Líder da extrema-direita cancela concurso de caricaturas de Maomé

Acostumado às ameaças de morte pelas suas posições anti-islão, Geert Wilders disse não querer que outras pessoas sejam colocadas em risco. Concurso tinha gerado protestos no Paquistão.

O deputado holandês Geert Wilders, líder do Partido para a Liberdade (extrema-direita), cancelou o concurso de caricaturas de Maomé que estava a organizar, depois de ter recebido ameaças de morte e após a detenção de um homem que planeava atacar o evento.

Representações da figura do profeta são proibidas no Islãom, para evitar a idolatria, e consideradas profundamente ofensivas para os muçulmanos.

"Decidi cancelar o concurso para evitar o risco de tornar as pessoas vítimas da violência islamita", afirmou Wilders num comunicado em holandês. "Não quero que os muçulmanos usem um concurso de caricaturas como uma desculpa para a violência", escreveu o deputado conhecido pelas suas posições anti-islão.

No passado, Wilders comparou, por exemplo, o Alcorão a um "livro fascista" (defendendo que devia ser ilegal na Holanda), falou de Maomé como sendo "o diabo" e acusou o Islão de ser um "cavalo de Tróia" na Europa. O líder da extrema-direita (o partido tem 20 deputados e é o segundo maior do país) conta com segurança armada desde 2004.

Numa segunda mensagem, em inglês, partilhou a notícia da agência AP sobre o cancelamento do concurso, escrevendo: "O Islão mostrou mais uma vez a sua verdadeira face com ameaças de morte, fatwas e violência. Contudo, a segurança dos meus compatriotas vem em primeiro lugar."

Ameaças

A polícia holandesa deteve na terça-feira um homem de 26 anos, que tinha feito ameaças de morte contra Wilders no Facebook e ameaçado atacar durante a realização do concurso, que ia decorrer nos escritórios do Partido para a Liberdade no Parlamento holandês a 10 de novembro. O prémio para o vencedor era de dez mil euros.

O concurso gerou também debate interno. O primeiro-ministro, Mark Rutte, questionou a motivação de Wilders. "O seu objetivo não é ter um debate sobre o Islão. O seu objetivo é ser provocador", afirmou, deixando contudo claro que por causa do direito à liberdade de expressão, o governo não iria procurar o cancelamento do concurso.

O homem que foi detido, alegadamente um paquistanês, ficará sob custódia policial durante pelo menos mais 15 dias, enquanto é investigado por ameaça terrorista, preparar um atentado terrorista e incitamento ao terrorismo.

Protestos no Paquistão

No Paquistão, cerca de dez mil de apoiantes do novo primeiro-ministro Imran Khan marcharam contra o concurso e apelaram ao governo ao corte de relações com a Holanda.

A realização do concurso na Holanda desencadeou protestos no Paquistão, com o governo paquistanês a considerar o anúncio do seu cancelamento como uma "grande vitória moral da comunidade muçulmana".

O que Wilders contestou no Twitter: "Não cantem vitória demasiado cedo. Ainda não acabei com vocês. Vou expor o vosso barbarismo de muitas outras formas."

Caricaturas polémicas

Em 2005, o jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou 12 caricaturas de Maomé (uma delas apresentava-o como um terrorista, com uma bomba), desencadeando o protesto dos embaixadores dos países árabes e provocaram violentos distúrbios em vários países muçulmanos, depois de os cartoons serem republicados na revista norueguesa Magazinet.

A redação do jornal dinamarquês já foi vítimas de inúmeros ataques e os autores das caricaturas ameaçados de morte.

As caricaturas seriam republicadas em 2006 em vários países europeus, incluindo pela revista francesa satírica Charlie Hebdo, que continua a publicar outras representações do profeta Maomé ao longo dos anos. A redação seria atacada em janeiro de 2015, num atentado terrorista que fez 12 mortos.

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