargo, tendo contudo afastado vários funcionários envolvidos no escândalo. A Assembleia Legislativa de Porto Rico está a estudar a hipótese de um impeachment.

O que dizem as mensagens?

Uma fonte anónima partilhou com o Centro de Jornalismo de Investigação de Porto Rico as quase 900 páginas de mensagens do presidente com 11 dos seus mais próximos aliados, trocadas na aplicação Telegram e datadas entre dezembro de 2018 e finais de janeiro de 2019. A totalidade de mensagens foi conhecida no dia 13, já depois de umas primeiras terem sido reveladas dias antes.

As mensagens incluem memes, comentários depreciativos, além de piadas sobre jornalistas, políticos e ativistas. "A 'comandanta' deixou de tomar os seus medicamentos? É isso ou é uma tremenda FdP", escreveu Rosselló sobre a presidente da câmara de San Juan, Carmen Yulín Cruz. Noutra mensagem, um dos seus assessores diz que está "desejoso de disparar um tiro" contra ela, com o governador a responder: "Estarias a fazer-me um favor".

Outras mulheres que ocupam cargos políticos são simplesmente p****s, mas os ataques não são só para membros da oposição -- há também contra membros do seu próprio partido. Ou outras pessoas anónimas. O governador partilhou uma foto em que surge a cumprimentar um jovem obeso, com quem se encontrou, e escreve: "Não, não estou mais magro, é ilusão de ótica. Ele tem um campo de gravidade muito forte."

As celebridades, como Ricky Martin, juntaram-se aos protestos na quarta-feira. O cantos porto-riquenho foi um dos alvos das mensagens: "Ricky Martin é tão machista que f**e com homens porque as mulheres não estão à altura. Puro patriarcado", escreveu Christian Sobrino, que ocupava vários cargos dentro do governo e era o representante do governador na Junta de Supervisão Fiscal (nomeada pelo congresso norte-americano para gerir as contas da ilha após esta entrar em falência).

Noutra mensagem, o assessor de comunicação Carlos Bermúdez (que também já de semiriu) publicou uma foto de uma ativista feminista com uma T-shirt onde se lia: "antipatriarcal, feminista, lésbica, trans, caribenha, latino-americana". O comentário de Rosselló: "Isto deve ser algum tipo de recorde, não?"

Um caso à parte nos EUA

Colónia espanhola até 1898, quando foi cedida aos EUA, Porto Rico tem um estatuto particular. Os seus cidadãos têm nacionalidade norte-americana e liberdade de movimento entre a ilha e o continente, mas não podem votar nas presidenciais -- apesar de participarem nas primárias de democratas e republicanos. Estão representados no Congresso dos EUA, mas os seus representantes têm poderes limitados.

Em crise financeira profunda há vários anos e sem capacidade para pagar as suas dívidas, Porto Rico elegeu Rosselló em finais de 2016. Este prometia "construir um novo Porto Rico", alegando que não havia uma crise da dívida, mas uma "crise de credibilidade do governo", que ele prometia solucionar com transparência. Mas nas mensagens agora divulgadas vê-se, por exemplo, como tentavam manipular a opinião pública para dizer que os programas de recuperação (nomeadamente em termos de habitação) tinham sido um sucesso, quando sabiam que não tinha sido.

Desde 2016 que a ilha está sob controlo financeiro da Junta de Supervisão Fiscal, tendo pedido em 2017 a reestruturação da sua dívida. Para piorar a situação, a passagem do furacão Maria, em setembro desse ano, deixou a ilha dizimada -- oficialmente morreram 2975 pessoas (mas estima-se que no total tenham morrido 4645) e só passados 11 meses foi possível restaurar a eletricidade a todo o território. A ajuda vinda do continente tem sido lenta a chegar, em parte por causa do presidente norte-americano, Donald Trump, que se tem oposto ao envio de dinheiro.

"Uma série de coisas más estão a acontecer em Porto Rico. O governador está cercado, a mayor de San Juan é uma pessoa desprezível e incompetente em quem eu não confiaria, sob qualquer circunstância, e o Congresso dos EUA tolamente deu 92 mil milhões de dólares em ajuda para os furacões, muito do qual foi esbanjado ou desperdiçado, para nunca mais ser visto", escreveu Trump em duas mensagens no Twitter na quinta-feira, sobre a mais recente crise.

"Isto é mais do dobro do valor dado ao Texas e à Florida juntos. Conheço bem o povo de Porto Rico, são ótimos. Mas grande parte da sua liderança é corrupta e rouba o governo dos EUA!", acrescentou.

Na prática, Porto Rico não recebeu o dinheiro que Trump fala. O Congresso dos EUA destinou 42,5 mil milhões em ajuda de emergência, mas a ilha só tinha recebido menos de 14 mil milhões até maio. Trump assinou a libertação de mais um milhão em junho. A maioria do dinheiro ainda está em Washington, à espera que os responsáveis porto-riquenhos digam em que projetos o querem gastar e da aprovação federal.

Detenções por corrupção

As críticas de Trump aos líderes de Porto Rico não são novas e, no início do mês, foram de certa forma validadas com uma operação do FBI, que deteve seis pessoas, entre as quais uma ex-responsável da pasta da Educação e uma antiga diretora da Administração de Seguros de Saúde, por desvio de 17 milhões de dólares de fundos públicos federais com destinos políticos.

Rosselló, que estava de férias em França, regressou de emergência à ilha, reiterando que a sua administração não ia tolerar a corrupção e que "todo aquele que falte à confiança deverá pagar com todo o peso da lei".

Em maio tinham sido detidos outros três responsáveis, que trabalhavam no Senado, também acusados de corrupção. Não são os ú

e já estavam em alerta por causa da detenção de vários ex-funcionários do governo por alegada corrupção no valor de mais de 17 milhões de dólares e que questionam agora a total ineficácia do governo em lidar com a crise económica e os danos deixados pela passagem do furacão Maria, que atingiu a ilha em 2017.

O secretário do Tesouro foi demitido depois de denunciar às autoridades federais norte-americana a existência de uma mafia constitucional que está a tentar extorqui-lo. Há duas semanas o FBI deteve dois antigos responsáveis da administração, acusando-os de desvio de fundos para consultoria política.

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