Le Pen só aceita 10 mil imigrantes/ano e quer fazê-los pagar escola dos filhos

A líder da Frente Nacional garante que a solidariedade nacional tem de ter como prioridade os franceses e garante que se chegar ao poder "acabou-se a festa" para os estrangeiros.

No preâmbulo de 27 de outubro de 1946, a Constituição francesa garante que "a organização do ensino público gratuito e laico é um dever do Estado", acrescentando desde 1959 que a escolaridade é obrigatória para todas as crianças - "francesas ou estrangeiras" - entre os 6 e os 16 anos. Uma determinação legal que não impediu esta quinta-feira Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional que todas as sondagens colocam na segunda volta das presidenciais do próximo ano, de defender o fim do acesso gratuito à educação para os filhos de imigrantes ilegais em França, referindo ainda que os filhos de estrangeiros (sem especificar se excluía cidadãos da União Europeia) cujos pais estejam no desemprego terão de pagar "uma contribuição" para ir à escola.

"Considero que a solidariedade nacional deve ter como prioridade os franceses. Não tenho nada contra estrangeiros, mas digo-lhes: "Se vêm para o nosso país não estejam à espera que tomemos conta de vocês, da vossa saúde, que os vossos filhos sejam educados gratuitamente, isso acabou, acabou-se a festa!", garantiu Le Pen no pequeno-almoço Pop 2017, organizado pelo instituto de sondagens BVA com os candidatos às presidenciais do próximo ano. A líder da extrema-direita explicou a sua posição com o facto de a escola ter de "absorver uma imigração cada vez maior". Com ela no Eliseu, garantiu à AFP, "acabou-se a escolarização dos clandestinos. E os estrangeiros terão de contribuir para o sistema escolar, a não ser que façam os descontos de forma legal".

Segundo dados do Ministério da Educação, a França gasta em média 6917 euros por ano por cada aluno do primeiro ciclo, o que a coloca como o país da União Europeia que mais gasta por aluno, só atrás da Alemanha (Portugal gasta em média 6200 euros por aluno por ano).

Mal foi anunciada por Le Pen, esta proposta gerou críticas dos restantes partidos. A começar pelo Partido Socialista, cuja porta-voz, Corinne Narassiguin, denunciou uma "enorme provocação" por parte da líder da extrema-direita, que revela "o verdadeiro rosto da Frente Nacional".

Esta proposta avançada agora pela candidata da Frente Nacional não constava do programa apresentado pelo partido em 2012. E levanta questões quanto à sua constitucionalidade. Para as presidenciais, Le Pen só deverá apresentar as suas propostas finais em janeiro, mas no verão passado já levantou o véu sobre o seu programa económico. Uma das prioridades da extrema-direita continua a ser a saída do euro e uma inflação de 4%. Também com a limitação da entrada de imigrantes legais a dez mil por ano, a FN espera poupar cerca de 40 mil milhões de euros ao longo dos cinco anos de mandato. Neste momento, a França recebe 200 mil imigrantes por ano, vindos de fora da União Europeia.

A este objetivo soma-se o de reduzir as despesas públicas em 60 mil milhões. Se chegar ao poder, Marine Le Pen pretende ainda flexibilizar a lei das 35 horas, permitindo acordos setoriais com os trabalhadores para contratos de 39 horas semanais. Do lado da receita, todos os franceses teriam de pagar IRS, mesmo de forma "simbólica", com a FN a querer alargar o número de particulares e empresas tributáveis.

Pôr a França em ordem

Numa entrevista à televisão TF1, na quarta-feira à noite, Marine Le Pen garantiu que quer "pôr a França em ordem em cinco anos", libertando o país das "exigências da União Europeia". A líder da Frente Nacional prometeu ainda "pôr a laicidade em ordem", "pôr a justiça em ordem" e avisou que "o crescimento do fundamentalismo islâmico no nosso país é um perigo muito grande para as mulheres".

Quanto aos adversários para as presidenciais, Le Pen foi muito dura: "Porque há primárias à direita e à esquerda? Porque não têm um líder. É uma prova de fraqueza."

Enquanto a líder da Frente Nacional prossegue a campanha - ao final da manhã esteve no mercado de Natal dos Campos Elísios -, na esquerda Emmanuel Macron reafirmou que não tenciona participar nas primárias, rejeitando um pedido do primeiro-secretário do PS, Jean-Christophe Cambadélis. Depois de o presidente François Hollande ter anunciado que não era candidato a um segundo mandato, na segunda-feira o primeiro-ministro Manuel Valls avançou, deixando a chefia do governo.

Apesar das promessas de união da esquerda, Valls continua a surgir atrás de Macron nas sondagens. Le Pen, essa, surge taco-a-taco com o vencedor das primárias da direita, François Fillon. Mas este venceria facilmente na segunda volta.

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