Kamala: as raízes indianas da vice de Biden

Nomeação para vice de Biden é motivo de orgulho para a família materna na Índia. Em criança, frequentava tanto o templo hindu como a igreja batista afro-americana.

Apesar de se considerar afro-americana (a questão é feita nos censos nos EUA e noutros documentos oficiais), Kamala Harris, filha de um jamaicano e de uma indiana, também tem orgulho nas suas raízes do sul da Ásia. E a sua nomeação como candidata a vice-presidente de Joe Biden é um motivo de orgulho para a família que ainda vive na Índia.

"Venho de uma longa linhagem de mulheres fortes, pioneiras, fenomenais. A minha avó percorria as aldeias na Índia com um megafone, dizendo às mulheres pobres como podiam ter acesso a contracetivos. A minha mãe veio para os EUA aos 19 anos para estudar endocrinologia na Universidade de Berkeley e eventualmente tornou-se uma investigadora de topo na área do cancro", escreveu em 2017, destacando a importância da família da mãe, Shyamala Gopalan, no seu percurso político.

Sobre Shyamala, de que tem falado recorrentemente nos seus discursos, Kamala já contou que nasceu em Chennai, capital do estado de Tamil-Nadul, no sul da Índia, onde era uma cantora talentosa que, desde jovem, sonhava tornar-se cientista. O pai - um oficial do governo que lutou pela independência da Índia - autorizou-a a viajar para os EUA para estudar, acordando que no final dos estudos voltaria à Índia para um casamento tradicional.

Mas, na universidade, Shyamala apaixonou-se por um estudante de Economia da Jamaica, Donald J. Harris, e ambos acabaram por se casar. Kamala, a primeira filha, nasceu em Oakland, na Califórnia, em 1964. Maya, a segunda filha, nasceu em 1967. O casamento acabaria contudo por não durar, com o casal a separar-se quando Kamala tinha 7 anos, ficando as filhas a viver com a mãe (a maior parte do tempo na Califórnia, mas também durante cinco anos no Canadá, onde a mãe deu aulas na universidade).

O templo hindu e a igreja batista

A música fazia parte do lar e eram os artista afro-americanos que era ouvidos, com a mãe a cantar Aretha Franklin e o pai, amante de jazz, a ouvir Thelonius Monk ou John Coltrane. Mas a comida em casa era indiana: "Muito arroz e iogurte, caril de batata, dal [prato normalmente à base de lentilhas], muito dal, idli [bolo de arroz]", contou à atriz Mindy Kaling, também de origem indiana, num vídeo em que ambas cozinham.

Apesar do divórcio, a mãe tinha sempre presente as raízes afro-americanas das filhas, pelo que Harris frequentava em criança tanto uma igreja batista como um templo hindu. "A minha mãe percebeu muito bem que estava a educar duas filhas negras e estava determinada em garantir que iríamos crescer e tornar-nos duas confiantes e orgulhosas mulheres negras", escreveu Harris na sua autobiografia The Truths We Hold, citada pelo site Politico.

Kamala foi a primeira procuradora distrital negra (e a primeira de ascendência indiana) em São Francisco, tendo sido também pioneira em ambos os sentidos como procuradora-geral do estado da Califórnia. Também foi a primeira senadora de ascendência indiana e a segunda afro-americana a ser eleita para o Senado.

Agora é a primeira candidata de origem indiana e afro-americana candidata à vice-presidência. "Podes ser a primeira, mas garante que não és a última", foi um dos lemas que a mãe lhe ensinou.

A política estava-lhe no sangue: "Os meus pais foram muito ativos no movimento pelos direitos cívicos, marchando e gritando por justiça. Crescemos a ouvir sempre que tínhamos a responsabilidade de servir", disse numa entrevista, quando era candidata a senadora.

Nesta quinta-feira (13 de agosto), Kamala voltou a lembrar a mãe, que morreu em 2009, numa mensagem no Facebook. "A minha mãe costumava dizer sempre: 'Não te limites a ficar sentada e a queixar-te das coisas. Faz alguma coisa.' Gostava que ela estivesse connosco esta semana", escreveu.

Viagens à Índia

Shyamala viajou várias vezes com as filhas para a Índia e, quando morreu em 2009, Kamala regressou "para mergulhar as suas cinzas na baía de Bengala". O tio Balachandran Gopalan, um académico em Nova Deli, contou à AFP que Harris não fala tamil, a língua do estado de Tamil Nadu de onde a família é, "mas consegue perceber um pouco". De facto, Kamala significa "flor de lótus" não só em sânscrito e hindi como também em tamil.

Gopalan acredita que a nomeação da sobrinha é muito importante para os norte-americanos de origem indiana. "Até agora, só alcançaram empregos profissionais e alto nível, mas este é um dos mais importantes cargos políticos", acrescentou.

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