Juan Carlos. Uma saída a contragosto e negociada palavra a palavra

Diário El País conta, neste domingo, os bastidores do processo que resultou na saída do país do rei emérito de Espanha.

Uma saída a contragosto, um texto negociado palavra a palavra, uma decisão a meio caminho do que pretendia o governo liderado por Pedro Sánchez: neste domingo, um artigo do jornal El País desvenda o processo que levou à saída do país do rei emérito Juan Carlos, concretizada na última segunda-feira.

O jornal conta que tudo se desenrolou ao longo do mês de julho, em conversas entre Felipe VI e o seu pai, mas o desfecho só ficou acertado já no final do mês, num encontro presencial entre Juan Carlos e Felipe VI no gabinete de trabalho do atual rei, na presença de Jaime Alfonsín, chefe da Casa do Rei. A decisão seria comunicada ao líder do executivo, Pedro Sánchez, a 31 de julho, mudando a agenda de um encontro entre Sánchez e os presidentes das autonomias.

Sánchez já teria manifestado a Felipe VI a sua preocupação pela sucessão de notícias que implicavam o nome de Juan Carlos em alegados esquemas de corrupção e branqueamento de capitais, defendendo que era preciso preservar a monarquia dos sucessivos escândalos, mas terá deixado ao rei a definição da forma como isso deveria ser feito, garantindo o seu apoio em qualquer caso. Segundo o El País, a solução preferida por Sánchez não era aquela que veio a concretizar-se, mas uma saída de Juan Carlos do Palácio da Zarzuela, permanecendo no país. Tudo decorreu em absoluto sigilo: além do líder do governo espanhol, só a primeira vice-presidente, Carmen Calvo, estaria a par do que se passava.

Sánchez chegou a fazer declarações públicas qualificando como "inquietantes e perturbadoras" as notícias sobre a fortuna de origem suspeita que Juan Carlos terá no estrangeiro, nomeadamente na Suíça, mas a decisão de Felipe VI não se deve às decisões do governo, diz o jornal, mas aos resultados dos inquéritos que a Casa Real faz regularmente para aferir a popularidade da monarquia, e que refletiam uma queda alarmante, sobretudo entre os espanhóis com menos de 45 anos.

Segundo o diário espanhol o governo e a Casa Real trocaram informação sobre as várias opções jurídicas que seriam possíveis para afastar Juan Carlos da coroa. A mais simples, de um ponto de vista legal, seria a renúncia voluntária ao título de rei honorífico, uma solução que Juan Carlos não aceitou e que o Felipe VI não quis impor sem o acordo do pai. Outra alternativa passaria por o rei abdicar da imunidade de que beneficiou até 2014, mas esta não é possível juridicamente.

A hipótese foi então a saída de Juan Carlos do Palácio da Zarzuela, uma opção que num primeiro momento também foi recusada pelo rei emérito. O jornal compara a atitude do rei perante este cenário com aquela que teve quando se tornou público o safari no Botswana, e o então rei se refugiou no silêncio, recusando-se a pedir desculpas públicas.

Mas Juan Carlos acabou por ceder, aceitando a contragosto deixar o palácio real. Os termos em que essa decisão seria comunicada aos espanhóis foram cuidadosamente redigidos, palavra a palavra, especialmente na parte em que é dito que o rei se vai "mudar, neste momento, para fora de Espanha".

Na carta que foi tornada pública, Felipe VI expressa ao pai "o sentido respeito e agradecimento pela sua decisão". Um desfecho consumado na última segunda-feira, com Juan Carlos a deixar o país. O destino do rei emérito não foi divulgado, e surgiram várias teses, entre as quais Portugal ou a República Dominicana. Mas a hipótese que vai ganhando mais força é a de que o rei está em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos.

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