"Tenho a certeza que em Portugal financiaram campanha de fake news contra mim"

O brasileiro Jean Wyllys abandonou o cargo de deputado no Brasil por temer pela própria vida. Hoje vive em Berlim e veio a Portugal a convite da Fundação Saramago. "A resistência não precisa de mártires", diz. E continua a resistir de onde estiver.

Uma multidão, de flores em punho, esperava o ex-deputado à porta da Casa do Alentejo, em Lisboa. Jean Wyllys, a convite da Fundação Saramago, veio a Portugal para duas conferências. Em Coimbra receberam-no bem, mas o incidente que fez manchete foi o ovo atirado a Wyllys. E é por aí que começa a intervenção. Com comida.

Do ovo que atiraram disse que iria fazer uma omelete. E cumpriu. Rebentam os aplausos na sala.

Veio munido da sua história que, em breve, será um livro com o título "Nada será como antes". E nada será. Da família pobre e negra da Bahia, homossexual assumido, Jean sabe o que é o preconceito. "O primeiro deputado que me insultou publicamente é hoje o Presidente da República".

Jair Bolsonaro assumiu o cargo em janeiro deste ano mas há anos que coleciona polémicas. Jean Wyllys foi o protagonista de uma. "Ele elogiou o torturador Alexandre Dutra. Um torturador. O de Dilma Roussef. Cuspi nele e não me arrependo". Mais aplausos.

Agora vive em Berlim. Em liberdade, é certo, mas as ameaças continuam. Começaram a tornar-se assunto sério em 2011. "Houve uma campanha pérfida contra mim. E eu tenho a certeza que pessoas aqui em Portugal financiaram essa campanha de fake news contra mim.

Os ataques contra o deputado e a família motivaram um "cárcere próprio". "Somatizei toda a situação. Se tivesse ficado teria morrido. E a nossa causa não precisa de mártires". Não saiu de ânimo leve. "Foi muito triste ter percebido que o Brasil não era mais um país para mim".

Ser negro e gay é um atestado de morte. "Existe um racismo estrutural e uma homofobia que tem vitimado tantos negros e negras. Amigos, amados, vozes importantes".

À pergunta do Diário de Notícias sobre o que diria aos brasileiros residentes em Portugal que votaram em Bolsonaro, Jean responde assim: "Já tive raiva. Hoje é pena. Cavaram um abismo tão grande e eles também estão lá".

O discurso termina com os gritos em uníssono "Marielle presente. Lula livre". E a multidão continua lá fora.

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