López em domiciliária. Oposição a Maduro celebra

Após mais de três anos na cadeia e de três meses de manifestações consecutivas contra o regime de Nicolás Maduro, Leopoldo López, rosto da oposição, transferido para casa

Lilian Tintori queixou-se no Twitter que, na sexta-feira, só a tinham deixado estar com o marido durante uma hora e que este sábado exigia ficar mais tempo. Há 32 dias que não via Leopoldo López. Mas em vez de ela ter que ir à cadeia de Ramo Verde, uma vez mais, foi o marido que ontem de madrugada regressou a casa após mais de três anos sob detenção. O Supremo Tribunal de Justiça decidiu colocar em prisão domiciliária o líder do partido Vontade Popular, oposição, condenado a 13 anos, nove meses, sete dias e 12 horas de prisão efetiva. López foi declarado culpado de instigar às manifestações que em 2014 se saldaram na morte de 43 pessoas e centenas de feridos.

A sua libertação acontece depois de meses e meses de negociações, de pressão e mediação internacional, ao mais alto nível, de manifestações de protesto contra o regime de Nicolás Maduro. Nos últimos três meses pelo menos 89 pessoas morreram no decorrer deste tipo de manifestações. A notícia da transferência para casa de Leopoldo López, de 46 anos, foi confirmada pelo seu advogado espanhol, Javier Cremades, tendo-se espalhado rapidamente e levado dezenas de apoiantes da oposição a concentrar-se em frente à residência de López e Tintori. No comunicado do tribunal lê-se que a decisão relativa à prisão domiciliária se deve a razões de saúde. Mas até a própria família foi apanhada de surpresa, pois também a mãe de Leopoldo, Antonieta Mendoza, tencionava ir visitá-lo.

O ex-governador do estado de Miranda e ex-candidato presidencial da oposição Henrique Capriles congratulou-se com a transferência de Leopoldo López no Twitter e defendeu a sua libertação. "Tem que ter liberdade plena como todos os políticos", escreveu, na sua conta naquela rede social. "Leopoldo com medida de prisão substituta domiciliária. Deve avançar para a liberdade plena", escreveu, também no Twitter, o deputado da oposição e ex-presidente da Assembleia Nacional da Venezuela Henry Ramos Allup. O secretário da Mesa da Unidade Democrática, Ramón Guillermo Aveledo, manifestou, por seu lado, grande alegria pela notícia, sublinhando que, apesar de tudo, "a prisão continua a ser injusta". A Mesa da Unidade Democrática é uma coligação de vários partidos políticos que fazem oposição ao regime do presidente Nicolás Maduro. María Corina Machado, do Vente Venezuela, uma das opositoras mais ativas na defesa da libertação de López, falou num grande passo, que atribuiu à pressão feita nas ruas. "O regime começa a quebrar. É hora de avançar, com mais força nas ruas, até ao final", escreveu, no Twitter.

Do lado do regime, o ministro da Educação e membro do Partido Socialista Unido da Venezuela de Maduro, Elías Jaua, indicou que respeitam a decisão do tribunal em relação a Leopoldo López. "Acatamos a decisão do STJ. Oxalá a MUD a assuma com maturidade e pare com a violência", afirmou, na sua conta de Twitter, referindo-se aos confrontos que têm acontecido nos protestos entre manifestantes e membros das forças de segurança venezuelanas. Mas o contrário também se tem verificado: na quarta-feira um grupo de apoiantes de Nicolás Maduro invadiu o parlamento venezuelano, onde a oposição tem a maioria.

Além do problema da escassez, de alimentos, medicamentos, entre outros bens essenciais, os venezuelanos têm testemunhado e vivido uma escalada de tensão entre o regime e a oposição. Em março, o Supremo Tribunal decidiu assumir as funções do parlamento, denunciando a oposição um golpe de Estado a favor de Maduro. Depois o presidente resolveu convocar para 30 deste mês eleições para a Assembleia Constituinte que deverá redigir uma Magna Carta. E a oposição aprovou, para dia 16, um plebiscito em que os venezuelanos deverão decidir se querem continuar ou não a ser presididos por Maduro e se aprovam, ou não, a realização da Assembleia Constituinte. A consulta popular, diz a oposição, terá lugar junto das igrejas, escolas e praças públicas. Quaisquer que sejam os resultados de todos estes atos não estarão isentos de acusações de fraude e manipulação, quer de um lado quer de outro, como tem acontecido até agora.

Ao mesmo tempo em que exigiu a libertação de todos os presos políticos na Venezuela, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luis Almagro, afirmou ontem, no Twitter, que a libertação de Leopoldo López é "uma oportunidade de reconciliação nacional e uma saída democrática para a grave crise". O presidente da Argentina, Mauricio Macri, também pediu a libertação de todos os outros presos na Venezuela, através da sua conta de Twitter. Na mesma rede social, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, congratulou-se com a notícia da saída de Ramo Verde de López. E o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Alfonso Datis, declarou à agência Efe esperar que haja "eleições livres em breve". A Espanha, nomeadamente o ex-primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero, socialista, teve um papel importante na manutenção de canais de diálogo abertos com Maduro. Zapatero visitou López na cadeia em junho e ter-lhe-á sugerido que aceitasse domiciliária. Para já. Ontem, em comunicado, declarou que a medida "deverá permitir avanços a favor da paz e da convivência democrática para benefício de todos os venezuelanos".

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