Le Pen sobe após ataque, mas ainda está atrás de Macron

Líder da Frente Nacional é a única dos quatro favoritos a subir na primeira sondagem após a morte de polícia. Eleições são amanhã

A campanha para as primeiras presidenciais francesas a decorrer em pleno estado de emergência - já dura há 17 meses - terminou ontem centrada na segurança, após a morte de um polícia num ataque na véspera em Paris, reivindicado pelo Estado Islâmico. O primeiro-ministro francês, Bernard Cazeneuve, acusou dois dos candidatos de querer explorar o ocorrido: Marine Le Pen pediu o "restabelecimento imediato das fronteiras nacionais" e François Fillon prometeu "mão de ferro" contra o "totalitarismo islâmico". A líder da Frente Nacional foi contudo a única a subir na primeira sondagem feita após o ataque (mais um ponto percentual, para os 23%), ainda assim atrás do favorito, Emmanuel Macron (caiu 0,5 para 24,5%).

"A França tem que deixar de ser ingénua", disse ontem Le Pen na sede de campanha, alegando que "há dez anos, com governos de direita e de esquerda, tudo foi feito para perdermos" a guerra contra o terrorismo. Entre as propostas da líder da Frente Nacional estão reintroduzir os controlos fronteiriços e expulsar os estrangeiros que estejam na lista de suspeitos de terrorismo (conhecida como "ficha S"). Cazeneuve lembrou que, "como após qualquer drama", Le Pen "aproveita para instrumentalizar e dividir". E acusou-a de querer "explorar sem vergonha o medo e a emoção com fins exclusivamente políticos".

Mas as críticas do primeiro-ministro foram também para Fillon, que alegou ter havido mais ataques na noite de quinta-feira em Paris - a polícia nega. O candidato d"Os Republicanos falou ainda na necessidade de "nos rearmarmos no plano de segurança, militar e diplomático, mas também ideológico e cultural" contra o islão radical. "Ele preconiza a criação de dez mil cargos na polícia. Como acreditar num candidato que, quando era primeiro-ministro, suprimiu 13 mil cargos nas forças de segurança interna", questionou Cazeneuve.

Também Macron, que ainda se mantém como favorito na passagem à segunda volta, a 7 de maio, pediu aos franceses para não "cederem às ofertas mais altas para responder ao evento trágico que enluta o nosso país". Lembrando que "viveremos longamente com a ameaça terrorista", causou polémica nas redes sociais quando disse que não ia "inventar um programa de luta contra o terrorismo do dia para a noite". Indicou depois que o seu programa já inclui a proposta de criar dez mil cargos na polícia e a ideia de instalar junto do gabinete do presidente um órgão de coordenação" contra o Estado Islâmico.

Na sondagem Odoxa para a revista Le Point, a primeira feita após o ataque, Fillon caiu meio ponto percentual em relação ao mesmo inquérito de opinião feito na véspera. Surgia ontem com 19% das intenções de voto, os mesmos de Jean-Luc Mélenchon, o candidato da França Insubmissa (que também cai 0,5%). Este recusou cancelar o ato final de campanha em Paris - como fizeram Macron, Le Pen e Fillon - alegando que "a violência não terá a última palavra face aos republicanos". Também o socialista Benoît Hamon, que está em quinto lugar na sondagem, com 7,5%, manteve o comício que tinha previsto, em Carmaux, dizendo recusar "suspender a democracia". Ainda assim, fez um minuto de silêncio em homenagem ao polícia morto.

Não é contudo certo o impacto que o ataque, que ocorreu a três dias da primeira volta das presidenciais, terá nos eleitores. Em Espanha, o atentado que fez 191 mortos em Madrid, a 11 de março de 2004, precisamente a três dias das eleições, teve um impacto profundo na votação, que seria ganha pelo socialista José Luis Zapatero. O então primeiro-ministro José Maria Aznar, que era o grande favorito nas sondagens para conquistar um terceiro mandato com maioria, insista em atribuir o ataque aos independentistas bascos da ETA, quando as pistas já apontavam para os islamitas.

Mas, outros ataques em França que ocorreram antes de atos eleitorais - incluindo os ataques de novembro de 2015 em Paris antes das regionais e um tiroteio numa escola judaica antes das presidenciais de 2012 - não pareceram influenciar os eleitores a votar em quem apostava em mais segurança. Segundo as sondagens de opinião, as grandes preocupações dos eleitores são o desemprego e a falta de confiança nos políticos. Contudo, o presidente norte-americano, Donald Trump, não parecia ter dúvidas do impacto do ataque, escrevendo no Twitter: "Outro atentado terrorista em Paris. O povo francês não vai aguentar muito mais. Terá grande impacto nas eleições presidenciais!"

Velho conhecido da polícia

O ataque nos Campos Elísios foi perpetrado por Karim Cheurgi, um francês de 39 anos, quase metade dos quais atrás das grades. Mas as autoridades estão a tentar descobrir se tinha cúmplices, indicando que não havia qualquer sinal de radicalização no seu passado. Além disso, na reivindicação do Estado Islâmico, o autor do ataque é identificado como Abu Yusuf al-Beljiki ("o belga"). Um homem com o mesmo apelido, que estava assinalado pelas autoridades da Bélgica por questões relacionadas com drogas, entregou-se às autoridades em Antuérpia e não terá afinal nada a ver com o ataque de Paris.

Cheurgi chegou aos Campos Elísios num Audi (que estará em seu nome), colocando-se ao lado de um carro da polícia que estava frente ao número 102. Saiu então do veículo e disparou uma kalashnikov na direção do vidro do condutor, atingindo mortalmente Xavier Jugele, um polícia de 37 anos. Depois, segundo o procurador de Paris, François Molins, Cheurgi contornou o carro e disparou contra outros agentes que estavam no local, onde há uma delegação do Turismo da Turquia. Feriu outros dois polícias (um deles com gravidade) e uma turista alemã antes de ser morto pelos agentes.

Junto ao seu corpo, as autoridades encontraram uma nota escrita à mão a defender as causas do Estado Islâmico. No porta-bagagens estava uma espingarda. Foram feitas buscas no apartamento onde vivia, no subúrbio parisiense de Chelles, e três pessoas foram detidas para interrogatório.

Cheurgi é um velho conhecido das autoridades, mas ao contrário do inicialmente divulgado não era um "ficha S". Em 2007 foi condenado a 15 anos de prisão por tentativa de homicídio de um polícia, tendo tentado noutras ocasiões (quando estava em liberdade condicional) atingir agentes de segurança. Em julho de 2014 foi condenado também por roubo, não havendo provas de radicalização na prisão. Em fevereiro deste ano, chegou a ser detido por suspeita de querer matar polícias, mas acabaria libertado por falta de provas. A 7 de abril foi chamado pelo juiz, ao qual tinha obrigação de se apresentar, porque tinha viajado até à Argélia sem autorização.

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