Macron perto de resultado histórico e irrepetível

Partido do presidente deve eleger amanhã entre 440 e 470 dos 577 deputados do Parlamento. Governo quer mudar lei eleitoral e introduzir dose de proporcionalidade

O La République en Marche!, o jovem partido do presidente Emmanuel Macron, com a ajuda do seu aliado MoDem, deverá conquistar amanhã um resultado histórico na segunda volta das legislativas francesas. Uma sondagem da OpinionWay e da Harris Interactive mostra que deverão conseguir entre 440 e 470 dos 577 deputados, um caso inédito desde que o presidente Charles De Gaulle conquistou 80% do Parlamento em 1968. Mas será uma vitória irrepetível, pois o governo reafirmou ontem uma promessa feita por Macron durante a sua campanha: levar a cabo uma reforma da lei eleitoral e integrar "uma dose de proporcionalidade" às eleições.

"Vamos pedir ao Parlamento para trabalhar neste assunto", afirmou ontem na France 2 o secretário de Estado para o Digital, Mounir Mahjoubi. "Ao introduzir uma dose de representação proporcional, os partidos que têm votações mais baixas terão uma maior representação. Será mais justo, e acima de tudo, melhorará o debate", acrescentou o governante.

Esta semana, o primeiro-ministro Édouard Philippe também já se tinha mostrado favorável a esta ideia, defendendo que será "útil" introduzir "uma dose de proporcionalidade na Assembleia Nacional". Quanto ao tamanho dessa dose, o chefe do governo disse ainda não ter uma resposta. "Não sei se serão 10% ou 20%, é algo que teremos de ver em detalhe para saber quantos parlamentares vão ficar na Assembleia Nacional e como iremos organizar uma nova Assembleia, com menos deputados sem dúvida, com um modo de escrutínio diferente para os eleger".

O sistema eleitoral francês de duas voltas, usado em todas as eleições, incluindo as presidenciais, elimina os candidatos menos votados logo na primeira volta. Graças a este sistema, e a pactos desenhados para afastar os candidatos da Frente Nacional do Parlamento, Marine Le Pen, que teve o apoio de um terço dos franceses na segunda volta das presidenciais, estará muito longe desse resultado este domingo.

As sondagens mostram que o partido de extrema-direita poderá acabar com entre um e cinco deputados entre 577. Partido Socialista e aliados, bem como a França Insubmissa andarão entre os 20-30 eleitos, no caso do primeiro, e os 5 e os 15 para o movimento de Jean-Luc Mélenchon.

Maioria a favor de mudança

Ora, uma repartição proporcional poderá mudar totalmente a composição do Parlamento francês, apesar de Macron não ter especificado quer percentagem de proporcionalidade irá querer aplicar nas contas eleitorais.

De acordo com um simulador da BFMTV, se esta proporcionalidade fosse de 50% as projeções para a segunda volta das legislativas apontaria para que o La République en Marche! conseguisse 323 deputados, Os Republicanos 96, Frente Nacional e Partido Socialista 49 cada, e a França Insubmissa 45. Num cenário em que o governo mudava totalmente a lei eleitoral e a proporcionalidade se aplicasse a 100%, o partido de Macron elegeria 189 deputados, Os Republicanos 125, Frente Nacional 77, e França Insubmissa e Partido Socialista 79 cada.

"É efetivamente um risco", disse ao L"Express Bruno Cautrès, politólogo especialista em campanhas eleitorais da V República francesa. "Mas vimos na primeira volta que a lógica do voto por maioria levou a resultados extremos e representa um problema para partidos como a Frente Nacional ou a França Insubmissa, que tiveram votações não negligenciáveis e arriscam-se a ter poucos deputados".

Uma sondagem BVA para o L"Obs conhecida na quinta-feira mostra que 71% dos franceses são a favor de um sistema proporcional, 27% dizem mesmo ser "totalmente favoráveis" a esta alteração.

Este tipo de sistema eleitoral já foi testado em 1986, tendo dado uma maioria relativa à direita e 35 deputados à Frente Nacional, então liderada por Jean-Marie Le Pen. Por isso, não é de estranhar que os franceses que mais apoiam a alteração eleitoral anunciada pelo governo de Macron sejam apoiantes dos partidos que mais dificuldades têm em vingar com o sistema maioritário - 88% dos eleitores da França Insubmissa e 87% dos apoiantes da Frente Nacional.

Há ainda a ter em conta que, segundo o mesmo estudo, 54% dos franceses acha que uma maioria absoluta para o La République en Marche! é uma coisa má, sendo que apenas 44% considera que o previsível resultado da segunda volta das legislativas de amanhã é bom para o país.

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