Mais quatro anos de Merkel? Sim, mas sem virar à direita

Vencedora em 2005, 2009 e 2013, a chanceler democrata-cristã tem boas hipóteses de conseguir em 2017 um quarto mandato e recusa ceder ao discurso da nova direita populista

Angela Merkel deu há dias uma entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung na qual recusa qualquer viragem à direita da CDU para tentar competir com os populistas da AfD, que nas sondagens rondam os 10% dos votos. A resposta irritou a CSU, ala bávara dos democratas-cristãos, mas serviu também para se perceber que a chanceler pensa já nas eleições de 2017, onde poderá conquistar um quarto mandato.

Se é verdade que Merkel é um dinossauro da política europeia (quando chegou ao poder, em 2005, tinha de conviver nas cimeiras da UE com Chirac, Blair e Berlusconi), em termos alemães a sua longevidade como governante até não é excecional. Nem sequer é preciso falar de Bismarck, o primeiro chanceler ainda no século XIX. Basta pensar em Konrad Adenauer ou em Helmut Kohl. Este último liderou o governo de 1982 a 1998 e até foi quem, depois da reunificação, descobriu na ex-RDA a académica que começou por ser ministra e hoje está à frente da maior economia europeia.

Por tradição mais conservadores, os dirigentes da CSU não gostaram de Merkel ter ignorado uma promessa antiga de Franz Josef Strauss, figura durante muitos anos sinónimo de Baviera, de que "jamais haveria um partido democrático à direita" dos democratas-cristãos. Ou seja, do ponto de vista ideológico, a CDU/CSU teria de abranger o espaço que fosse do centro-direita à direita, dentro dos limites constitucionais. Ora se isso aconteceu sem dificuldade quando a concorrência era com o FDP (liberais, com a carteira à direita mas o coração à esquerda), não é dado garantido desde o surgimento da AfD, essa Alternativa para a Alemanha que começou por ser antieuro e se radicalizou desde que Frauke Petry se tornou a líder.

Refugiados como propaganda

Oriunda também da antiga Alemanha comunista, e tendo ainda em comum com a chanceler ser química de formação, Petry aproveitou a chegada de refugiados para ganhar votos junto da parte da população que teme ver o seu modo de vida posto em risco pela integração de um milhão de estrangeiros, em grande parte muçulmanos. E como afirmou ao jornal Le Monde, "a AfD lucrou com a viragem à esquerda de Merkel". País dividido quase ao meio entre católicos e luteranos (como Merkel, filha de um pastor), a Alemanha tem tido certo sucesso na integração dos imigrantes, com destaque para os turcos. Mas a vaga de refugiados assustou muito boa gente, depois da fase generalizada de boa vontade.

A par dos bons resultados da AfD nas recentes eleições regionais, fruto já do medo, houve sondagens nacionais que chegaram a dar 13% ao partido. Entraria assim no Bundestag como a terceira maior força, enquanto a CDU/CSU e os seus parceiros sociais-democratas do SPD juntos ficariam abaixo dos 50%. Entretanto, saiu nova sondagem que dá à AfD 10%, com a CDU/CSU a obter 34% e o SPD 21%. É possível que a notícia do desemprego em níveis mínimos desde a reunificação de 1990 tenha ajudado a esta recuperação de popularidade pela Grande Coligação.

Máquina de ganhar eleições

Merkel começou com um vitória mínima em 2005, dilatou a vantagem em 2009 e surpreendeu com 41,5% em 2001. Mas como é habitual na Alemanha, optou por coligações. Fê-las com o SPD agora e no primeiro mandato e com o FDP durante o segundo mandato.

Sobretudo nestes três últimos anos, tem sido evidente a governação centrista de Merkel, capaz de conciliar crescimento económico com preocupações sociais e ainda abrir as portas aos refugiados da Síria como nenhum outro governante europeu fez. E é provável que seja a fórmula que está na sua cabeça para prosseguir no poder mais quatro anos, renovando a coligação com o SPD. Como nota Jens Thurau, numa análise para a Deutsche Welle, "os alemães em geral provavelmente preferem a segurança e a familiaridade de uma Grande Coligação nestes tempos tensos do que quaisquer experiências". Mesmo assim, se o SPD quisesse voltar à oposição, Merkel poderia tentar uma fórmula com os verdes, dependendo dos resultados.

É verdade que os ecologistas começaram por estar a anos-luz dos democratas-cristãos quando surgiram na década de 1980, mas já há coligações entre ambos a nível regional, como no Hesse e agora também no Bade-Vurtemberga. No fundo, os verdes tornaram-se mais pragmáticos e Merkel, por seu lado, foi capaz de decidir o abandono gradual da energia nuclear.

Num futuro Parlamento, há ainda a incógnita do que representaria o regresso dos liberais, habitual partido-charneira, que no passado tanto governaram com a CDU/CSU como com o SPD (em 1982, até fizeram cair o governo de Helmut Schmidt para apoiarem Kohl). A AfD, por seu lado, sentar-se-ia num extremo, o oposto aos dos pós-comunistas do Die Linke, mas estes dois partidos deverão ficar excluídos de coligações.

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