Kanye West abandona o "irmão Trump" para concorrer à Casa Branca. "Em nome de Deus"

Depois de ter apoiado Trump nas últimas eleições, o músico americano anunciou ser ele próprio candidato à presidência dos Estados Unidos.

A altura não podia ser mais bem escolhida, a 4 de julho, dia da independência dos Estados Unidos, Kanye West anunciou que será candidato à presidência dos Estados Unidos já nas próximas eleições. Poucos dias antes, havia lançado o single Wash Us in the Blood. O tema aborda as questões raciais e mereceu os maiores elogios da crítica, classificado em diversos meios como "a melhor música" feita por West nos últimos anos. O anúncio da candidatura poderá assim, dizem algumas más-línguas, de uma mera ação de marketing, com a intenção de promover o novo álbum, provisoriamente intitulado de God's Country e com edição prevista ainda para este ano.

Em defesa do músico diga-se todavia que não seria preciso arriscar tanto para vender discos. Afinal, West é um dos mais sucedidos artistas da história da indústria musical, com 140 milhões de discos vendidos e vencedor de um número recorde de 21 prémios Grammy, além de ser dono de um império empresarial que se estende da moda à tecnologia e lhe valeu a entrada na lista dos multimilionários da revista Forbes. E também não é novidade para ninguém o seu interesse pela política, nem a imensidão do seu ego, apenas talvez comparável o seu não menos gigantesco talento.

A primeira vez que se anunciou como candidato à Casa Branca foi já em 2015, durante a cerimónia de apresentação dos MTV Video Music Awards, precisamente para as eleições deste ano, apesar de há apenas alguns meses ter adiado essa intenção para 2024. Entretanto, tudo mudou outra vez, apesar de, talvez, já ser um pouco tarde demais, pois o atraso na entrega da candidatura já não lhe permite ir a votos em seis dos 50 estados americanos. Pormenores que não parecem incomodar o rapper, músico e produtor nascido há 43 anos em Atlanta, Geórgia, desde há alguns anos convertido ao cristianismo (os seus últimos álbuns têm todos uma temática religiosa) e para quem chegar à presidência dos EUA parece fazer parte de uma espécie de missão divina, como deu a entender na rede Twitter, aquando do anúncio da candidatura, sob a hastag #2020VISION: "Devemos realizar a promessa da América e confiar em Deus, unificando a nossa visão e construindo o nosso futuro".

Contra o "irmão" Trump. Com apoio de Musk

Nas anteriores eleições, em 2016, Kanye West surpreendeu o mundo ao manifestar o seu apoio a Donald Trump, a quem chegou a visitar na Casa Branca, envergando um boné com o slogan "make America great again". Na altura, o músico classificou Trump como "um herói" e manifestou o seu "amor" pelo presidente, o que lhe valeu algumas críticas de grande parte da comunidade afro-americana. West rejeito as críticas, afirmando que pensa pela "própria cabeça" e que "lá por se ser negro não temos de apoiar sempre o Partido Democrata".

O pior foi quando em maio de 2018, numa errática entrevista ao site TMZ, afirmou que "a escravatura foi uma escolha", provocando, logo ali, a acesa reação de um jornalista negro que, na redação, assistia à entrevista, transmitida em direto via internet. As declarações arderam como pasto seco pelas redes sociais, com quase todos os comentários a criticar as palavras do músico e, mais tarde, surgiram as habituais desculpas: De que se tratava de "uma simples metáfora" à alegação que o rapper estaria sob o efeito de medicamentos. Mesmo assim, continuou a apoiar Trump, a quem chegou a chamar "irmão", até ao início deste ano, dando sempre a entender em várias entrevistas que ira continuar a votar no atual presidente. No entanto, tudo parece ter mudado na sequência da morte do afro-americano George Floyd às mãos de um polícia branco em Minneapolis, a 25 de maio. Logo no início de junho,

West manifestou pela primeira vez o seu apoio público ao movimento "Black Lives Matter", sempre muito criticado por Trump e ainda segundo noticiou a CNN, terá feito uma doação de dois milhões de dólares às famílias de George Floyd e de Ahmaud Arbery, outro negro morto em fevereiro, enquanto jazia jogging na cidade de Brunswick, no estado da Geórgia. Portanto e ao contrário do que se poderia prever, não será pelas fileiras do Partido Republicano que irá concorrer à presidência. Nem tampouco se sabe quem estará a seu lado na corrida a Washington, sem bem que logo após o anuncio da candidatura recebeu um apoio de peso do empresário Elon Musk - "Tens todo o meu apoio", declarou no Twitter o fundador da Tesla e da empresa de transporte espacial SpaceX. Outra apoiante, embora esta mais óbvia, foi a socialite Kim Kardashian, mulher de Kanye West. Mais corrosiva foi a também socialite Paris Hilton, que nas redes sociais lançou também uma suposta candidatura, sob o lema "Paris para presidente", claramente desvalorizando o anúncio de West.

Músicos contra Trump

O anterior apoio de Kanye West a Trump era uma espécie de exceção, que confirmava a regra da conflituosa relação entre o atual presidente e as estrelas do firmamento pop-rock. Ao contrário do antecessor, Barack Obama, que sempre contou com um enorme apoio neste segmento do eleitorado, os problemas de Trump começaram logo na campanha de 2015, quando dezenas de músicos e de bandas o proibiram de usar as respetivas músicas em qualquer ação de campanha eleitoral.

A lista incluía gente tão diferente como REM, Aerosmith, Adele, Queen, Pharell Williams, Rihanna, Axl Rose, Rolling Stones ou Beatles (neste caso pela voz da viúva e do filho de George Harrison). Alguns, como os herdeiros de Prince, chegaram mesmo a processar o atual presidente. Já outros, como Bruce Springsteen ou Neil Young, preferiram confrontar diretamente Trump, afirmando reiteradamente a sua oposição ao presidente, usando palavras como "vergonha" e "fraude" para a ele se referirem. E nem mesmo assim Trump deixou de usar o tema Rock in the Free World nos comícios.

"Cada vez que ouvir a minha voz nos seus comícios, lembre-se que é a voz de um cidadão americano que paga os seus impostos e não o apoia", escreveu Neil Young, músico nascido no Canadá mas entretanto naturalizado americano, numa carta aberta na qual manifestava o apoio a Bernie Sanders, entretanto ultrapassado por Joe Biden, como candidato pelo partido democrata.

A lista de apoiantes de Sanders era aliás digna de figurar como cartaz dos melhores festivais de música. Strokes, Public Enemy, Ariana Grande, Vampire Weekend, Cardi B, Jack Johnson e Jack White foram alguns dos nomes que atuaram nos comícios do senador do Vermont, o que a dada altura lhe valeu a alcunha de Bernchella, numa contração do seu nome com o do popular festival americano Coachella. A lista de apoios incluía ainda gente como Bon Iver, M.I.A., Devendra Banhart, Jello Biafra, Kim Gordon, Thurston Moore, Stephen Malkmus, Michael Stipe, Flea ou Cat Power. Já o candidato democrata Joe Biden conta a seu lado com estrelas do calibre de Cher, Barbra Streisand, Rufus Wainwright, David Crosby, John Legend, Cindy Lauper ou Kid Rock. Donald Trump, como é visto, não entra para este campeonato, mas uma eventual candidatura de Kanye West pode mudar as regras do jogo, apesar de, pelo menos na intensão, nem sequer ser algo inédito, pois já em 1991 Frank Zappa tinha manifestado igual vontade, nunca concretizada devido à morte do artista, apenas dois anos depois.

Quanto a Kanye West, até poderá nem ter o apoio de muitos dos seus colegas de profissão, mas para um artista que já se comparou a Steve Jobs, Beethoven ou Picasso isso nunca será um problema - ele vale por todos. Agora só resta esperar, ver se realmente concorre e não se trata, afinal, do tal golpe de marketing. Depois, tudo é possível. E se for eleito até pode querer fazer como o nosso Manuel João Vieira, o eterno putativo candidato à presidência da república portuguesa, que nunca escondeu ao que ia, caso um dia vencesse as eleições: "Obviamente demito-me".

Mais Notícias