Juppé já faz sombra a Sarkozy e pode roubar-lhe corrida ao Eliseu

Sondagens dão vantagem ao ex-presidente nas primárias, mas antigo primeiro-ministro tem a simpatia da esquerda moderada

Nos dois anos em que foi primeiro-ministro de Jacques Chirac, que lhe chamava "o melhor de nós", ganhou a alcunha de Amstrad, um computador popular na época, por causa da sua imagem de eficiência e rigor algo cinzenta. Agora goza de uma popularidade crescente entre os franceses e está a discutir de igual para igual com Nicolas Sarkozy as primárias da antiga UMP (entretanto rebatizada de Os Republicanos) que decidirão o candidato do partido de direita às presidenciais de 2017.

"Alain Juppé é uma figura unificadora que consegue falar sobre qualquer assunto sem criar divisões e controvérsia. E nós precisamos disso porque a França está numa encruzilhada. O extremismo está a crescer em França e se não conseguirmos lidar com isso tudo pode acontecer", explicou recentemente Samuel Delayhe, um autarca que faz parte do comité de apoio a Juppé na Normandia, em declarações ao The Guardian.

A França está desorientada, assustada, fraturada e o ódio está a espalhar-se

"A nossa sociedade não está bem", disse Juppé num comício no final de outubro. "A França está desorientada, assustada, fraturada e o ódio está a espalhar-se. Mas eu recuso-me a ceder aos intelectuais que dizem que o país está em declínio. A França pode dar a volta. Temos de quebrar este clima de suspeição e construir uma sociedade de confiança", prosseguiu, referindo-se às mensagens de extrema-direita e anti-imigração que começam a dominar a cena política. O antigo primeiro-ministro, de 70 anos, é neste momento um dos políticos mais populares de França, um nome desejado por vários quadrantes para suceder a François Hollande no Palácio do Eliseu após as presidenciais de 2017.

O seu maior rival nas primárias d"Os Republicanos - que se realizam a 20 e 27 de novembro de 2016 e são abertas aos franceses em geral - é Nicolas Sarkozy. Mas enquanto o ex-presidente se está a afastar do centro e a aproximar-se da direita, piscando o olho aos eleitores da Frente Nacional com discursos nacionalistas e contra a imigração, o antigo primeiro-ministro segue na direção oposta, defendendo moderação e paz social. Mensagem que agrada à esquerda, que vê Hollande ser o presidente mais impopular de sempre e receia não ter um candidato que consiga bater dentro de dois anos Sarkozy ou Marine Le Pen.

Uma sondagem realizada pela BVA para a imprensa regional francesa publicada no dia 2 deste mês, e que conta apenas com a opinião de eleitores de direita e centristas, mostra que Sarkozy, na primeira volta, ganha a Juppé por 38% contra 31%. Na segunda votação a vantagem continua a ser atribuída ao ex-presidente, mas passa a ser de 52% contra 48%, pois a maioria dos simpatizantes dos candidatos que não irão além da primeira volta prefere Juppé. Mas a popularidade do antigo primeiro-ministro nem sempre foi assim. Com a carreira política iniciada nos anos 1970, quando conheceu Jacques Chirac e se tornou seu conselheiro na Câmara de Paris, Juppé foi mais tarde líder de dois governos durante a presidência de Chirac, de 1995 a 1997. E é até hoje um dos mais odiados, senão o mais odiado, primeiro-ministro francês dos tempos modernos. As suas alterações no sistema de pensões foram contestadas nas ruas por dois milhões de pessoas em 1995, naquela que foi a pior greve que o país enfrentou desde o Maio de 1968. Antes e depois disso ocupou várias vezes o cargo de ministro, desde os Negócios Estrangeiros, à Defesa e ao Orçamento, até ao Desenvolvimento Sustentável, pela mão de presidentes como o socialista François Mitterrand ou Sarkozy.

A presidência da Câmara de Bordéus é, no entanto, o cargo que por mais tempo ocupou... e ainda ocupa. Juppé foi eleito autarca desta cidade no sudoeste do país em junho de 1995, um mês depois de chegar a primeiro-ministro, e por lá ficou até dezembro de 2004, altura em que se demitiu. Motivo: foi condenado a uma pena suspensa de 14 meses de prisão e ficou impedido de exercer cargos públicos durante um ano por causa de um esquema de corrupção que, nos anos 80, colocou de forma ilegal militantes do partido de Chirac na lista de assalariados da Câmara de Paris.

E o que podia ter sido o ponto final da sua carreira política não passou de uma vírgula, pois voltou a ser eleito para a Câmara de Bordéus em 2006. A opinião geral é que este esquema de corrupção não o beneficiava pessoalmente e que acabou por sofrer as consequências para salvar Chirac, presidente na altura da condenação.

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