Le Pen fala de tortura, música e da perda do olho, mas poupa Marine

No primeiro volume das Memórias, o fundador da Frente Nacional aborda a época desde o seu nascimento em 1928 até 1972.

Enquanto os militantes da Frente Nacional se reúnem hoje em Lille, Jean-Marie Le Pen vai estar em Paris numa sessão de autógrafos do seu livro de memórias. Filhos da Nação, o primeiro volume da autobiografia do fundador da Frente Nacional, relata a vida de Le Pen desde o nascimento, em 1928 até à fundação do partido de extrema-direita, em 1972. A primeira edição, de 50 mil exemplares esgotou ainda antes de ser posta à venda, com os leitores desejosos de ler uma obra cheia de declarações polémicas como quando garante que o marechal Pétain "não caiu em desonra ao assinar o armistício" com a Alemanha nazi em 1940 ou quando garante ter "pena" da filha, Marine, atual líder da FN.

Marine Le Pen sucedeu ao pai à frente da formação de extrema-direita em 2011, tendo expulso o fundador da FN quatro anos mais tarde, tudo parte de uma estratégia para desdiabolizar o partido. Nos dois dias de congresso, os militantes devem votar a abolição do cargo de presidente de honra do partido, que Le Pen, de 89 anos, continuava a ocupar apesar da expulsão.

Com um segundo volume das memórias de Le Pen em preparação e com publicação prevista para este ano, os jornais franceses começaram logo a divulgar excertos do primeiro volume. Num deles, Le Pen defende-se das acusações - publicadas em 1984 pelo jornal satírico Le Canard Enchaîné - de ter participado em torturas durante a guerra da Argélia. "Este horror, a nossa missão era de lhe pôr fim. Então, sim, o exército francês praticou a questão para obter informações durante a batalha de Argel, mas os meios que usou foram os menos violentos possível. Estamos a falar de golpes, a [eletrocussão com um dínamo originalmente usado para alimentar a radiotelefonia portátil] e a banheira, mas nenhuma mutilação, nada que toque na integridade física", escreve.

De Céline Dion a perder um olho

Num outro excerto, Le Pen confessa a sua paixão por cantar. De tudo. "Canto em todo o lado [...] E de tudo. Canções de embalar que a minha mãe me ensinou, cânticos da minha avó, cantigas de pescador do meu pai, canção francesa de Tino Rossi a Céline Dion [...] tudo mesmo [...] cânticos da Legião alguns dos tempos da Whermacht, canções da Comuna de Paris ou dos republicanos espanhóis, alguns anarquistas, alguns fascistas ou monárquicos", garante no livro.

Le Pen conta ainda o episódio que o levou a perder um olho quando participava na campanha de Jean-Louis Tixier-Vignancourt para as presidenciais de 1965. "Em Hyères, enquanto manejava o martelo [...] atingi o olho, tive de ser hospitalizado. Descolamento de retina. Chatice. Tive de deixar a caravana antes de Nice, apanhar o comboio com os dois olhos vendados, apoiado em Pierrette [a primeira mulher", lembra agora.

E se as partes sobre a filha Marine são menos agressivas do que muitos estavam à espera, O Menir, como o apelidam os apoiantes que apreciam a sua verticalidade e solidez, não deixa de abordar a relação com a sua sucessora à frente da FN. "Ainda é cedo para falar das minhas filhas. Posso dizer mal delas, como às vezes faço quando me provocam [...] Marine acaba de viver umas presidenciais e legislativas dececionantes. [Florian] Philippot e os seus deixaram-na, está com dificuldade em voltar. O próximo congresso da FN anuncia-se complicado", escreve, antes de admitir que Marine "já foi suficientemente castigada para que não a sobrecarreguemos. Um sentimento domina-me quando penso nisso: tenho pena dela".

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