Manifesto dos cientistas contra a classe política: "Na saúde, vocês mandam, mas não sabem"

Mais de 50 sociedades científicas espanholas apelam ao poder político para parar com "tanta discussão e passar à ação".

"Na saúde, vocês mandam, mas não sabem". Esta é e mensagem dirigida pela comunidade científica à classe política espanhola num manifesto dirigido ao governo, aos vários partidos políticos e aos presidentes das 17 autonomias do país. No documento, 55 sociedades científicas que dizem representar mais de 170 mil profissionais da saúde exortam a classe política a "travar já tanta discussão" e a passar à ação na luta contra a pandemia de covid-19.

Segundo é avançado este domingo pelo jornal espanhol La Vanguardia, o manifesto corresponde às conclusões que saíram do I congresso covid-19, realizado em setembro, agora transformado num manifesto em forma de carta aberta e num abaixo-assinado aberto à subscrição dos cidadãos.

No documento, os signatários apontam dez medidas que a classe política deve seguir na gestão da pandemia. "Aceitem, de uma vez, que para enfrentar esta pandemia as decisões devem basear-se na melhor evidência científica disponível, desligada por completo do constante confronto político", refere o documento, pedindo também uma "resposta coordenada, equitativa e fundada exclusivamente em critérios científicos".

A "lentidão burocrática na resolução de temas legais, técnicos e administrativos só agrava" a situação, prossegue o decálogo subscrito pela comunidade científica, deixando uma advertência à classe política: "Parem com tanta discussão e passem à acão".

Defendendo um "protocolo nacional" que, sem prejuízo de atuações regionais diferenciadas, estabeleça critérios comuns de atuação de base científica e defina normas gerais de prevenção, tratamento dos pacientes ou o rastreio dos contactos dos infetados, o manifesto sustenta também que a organização dos serviços de saúde e as prioridades de atuação relativamente a outras doenças devem caber às autoridades de saúde "sem nenhuma interferência" do poder político.

"Em nome de mais de 47 milhões de espanhóis temos que mudar já tanta inconsistência política, profissional e humana", conclui o manifesto, uma mudança para a qual os signatários oferecem os seus conhecimentos.

Com o número de novos casos a aumentar de forma galopante de dia para dia, a gestão da pandemia em Espanha tem sido marcada por um constante ambiente de confronto entre as várias forças políticas e até mesmo entre o governo central e os responsáveis políticos das autonomias. O exemplo mais recente foi a imposição de novas medidas de confinamento na comunidade de Madrid, nomeadamente na própria capital, aplicadas a contragosto pela presidente da comunidade. Isabel Dyaz Ayuso (eleita pelo PP) recorreu, aliás, para os tribunais para tentar travar as medidas impostas pelas autoridades centrais.

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