"Lenine teria sido brilhante no Twitter"

Victor Sebestyen escreveu uma das mais completas biografias sobre Lenine - a propósito dos cem anos da Revolução de outubro, que se cumprem na semana que vem.

Victor Sebestyen esteve em Portugal para lançar aquela obra no Festival Folio, em Óbidos, onde participou nesta entrevista ao vivo sobre uma figura tão importante no tema daquele evento literário, "Revoluções". O festival termina dia no dia 29 de outubro. Para ver o programa, clique aqui.

Se tivesse de escolher uma revolução que ainda hoje influencia o mundo, qual seria?

Obviamente a Revolução Russa. Muito do século XX foi vivido como resposta ao que aconteceu em 1917. Hitler não aconteceria, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria... O legado sobrevive. A ironia é que o comunismo na filosofia de Lenine, que supostamente é muito ocidental, teve o seu legado mais contínuo na Ásia e em África. A China ainda é comunista... e será o país mais importante do mundo muito em breve, senão já.

Se o império soviético ainda existisse escrevia o mesmo livro?

Bem, acho que seria difícil escrever o mesmo livro. Não teria acesso aos arquivos, não se saberia muita desta informação.

Na Rússia não está a ser celebrado este centenário...

Os motivos são simples e complexos. Putin e os que o rodeiam não têm problemas com Estaline, estão a reabilitá-lo não como comunista mas como grande nacionalista russo. Sabem que não podem esquecer o leninismo porque é parte da vida de todos com mais de 40 anos. Mas Lenine leva à palavra "revolução". Putin odeia-a. E é obvio: não transmite uma boa mensagem aos russos, agora, lembrar-lhes que podem livrar-se de um déspota corrupto e autocrático através de uma revolução. É até mais um sinal de medo, de fraqueza para Putin.

Porque escolheu Lenine para biografar?

Pensei: há um aniversário a chegar... E o que há mais interessante do que Lenine? ...Tudo o que se sabe sobre Estaline, a brutalidade, a paranoia... bom, o Estado soviético foi construído por Lenine, as instituições do terror, de intolerância e violência e a ideia de que os fins justificam totalmente os meios... tudo isso foi Lenine. Estaline aperfeiçoou-os, ou foi mais útil a usá-los.

O que descobriu na investigação que ainda não sabia?

Pode saber-se muito sobre alguém em teoria, mas quando lê escritos com a sua própria mão... A palavra que ele mais gostava era "atirem". Um manuscrito com a assinatura dele a mandar matar, é diferente. Outra coisa, eu não conhecia os relacionamentos importantes da sua vida com mulheres, a mãe, as irmãs. Ele tinha respeito, estava interessado nas mulheres e eu não quero dizer sexualmente interessado, levava-as a sério, as mulheres como os homens. É considerado frio e calculista, uma figura unidimensional muito distante, mas na verdade ele foi impulsionado tanto pela emoção quanto pela ideologia.

Conseguiu perceber como atingiu tal nível de poder e influência no mundo?

Porque queria poder.

Muitos querem.

Mas ele tinha uma ideia do que pretendia fazer. Conheço muitos revolucionários sentados nos cafés a discutir a revolução. A razão por que Lenine ganhou e os outros ainda estão a conversar no bar é que ele era um homem prático e podia fazer compromissos. Geralmente era ideólogo, mas quando as táticas estavam em conflito com a doutrina, ele normalmente escolhia a tática. A experiência que o comunismo tenta fazer é extraordinariamente ambiciosa. Assim sendo, a repercussão do seu falhanço é também épica. Não queria mudar só uma sociedade, economia ou estrutura política. Queria mudar os seres humanos. Lenine é como um líder religioso. Se ele tirasse o motivo de lucro e todos trabalhassem para o bem comum, isso mudaria os seres humanos.

Pensa que ele já tinha tudo desenhado quando chega a Petrogrado, vindo da Suíça?

Sabia o que queria fazer, disse o que ia fazer 15 anos antes. Sabia a tática, todos os estádios. Sabia que teria de ser um Estado com um partido único, ele nunca partilharia o poder com outras pessoas. E sabia o preço que muitas pessoas teriam de pagar por isso. Era um programa muito trabalhado.

Diz que Lenine é um fenómeno muito moderno...

Era bastante populista, de forma muito moderna. Mentiu descaradamente, achou que ganhar era tudo, prometeu tudo, soluções muito simples para problemas muito complexos, sabia que precisava de um bode expiatório... Hoje ouvimos tantas pessoas como ele... Lenine teria sido brilhante no Twitter. Vendeu a sua mensagem em slogans extraordinariamente simples e curtos.

Por exemplo?

No período do governo provisório, depois de fevereiro de 1917: paz, terra, pão. Todos os dias, repetida. É muito menos do que 140 caracteres. Lenine poderia usar as redes sociais brilhantemente. A sua grande criação foi um partido muito controlado, que dirigiu de forma muito centralizada, mas com grupos de células. Lenine poderia apontar o caminho exatamente, era assim que operava como partido. "Dê-me cem pessoas e eu posso transformar a Rússia", dizia. E aconteceu. Um dos seus grandes livros, o mais influente, são cerca de trinta mil palavras é O Que Fazer. O ISIS usa-o, Hitler leu-o com muito cuidado... Lenine teria usado as tecnologias de agora de maneira eficiente.

Se ele fizesse hoje um tweet, qual seria?

"Revolução, outra vez." Ele teria visto este momento como um momento de revolução.

Steve Bannon rotulou-se de leninista num discurso...

Bannon e outros. E noutros lugares do mundo, há este momento revolucionário. O que se pretende também é destruir tudo e criar de novo. Lenine veria isto como um momento revolucionário. O que estamos a ver é que as assunções que tínhamos, a globalização, o liberalismo, parecem enterradas. Muitos milhões não acreditam nelas. Lenine dizia que, quando os dirigentes não conseguem dirigir à maneira a que estavam habituados e os dirigidos se recusam a ser dirigidos da forma antiga, é a revolução. E estamos nesta situação. Há muitas pessoas que já não têm as certezas em que acreditavam e cresceram a acreditar... Lenine, como outros demagogos estão a fazer, e não só o Trump, a Grã-Bretanha está cheia de demagogos, dizendo mentiras...

Apresentando respostas simples para problemas complexos...

As pessoas querem ouvir que tudo irá passar-se sem sofrimento. Uma espécie de nirvana...

E sem revolução...

Sem revolução. Ouvimos o termo elite global muitas vezes. Lenine usava o termo. E costumava dizer, bem, matemos alguns... por exemplo banqueiros, e tudo ficará bem. Ouvimos isto. Livremo-nos da classe política que nos trouxe aqui. Trump diz isso a toda a hora. A frase na Grã-Bretanha agora é "inimigos do povo e sabotadores", outro favorito de Lenine. O The Daily Mail resume assim nas manchetes os que não concordam com o brexit.

Vê Trump como um revolucionário?

Grande pigmeu...

Podem os grandes pigmeus governar o mundo?

Oh, é uma frase infeliz que escolhi. Não posso ver Trump nesta linha de Lenine, ele não é um revolucionário, realmente não sabe o que é. Provavelmente nem sabe escrever corretamente revolução.

Devemos ter medo?

Bem, eu acho que sim.

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