Lava-Jato (2014-2020). "Acabei com ela porque não há corrupção no meu Governo", diz Bolsonaro

Sérgio Moro afirma que fim da operação "é o triunfo da velha política". Um ex-procurador acrescenta que o presidente, na verdade, a encerrou "por medo". Oposição e ex-bolsonaristas também criticam. E no executivo há ministros sob investigação judicial.

"Eu acabei com a Lava-Jato porque não tem mais corrupção no Governo", disse Jair Bolsonaro nesta quarta-feira, 7, em cerimónia no Palácio do Planalto. A frase gerou reações em cadeia da oposição, de dissidentes do Governo de extrema-direita e, também, de Sérgio Moro, o juiz que liderou a maior operação contra a corrupção na história do Brasil.

"As tentativas de acabar com a Lava-Jato representam a volta da corrupção. É o triunfo da velha política e dos esquemas que destroem o Brasil e fragilizam a economia e a democracia. Esse filme é conhecido. Valerá a pena se transformar em uma criatura do pântano pelo poder?", disse o ex-ministro da Justiça, que saiu do executivo acusando Bolsonaro de interferir nas polícias para benefício da sua família.

Para o antigo membro da task force da operação em Curitiba, Carlos dos Santos Lima, o presidente acabou com a Lava-Jato "por medo". O procurador afirmou ainda que ao ser "um dos responsáveis por matar" a operação", Bolsonaro se une a "Renans [o ex-presidente do Senado Renan Calheiros], Maias [o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia], Aras [o procurador-geral da República Augusto Aras], Toffolis e Gilmares [os juízes do Supremo Dias Toffoli e Gilmar Mendes], e todos, de mãos dadas em torno do grande acordo nacional para salvar o sistema podre e nefasto da corrupção política".

Segundo Lima, o presidente é "um estelionato [fraude] vergonhoso". Em campanha, Bolsonaro foi um ávido defensor da Lava-Jato: "Os que hoje se colocam contra ou a relativizam estão também contra o Brasil e os brasileiros. Todo o apoio à operação que está tirando o país das mãos dos que o estavam destruindo", disse logo antes das eleições. E logo que ganhou a presidência convidou Moro para ministro da Justiça.

Já o deputado Ivan Valente, do esquerdista PSOL, disse que Bolsonaro "jamais poderia dizer que acabou com a Lava-Jato, porque isso é interferir no MPF". O discurso do presidente, continuou, "é criminoso e ridículo".

A ex-líder parlamentar do Governo no Congresso, a deputada Joice Hasselmann (PSL), hoje em rota de colisão com Bolsonaro, acusou o presidente de mentir. "Ele acabou com a Lava-Jato para proteger os novos aliados", escreveu, referindo-se ao "centrão", conjunto de partidos que trocam assumidamente apoio aos governos por cargos no poder público e foram alvejados pela operação.

Paulo Ganime, deputado do partido Novo, preferiu analogias para criticar. "Eu cancelei o plano de saúde pois eu estou saudável. Parei de fazer exercício pois estou já estou magro. Cancelei o seguro do carro pois não bati. A lógica é péssima, e fica pior ainda pelo facto de a corrupção não ter acabado no Brasil."

Roberto Freire, do Cidadania, falou do aparalhamento da polícia durante o Governo de Boslonaro. "Bolsonaro desmanchou o COAF [órgão que investiga transações financeiras suspeitas]; colocou o amigo do amigo dos filhos no comando da Polícia Federal; pôs na Procuradoria-Geral da República um inimigo da Lava-Jato; forçou a demissão de Moro; mudou a Receita [equivalente à Autoridade Tributária e Aduaneira] para blindar o enriquecimento familiar; indicou para o Supremo um aliado do 'centrão' [o juiz Kássio Nunes]. O que acabou foi o combate à corrupção."

E, apesar do que disse Bolsonaro, no seu Governo há casos de corrupção: o ministro Marcelo Álvaro Antonio, titular do Turismo e com a tutela da Cultura, é arguido num esquema de lançamento de candidatas-fantasma na eleição de 2018.

O ministro Ricardo Salles, do Ambiente, foi condenado, em primeira instância, pela Justiça do estado de São Paulo, por cometer fraude na elaboração de um plano de proteção ambiental com o propósito de beneficiar empresas de mineração.

O ministro Paulo Guedes, da Economia, é investigado pelo Tribunal de Contas no âmbito de operação que apura irregularidades cometidas por si ainda como empresário do mercado financeiro.

O ex-ministro Osmar Terra tornou-se arguido por improbidade administrativa ao suspender a autorização de produções audiovisuais LGBT para a televisão pública, já depois de ter gasto 400 mil euros no processo de seleção.

O também ex-ministro Luiz Mandetta, da Saúde, é alvo de quatro processos na qualidade de secretário municipal da mesma pasta, em Campo Grande, capital do estado do Mato Grosso do Sul.

E o ministro Onyx Lorenzoni, da Cidadania, fez um acordo com a justiça para devolver dinheiro não declarado para as suas campanhas.

O líder parlamentar do Governo no Senado, Fernando Bezerra, foi alvo de mandado de busca e apreensão por receber subornos em obras no nordeste do país.

E o senador Flávio Bolsonaro, que não pertence ao Governo, é figura central de um escândalo milionário de corrupção que envolve desvio do salário dos assessores para seu proveito, compra de imóveis em dinheiro vivo e lavagem de dinheiro numa loja de chocolates.

A prerrogativa de encerrar operações como a Lava-Jato, no entanto, não cabe a Bolsonaro, mas sim à PGR. E a PGR, embora tenha ajudado a encerrar a secção de São Paulo da operação, afirma dar ainda apoio institucional aos trabalhos. No mesmo dia do discurso de Bolsonaro a dar por concluída a operação, era deflagrada no Rio de Janeiro a sua 76.ª fase - com quatro mandados de busca e apreensão relacionados a esquemas de corrupção na área comercial da Petrobras.

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