Madrid resiste ao confinamento e pede ajuda ao Governo central

Capacidade das Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) está a 95%. Comunidade pede reforços do Exército e da polícia para auxílio nas tarefas sanitárias e controlo de restrições

A Comunidade de Madrid solicitou esta quarta-feira o apoio militar e policial urgente do Governo para ajudar nas medidas sanitárias e implementar as restrições que estão em vigor desde segunda-feira passada.

O Governo de Isabel Díaz Ayuso tem estado um passo atrás da maioria das regiões espanholas, que introduziram restrições semelhantes quando a pandemia era em números muito mais baixos, embora nenhuma tenha apresentado tais limitações para tanta população (850 000 habitantes) desde que foi decretado o estado de alerta, escreve o El Pais. Madrid reluta em declarar um confinamento em toda a região, algo que a sua presidente deixa como "última opção" devido ao seu impacto económico, mas mais vozes começam a soar entre os especialistas pedindo que não se atrasem estas restrições.

A comunidade, porém, rejeita, por enquanto, esta solução. "Decidimos solicitar formalmente ao Governo da Espanha em reunião esta quinta-feira o apoio logístico militar urgente para a instalação de tendas, realização de testes e trabalhos de desinfeção em cada uma das zonas básicas de saúde com restrições em vigor", enumerou esta quarta-feira Ignacio Aguado, vice-presidente e porta-voz do Governo Regional, após o Conselho Deliberativo.

"Em segundo lugar, solicitaremos o destacamento de 222 membros da Polícia Nacional e da Guarda Civil nas 37 zonas básicas de saúde para a realização de tarefas de fiscalização para o efetivo cumprimento das quarentenas e das sanções de não cumprimento", acrescentou. "E, em terceiro lugar, vamos pedir uma reforma expressa dos regulamentos atuais para incorporar imediatamente os 300 médicos não pertencentes à União Europeia que trabalharam durante a primeira vaga em Madrid e que agora, devido às atuais restrições do Estado, não podemos contratar", expressou, numa lista de pedidos que Madrid pretende concretizar na segunda-feira.

No Twitter, esta quarta-feira, MiguelHernán, professor de epidemiologia da Universidade de Harvard, resumia assim o estado das coisas: "O número de pessoas internadas nas unidades de cuidados intensivos (UCI) devido ao covid-19 em Madrid é maior do que o número de camas reais de UCI em cada hospital. Estamos mais uma vez perante uma grave emergência sanitária. As UCI eram a nossa última linha de defesa. Sem capacidade adequada de diagnóstico, rastreamento ou supervisão de isolamento e quarentena, a única coisa que restava era não sobrecarregar os hospitais. Um novo confinamento é necessário para manter reduzir a pressão hospitalar".

Embora as estatísticas oficiais indiquem que as UCI de Madrid tenham uma ocupação de 36%, Miguel Hernán diz que as camas especialmente preparadas para a pandemia para as quais existem pessoal e meios estão ocupadas em 95%. Ou seja, enquanto os 36% falem de todas as camas de UCI em que haja ventilador, independentemente da patologia e de se estar ou não num período pandémico. Hernán pede assim que a imprensa deixem de utilizar os números oficiais e usem os de médicos de 62 hospitais da Comunidade de Madrid.

"Madrid tem tantos hospitalizados por covid-19 hoje quanto no início do estado de alerta, mas a curva é mais plana, então o confinamento será mais curto. Além disso, não precisa de ser rigoroso", proclama Hernán em consonância com vários de seus colegas consultados, que propõem teletrabalho, encerramento de universidades, escolas secundárias, encerramento de vários espaços públicos, máscara no interior e no exterior quando não for possível manter dois metros de distanciamento social, parques abertos, passeios sem ajuntamentos e desporto ao ar livre.

Vários especialistas ouvidos pelo El Pais consideram que as medidas tomadas por Madrid são tardias e difíceis de cumprir. "Tudo o que a comunidade pede é necessário, são medidas de guerra, como as da primavera, mas insuficientes", diz Jesús Molina Cabrillana, secretário da Sociedade Espanhola de Medicina Preventiva, Saúde Pública e Higiene. Cabrillana defende um confinamento que se estenda praticamente a toda a região, devido à alta incidência da epidemia e por considerar ineficaz o confinamento em zonas sanitários interligadas que muitas vezes os cidadãos não entendem. O socialista Ramón Jurado, prefeito de Parla, que tem duas zonas básicas de saúde com restrições, exige que as restrições sejam estendidas a toda a cidade, justamente por causa da "confusão" que se tem gerado entre vizinhos.

Jurado apoia também a extensão do confinamento, a um valor equivalente ao que existia durante o estado de alerta na fase 1. José Martínez Olmos, professor da Escola Andaluza de Saúde Pública diz que "o tempo vai dar ou tirar razão", mas que dá a impressão de que há um atraso em Madrid.

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