Marine Le Pen em campanha com cofres meio cheios pelo pai

Líder da extrema-direita obteve seis milhões de euros de Jean-Marie Le Pen, mas precisa do dobro para a candidatura. Bancos franceses e estrangeiros negam-lhe fundos

"Não dependo dos dinheiros do Qatar (...), dos bancos e das multinacionais, da União Europeia e da Alemanha, que a domina", afirmou Marine Le Pen na apresentação da candidatura da dirigente da Frente Nacional (FN) às presidenciais francesas. A referência ao dinheiro explica-se facilmente: não está a conseguir obtê-lo!

Definindo-se como "livre" de responsabilidades na situação que se vive em França, Marine proibiu a utilização de referências à FN na campanha e criou uma página na internet só com o seu primeiro nome naquilo que é considerado uma tentativa de se distanciar de um patronímico com largo historial de controvérsias ligadas ao pai e fundador da FN, Jean-Marie Le Pen.

Se Marine procura cultivar distância política perante o pai, depende dele para financiar a campanha para o Eliseu, devido à dificuldade em obter crédito junto da banca francesa e internacional. Ela parte em campanha com seis milhões de euros, que "serão libertados em prestações", confirmava no final do ano o tesoureiro da FN, Wallerand de Saint Just. Mas a verba disponibilizada pelo pai "não é suficiente para as suas ambições", afirmou então o responsável pelas finanças da candidatura, Jean-Michel Dubois. Segundo este, são necessários 12 milhões para "se fazer uma campanha decente".

Para Marine, a posição da banca em França cria "um problema para a democracia: tornou-se um ator político, que determina quem pode ou não pode [receber empréstimos]. É uma forma de nos obrigarem a ir ao estrangeiro para depois nos acusarem de o fazermos". Segundo a líder da FN, foram contactados "todos os grandes bancos europeus", até agora sem resultado.

Mas a filha do fundador da FN esquece um detalhe importante: é que desde o "caso Bygmalion"- a tentativa de manipulação das contas da campanha de Nicolas Sarkozy em 2012, que levou à sua recusa pela entidade de supervisão -, os bancos mostram-se renitentes em realizarem empréstimos. Aliás, Sarkozy tem o nome ligado a um caso de financiamento oculto nas presidenciais de 2007, que ganhou à socialista Ségòlene Royal. Teria recebido uma importante soma, através do administrador da fortuna de Liliane Bettencourt, a herdeira das empresas L"Oréal, para a campanha. Uma campanha em que teria também recebido 50 milhões de euros do regime de Muammar Kadhafi. Este último caso está a ser investigado pela justiça francesa. Na primeira situação, Sarkozy foi ilibado "na ausência de provas suficientes".

Marine aposta numa campanha diferente das habituais. Quer percorrer França "num ciclo de conferências", que considera preferíveis aos comícios, para uma abordagem aprofundada das grandes questões. As redes sociais serão o seu principal suporte, pois "nenhum órgão de comunicação apoia a nossa candidatura", lamenta.

Para a candidatura de Marine, o inimigo número um é o candidato de centro-direita, François Fillon, primeiro-ministro ao longo da presidência de Sarkozy, definido como "ultraliberal dogmático e destrutivo".

Uma sondagem do instituto Elabe, divulgada quinta-feira pelo Les Echos, conforta a posição de Fillon até certo ponto. O candidato de centro-direita continua a ser o mais votado na primeira volta, mas em perda de velocidade para Marine, situando-se a vantagem do primeiro em apenas dois pontos percentuais. Mas as perspetivas começam a não ser brilhantes para ela. Emmanuel Macron, ex-ministro da Economia no segundo governo de Manuel Valls, surge em progressão, conseguindo em alguns cenários obter idêntico valor aos de Marine na primeira volta, a 23 de abril. O que abre a porta a um cenário novo: a ausência de Marine na segunda volta, a 7 de maio.

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